pedro cabrita reis – nos últimos dias da exposição «one after another a few silent steps», ccb

Pedro Cabrita Reis
Erro e Ganho em Busca da Permanência

One after another, a few silent steps… Assim intitulou Pedro Cabrita Reis a sua retrospectiva de cerca de 30 anos de trabalho patente no Museu Berardo. Depois de vista na Alemanha, França e Bélgica, a mostra encontra-se patente até princípios de Outubro. Para ver, esculturas, pinturas, fotografias e desenhos.

TEXTO E FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES

Pedro, pode sumariar-nos o que se encontra aqui exposto? E, já agora, porque o título One after another, a few silent steps…?
É uma súmula da índole poética daquilo que é, ao fim ao cabo, a vida de cada um de nós. Temos, coexistem em nós, em velocidades diferentíssimas, ou bastante aceleradas ou mais tranquilas, por vezes pára-se por completo, por vezes reduzimo-nos ao silêncio, logo a seguir podemos sair com grande intensidade, ao fim ao cabo, esse título, que é um título escrito por mim, ou extraído de uma peça de texto minha, digamos tem a ambição, provavelmente excessiva, não sei, mas pelo menos tem a intenção de ser um objecto… Esse conjunto de palavras, esse título, funciona quase como uma peça ou uma escultura, quase a par das outras, e que tem atrás de si essa ideia que é pautar a velocidade de vida, que é também um pouco a velocidade da criação, e dar de algum modo a ideia, digamos, que não é uma linha direita. O atelier, a vida de um artista, o seu tempo de criação, o seu tempo de vida, como qualquer outra pessoa, não é uma linha que tenha o mesmo ritmo e a mesma intensidade a todo o momento.

Há então um desfasamento entre o tempo de vida e o momento criativo? Uma diferença entre o ritmo criativo e o da vida fora do espaço íntimo do artista?
Não creio que há desfasamento. Eu não partilho a ideia que a vida é uma coisa e a arte é outra. Ambas as coisas são e não são ao mesmo tempo a mesma coisa. Encontram-se, trocam-se, escondem-se, uma da outra, voltam a encontrar-se, viram as costas por vezes, mas de qualquer forma, essa dialéctica, esse processo relacional não permite qualquer cisão, qualquer desfasamento entre uma e a outra. Eu não diria que há… digamos, não há dois tempos que se acompanhem directamente. Há um tempo, que é o tempo da existência e a existência engloba a vida e engloba a criação artística.

Mas são rumos ou linhas paralelas?
Não são paralelos, são duas linhas que se cruzam e descruzam, encontram e voltam a desencontrar-se, separam e se afastam e se voltam a reunir.

Atrás falou no reduzir-se ao silêncio. Até que ponto é ele fundamental ao artista?
No meu caso, tem para mim uma vivência muito real. O silêncio é o momento de entrada absoluta e sem quaisquer concessões e hesitações dentro de um interior que é o interior do qual nasce o pensamento com que vamos plasmar as obras, com que vamos olhar para o mundo. Esses silêncios são importantes. São momentos de… de alguma forma, assumirmos por completo e absoluto, desligados por completo de tudo aquilo que rodeia – este “possível” é óbvio que é totalmente impossível – mas é sempre um momento em que se desce dentro de si próprio para se voltar a sair.

Esse momento, de algum modo, é um momento de contraponto, de grito, isto por oposição ao silêncio inicial que é o do mergulho interior?
Bom, é evidente que há, é comum imaginar-se que as obras de arte representam uma espécie de declaração sobre o mundo, que vem carregada de intenções de transformação, profundas intenções de mudança. Provavelmente isso será verdade, mas também é verdade que uma obra de arte não é um grito, no sentido em que não é disruptiva, isto é, não interrompe de alguma forma aquilo que é o método do pensamento sobre o mundo. O artista tem um método de pensamento sobre o mundo que é o seu, que é construído por todos os fragmentos de vida que foi ao longo do tempo burilando e com eles construindo um modo de olhar, e as obras de arte são palpitações, são materializações desse pensamento e que vão construindo, ao longo do tempo, digamos, uma cartografia de entendimento não só da vida, carreira e obra desse artista, mas também da posição que ele tem no mundo enquanto indivíduo ao lado dos outros indivíduos.

É essa a ambição da obra de arte? Dizer o mundo?
A ambição de uma obra de arte é sempre cartografar por completo, repito a palavra porque é importante, cartografar por completo a noção do mundo. Cada obra de arte ambiciona, de alguma forma, esgotar tudo o que se possa dizer e pensar sobre o mundo.

E consegue chegar-se lá perto?
Nunca se chega, por isso é que se continua a trabalhar.

Isso causa alguma ansiedade ao artista, o estar consciente de que dificilmente lá chegará, por mais que trabalhe?
O artista não sabe se dificilmente lá chegará, a única coisa que ele tem a consciência exacta é que ele nunca chega em apenas uma obra. E portanto o que conta é a transitoriedade, é a continuação, é o nomadismo, é a viagem. O que conta é o caminho, mais do que os momentos em que se pára ao longo do caminho.

O que é que uma retrospectiva ensina ao artista no momento em que acaba de a montar e vê o seu trabalho de décadas em perspectiva?
Ensina essa inevitável obsessão de continuar. Digamos, a grande conquista, a grande vitória interior, o encontro que se tem consigo próprio, é no sentido de pesadas as coisas, vistas em confronto, ouvidos os diálogos que elas entre si estabelecem, nomeadamente até os silêncios, as confrontações e até as recusas recíprocas, toda essa harmonia, toda essa estrutura relacional entre elas, a única coisa que, de facto, nos ensina é essa necessidade de continuar.

Tem-se referido à vida como um contínuo de dilacerações, na qual cada instante no imediato se torna perda e passado. Uma retrospectiva, por um instante que seja, pode dar ao artista a noção de que nem tudo se perde, antes pode permanecer?
Por um instante único, que é um momento irrepetível, de facto tem-se por instantes brevíssimos a sensação de uma plena felicidade, que é uma harmonia que vem de um encontro raríssimo entre tudo aquilo que é o teu absoluto e tudo aquilo que é a obra de arte que acabaste de fazer. Mas isso é algo, não só, de que te apercebes a posteriori, depois de a olhares e sentires, e ao mesmo tempo, depois de te aperceberes, ou enquanto te apercebes percebes também que já o perdeste. E ao sentires isso volta de novo a abrir-se essa espécie de ferida que só é colmatada com um regresso ao caminho, com a próxima obra que vais fazer. Não há, de qualquer forma, possibilidade de: primeiro, voltares atrás, segundo, estares parado. Portanto a única consequência destas duas circunstâncias é que te propões como indivíduo e de uma forma inevitável retomares o caminho e continuar. Eventualmente, poderás ou não, na próxima obra, sentir, ter o privilégio de sentir essa espécie de encontro mágico ou único entre ti e o que fizeste, pensado que agora conseguiste, de facto, configurar tudo aquilo que sabes de uma só obra, mas será uma alegria instantânea e breve, ainda que sentida, e que te levará ao próximo passo.

Fala também na arte como tentativa de ir ao encontro de uma ferida primordial… Quer explicitar?
Podemos resumir tudo se dissermos que, provavelmente, além da guerra e do amor, a arte é a actividade humana que vem, digamos, da noite dos tempos, que tem acompanhado praticamente desde o princípio a espécie, e que é uma das únicas formas em que nós podemos imaginar que o Homem desenhasse uma ideia de um mundo perfeito, ou seja, que reconstruísse de alguma forma a noção do espaço ideal, para uns o paraíso, para outros a Arcádia, para outros apenas o nada, e essa permanente busca do lugar da beleza, que é um lugar da perfeição, lugar do Absoluto, só o exercício da arte é que pode, de alguma forma, alcandorar-se a essa espécie de território; sempre por defeito, sempre por incapacidade, sempre por tentativa, sempre por desgosto, sempre por uma tristeza permanente, uma melancolia que é uma melancolia do não completamento dessa perfeição, mas ao mesmo tempo com a noção entranhada, no mais fundo do ser, que é através da criação artística que se pode encontrar uma possível fissura a partir da qual se veja a luz, que seria a luz de que significaria por fim a harmonia, o cânone e a beleza encontrada, ou seja, o reencontro do Homem consigo mesmo e com o mundo a que pertence.

Que noção é essa implícita nesse conceito de beleza? Que belo procura o artista? Não é isso algo de muito subjectivo?
Eu não creio que seja subjectivo. A noção de belo está, pelo menos do quadro filosófico, intimamente ligada à construção de um cânone, que é um equilíbrio, uma harmonia. Poderá talvez dizer-se que para muitas pessoas… as pessoas divergem em relação àquilo que consideram interessante, ou bonito, ou não sei quê… o belo é uma coisa que tem um plano de discussão relativamente diferente desse, é uma questão de busca de harmonia, e busca de harmonia é já, ela própria, um terreno de confrontação e um terreno de debate de pensamento, mas é, ainda assim, um terreno muito concentrado, um discurso, digamos, que vem da filosofia e da estética e prende-se em torno da construção da obra de arte e um pouco em torno da posição do Homem no mundo.

Segundo Torga, que o escreve num dos seus diários, Picasso, ao visitar a Capela Sistina, ter-se-á questionado: «Depois disto, o quê?» E concluía o poeta: «Para ser digno de si e do nosso tempo, o andaluz só tinha um recurso: desenhar às avessas…» Para além do prosseguimento do cânone de que falava, não há também, hoje em dia, um prosseguimento em torno da ideia de desconstrução dessa ideia de belo, em termos clássicos?
A mim, não me repugna acreditar que subjacente ao pensamento posto nas palavras do Picasso é a permanente transformação e reconstrução ao longo da evolução da História e ao longo da evolução da Humanidade daquilo que são os cânones que levam à sedução do Belo. Picasso propôs-se fazer isso e todos os artistas se propõem fazer isso na sua obra. Cada artista em cada obra discute, reconstrói, constrói, destrói e reconstrói novamente esse debate. É um debate que não está nunca encerrado.

Quando se olha para trás, como sucede com uma retrospectiva, que lança um olhar global sobre o caminho, reconhecem-se erros. E, reconhecendo, aceitam-se?
Não creio que os artistas tenham essa percepção, todas as obras são simultaneamente erro e ganho. Todas as obras são simultaneamente para ignorar e para considerar como únicas. Elas trazem em si, justamente, a ideia do debate e da transformação que o pensamento opera sobre a realidade para que elas venham a ser efectivamente matéria e venham a transformar-se em obra palpável, e em obra posta à consideração de todas as pessoas. Não há, creio eu, a escolha da rejeição e da assunção. O que há é a convicção de que todas as obras têm essa precariedade e esses dois pólos coexistem nelas.

Diz também que nada há de estável. A arte, de algum modo, busca a permanência?
A arte é uma das raríssimas, provavelmente a única forma de permanência da Humanidade. Nesse aspecto ela confunde-se com o destino da Humanidade. Ela permanece, tal como a Humanidade permanece também. E uma e outra não podem viver separadas.

Qual é então o carácter de permanência da arte?
Eu diria que é a permanência da Humanidade.

Diria também que o criar se confunde com o querer saber, querer entender o mundo? E nesse sentido, existe na arte e no acto criador alguma tentativa de pretender anular a ideia de Deus, substituindo-a pela mão criadora do Homem?
Arte é de facto a forma mais plena – e por arte entendo aqui a criação artística, engloba-se, naturalmente, a reflexão musical, poética, talvez, porque não, a filosófica –… e nesse aspecto, digamos, o pensamento humano é a única, digamos… o único momento de compreensão do humano como um absoluto da natureza. E é nesse aspecto que, ele se… à medida que o pensamento se transforma, à medida que dá origem a novas declarações da Humanidade… Cada quadro, cada romance, cada música, cada filme, cada teatro, cada acção humana diária acaba por ser uma declaração de totalidade. E são essas totalidades todas que, juntas, fazem justamente aquela permanência que há pouco falávamos. Nesse aspecto podemos dizer que a arte é de alguma forma a projecção do Homem sobre o mundo.

O que ganha uma pessoa ao ver esta exposição?
Ambas as exposições, quer a da Fundação Carmona e Costa, quer esta, do Museu Colecção Berardo, são ou propõem-se rever ou mostrar um conjunto de trabalhos ao longo de quase trinta anos e com isso harmonizar, de alguma forma, a relação da minha obra com o público português com o qual já não tinha há muito tempo um encontro desta dimensão. Há peças que vêm de muitos sítios, privados e institucionais, que vêm de há muito tempo até agora, e é nesses cruzamentos e nessas viagens, que imagino as pessoas farão nas exposições, que eventualmente poderão ganhar um conhecimento mais aprofundado, não só sobre o meu trabalho, mas até provavelmente até sobre a sua própria posição no mundo ao verem-se nestas obras e ao fazerem perante elas aquilo que é, ao fim ao cabo, o objectivo último da arte, que é criar um terreno de perguntas e fazer com que as pessoas se interroguem sobre si mesmas e sobre a sua posição no mundo através daquilo que vêem nas obras de arte.

~ por pedroteixeiraneves em Outubro 12, 2011.

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