helder macedo – uma entrevista a propósito de «poemas novos e velhos»

Helder Macedo
Sobre poemas, novos, velhos e de sempre

Ficcionista, crítico literário, ensaísta, professor universitário, Helder Macedo é também o poeta que agora se retrospectiva na antologia «Poemas Novos e Velhos». Reunidos, poemas do poeta quando na Primavera dos anos 50, e poemas de lavra recente, estes inéditos, recolhidos sob o título «Colagens». Sobre o porquê deste olhar para trás, sem raiva, sobre a poesia e os seus silêncios, a sua música, o seu lutar, o seu lento segregar, segue a conversa com o autor.

TEXTO E FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES

Helder Macedo, já não editava poesia há uns anos. Porque tanta demora em voltar a publicar, o que agora sucede com este «Poemas Novos e Velhos» (edição Presença)?
Bem, é agora porque só agora há poemas novos. Ou seja, pelo facto de ter escrito uma nova sequência de poemas, decidi que era talvez boa ideia fazer uma recolha prospectiva da poesia que fui escrevendo ao longo dos anos, ia quase dizendo ao longo dos séculos… Mas partindo da perspectiva desta última sequência de poemas, a que chamei «Colagens», e recuperar, não toda, mas muita da poesia que fui escrevendo ao longo dos anos. E como terá notado esta antologia está organizada de agora para trás, ou seja, do presente para o passado. Não quis fazer uma antologia habitual, em que uma pessoa começa com os seus primeiros passos e vai por aí adiante, mas, pelo contrário, pretendi dar uma visão retrospectiva a partir de quem sou agora e do que sou agora.

Escreve poesia quando quer ou quando esta o visita?
Quando ela quer. Ou seja, eu sempre escrevi poesia. Recentemente, encontrei por acaso, entre papéis de família, cadernos dos meus 10, 11 anos, com versinhos, com poesias e esse tipo de coisas… Mas nunca escrevi muita poesia e publiquei ainda menos do que fui escrevendo. A escrita de poesia para mim tem sido uma espécie de tomar pé. Ou seja, de vez em quando preciso de me reencontrar através de poesia. Como tal, a poesia marca em mim períodos de transição, mais ou menos cruciais na minha vida.

Falar de reencontro é sinónimo de um estar à escrita com o mais intimo em si?
Sim. Enquanto que a minha ficção, por exemplo, procura lidar fundamentalmente com quem não sou, ou seja, inventar personagens, situações – mesmo quando me utilizo a mim próprio como personagem, trata-se de uma falsificação, é um truque de retórica literária, e estou mais interessado nos outros do que em mim… –, ao contrário, a minha poesia, quase toda a poesia mesmo, mas a minha poesia tende a ser, certamente, mais do que a minha prosa, auto-referencial. E como tal é este reencontrar-me a partir daí.

«Poemas Novos e Velhos», escolheu para título… E contudo há temas de sempre, recorrentes. Neste sentido não poderiam ser apenas Poemas?
Sim, mas também não quero enganar o leitor fazendo-o pensar que tenho um livro de poemas inteiramente novo! Há de facto poemas que já foram publicados. Mas tem razão, certamente todos os poetas tem obsessões, recorrências, e no fundo toda a poesia, ia dizer toda a poesia que se preza, mas estou a exagerar, lida com o amor e a morte, e creio que é isso que aqui acontece. Mas o título tem também um certo elemento irónico e de provocação.

A poesia ainda tem esse poder, de provocação?
Espero que sim. Uma das razões pelas quais eu escrevo pouca poesia, e também publico, é porque acho que a poesia tem a obrigação de pelo menos tentar inquietar e provocar.

A poesia também como acto de resistência?
Acto de desafio. Eu tenho problemas pessoais com a poesia, como dizer?, apenas competente, de quem sabe apenas fazer versos, de quem sabe fazer poemas – que é muito respeitável, é fundamental que existam poetas competentes. Mas os poetas que gosto de ler são aqueles que procuram saltar para fora dos bons comportamentos.

A musicalidade na palavra é-lhe muito cara; de onde vem esse gosto que faz aliar à palavra?
Bom, não é uma inconfidência, mas eu ouço mais música do que leio, dá-me mais prazer ouvir música do que ler. Até porque, dada a minha também profissão universitária, tenho de ler e acompanhar muita coisa. E uma coisa que eu acho que aconteceu um pouco, oxalá tenha acontecido, é que eu parti, enfim, dos poemas que escrevi com vinte e um anos – e que são os últimos poemas nesta colectânea –, parti de uma forma mais ou menos rígida, que na altura, estou a falar em 57, alguém como o Jorge de Sena dizia «ah, isto é de uma grande perfeição formal»… e eu quis, de alguma forma, e gradualmente, ir quebrando essa aparente perfeição formal e ir desintegrando o discurso. Portanto, eu creio que a minha poesia se tornou mais, simultaneamente, dissonante e mais musical por isso mesmo, com ritmos diferentes. E não é por acaso que a minha penúltima colectânea de poemas, «A Viagem de Inverno», tem expressa referência musical ao ciclo de canções do Schubert, «Winterreise».

Uma outra música presente em todo o livro é a música do silêncio. Quer falar-nos deste seu constante namoro com o silêncio?
Sem silêncios não há música. Isso é uma coisa que eu aprendi através da poesia e que procuro aplicar também à minha escrita de ficção e à minha prosa. Sem silêncios há um som contínuo, as cesuras, os cortes, os silêncios, é onde as palavras reverberam e adquirem a sua capacidade de expressão. Acho perceptivo da sua parte essa pergunta no que para mim é fundamental, que é o manejar dos silêncios, o usar os silêncios como pontuação, como aquilo de onde as palavras podem emergir precisamente porque há silêncio.

Os seus amigos, amigos lembrados, bastantes, atravessam também estes poemas. Com desencanto ou um sorriso nos lábios?
Não é tanto desencanto. Como dizia há pouco, toda a poesia, ou quase toda a poesia, certamente a minha poesia, tem como temáticas recorrentes, como quase obsessões, amor e morte. Ora a percepção da morte na nossa juventude é muito diferente da percepção da morte na casa dos anos 70, por exemplo. Um adolescente tem uma consciência da proximidade da morte, tem uma consciência de identidade ameaçada, um velho como eu, que está fisicamente, cronologicamente perto da morte, tem uma relação diferente, uma relação, se quiser… não é bem resignada, mas aceitante, porque não há nada que se possa fazer em relação a isso. A morte que permeia de algum modo esta colectânea, não é a minha, que está certamente próxima, mas é a morte dos amigos, a morte de pessoas que amei. A horrenda sacanice que me fizeram de terem morrido. Acho horrível que isso tenha acontecido, o mundo fica povoado de fantasmas e foi isso, creio, a série de amigos mortos nos últimos anos, que alimentou estes poemas sobre a morte.

O que aproxima e separa o poeta Helder Macedo dos vinte anos e o poeta Helder Macedo de hoje?
Sabe que foi uma experiência curiosa, ao seleccionar os poemas antigos, é claro que me reconheci nesses poemas, mas evidentemente não é poesia que eu escrevesse agora. As minhas preocupações, os meus interesses são inteiramente diferentes e, inclusivamente, notei até algumas soluções estilísticas, enfim, que eu adoptei enquanto jovem poeta, que certamente não seria o que eu faria agora. E risquei-me mesmo aqui e além, não a corrigir, mas a cortar alguns versos. Portanto, mexi ligeiramente, tentando no entanto manter a integridade desse jovem que fui a partir do adulto ou velho que sou. Mas são países diferentes, a infância e adolescência é um país diferente da idade madura e da velhice, claro.

Escreve: «Bem sei que já devia ter chegado/ à serenidade». A poesia é um lugar de desassossego?
A poesia é um lugar de desassossego. A poesia que me interessa, é-o. Porque é uma tentativa de chegar a alguma coisa, nem que seja a consciência de alguma coisa. A poesia que se resolve, que adquire o sossego, é o silêncio. É o silêncio.

Tive uma amiga que ambicionava escrever
poemas de silêncio

trabalhou muito até que conseguiu
organizar numa mesa de vidro transparente
doze folhas brancas de papel em branco
com uma jóia em cima de cada uma
para cada amigo receber
o seu poema de silêncio
quando fosse encontrada no robe branco
da morte branca que nos oferecia

cheguei a tempo de salvá-la
fizeram-lhe a lavagem ao estômago
não me perdoou a alma mal lavada
nunca mais nos vimos
viaja agora de país em país
sem jóias sem poemas sem amigos
e telefona-me às vezes depois da meia-noite
quando o silêncio raspa o vidro da janela.

Helder Macedo, «Colagens»

~ por pedroteixeiraneves em Outubro 13, 2011.

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