antónio mega ferreira – uma entrevista a propósito de «macedo, uma biografia da infâmia»

António Mega Ferreira
«Macedo, Uma Biografia da Infâmia»

Por Pedro Teixeira Neves

António, quando é que a figura do Padre Macedo entra na sua vida?
A figura do Padre José Agostinho de Macedo, a bem dizer, cruzou-se comigo quando eu era aluno do ensino secundário, portanto estamos a falar do início dos anos 60, no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Houve uma aula cem de História da Literatura Portuguesa, e os quatro melhores alunos da turma, entre os quais eu estava, resolvemos fazer uma graça, uma brincadeira, e então fizemos um manifesto. Portanto, o ano é 66, e era um manifesto irónico, brincalhão, em que dizíamos “que chatice, o Camões, o Sá de Miranda, não há pachorra, o Bocage nem pensar”… O que é bom? O que é bom era uma lista de escritores completamente secundários, que não interessavam a ninguém, mas que nós dizíamos “isto é que é extraordinário”. Os poemas didácticos e científicos do Padre José Agostinho de Macedo, etc. Bom, a brincadeira foi mal entendida pela professora – que era aliás uma excelente professora de Literatura Portuguesa –, mas foi mal entendida e desse episódio, de resto, ficou uma boa lição para a vida, que eu guardei sempre. Que foi: cuidado na utilização da ironia, porque a maior parte das vezes as pessoas não percebe quando a intenção é irónica. E portanto aquilo correu mal e houve uma certa frieza que se instalou em relação a estes alunos por causa do Padre José Agostinho de Macedo. E é aqui que ele se cruza comigo. Mas é evidente que a partir daqui foi a única memória que me ficou, foi… que maçada, o Padre Macedo, nem me lembro sequer dos outros nomes, só me lembro do Padre Macedo. No final dos anos 80, uma vez, num alfarrabista, encontrei um livro que era «Memórias para a Vida Íntima do Padre José Agostinho de Macedo», de autoria de um grande bibliógrafo do século XIX, chamado Inocêncio Francisco da Silva. Peguei no livro, comprei o livro, comecei a ler o livro – o livro tinha sido editado pelo Teófilo Braga muito depois da morte do próprio Inocêncio. Ora, o livro não era bem uma biografia. O livro era, de facto, uma súmula de apontamentos, anotações, reflexões do próprio Inocêncio, sobre o José Agostinho de Macedo, que ele foi acumulando ao longo da vida para a tal biografia do Padre Agostinho de Macedo, que ele acabou por não fazer. O que ele fez foi uma recolha, e que é a base de qualquer trabalho de investigação que se faça sobre o Padre José Agostinho de Macedo. Bom, e eu comecei a investigar, interessou-me a figura do Padre Agostinho de Macedo que, apesar de tudo, resultava daquele material disperso, fragmentário, do Inocêncio… Interessou-me muito isso e comecei a ler mais coisas do Macedo – eu que, verdadeiramente, nunca tinha lido nada dele, e aquela figura tornou-se-me fascinante.

Porquê, exactamente?
Por duas razões principais. Em primeiro lugar, fascinam-me as figuras, e fascinam-me literariamente, as figuras que vivem nas margens da sociedade, e este homem, apesar de ser padre, viveu nas margens da sociedade do seu tempo. Porquê? Porque era um ser totalmente amoral. Era um homem para o qual o Bem e o Mal não existiam, existia a oportunidade e os seus interesses. A sua megalomania delirante, a ideia, por exemplo, que ele teve toda a vida de que tinha que passar à posteridade como poeta maior que Camões…

De se substituir mesmo à figura tutelar do Padre Francisco Agostinho de Macedo, donde de resto, se põe como hipótese ser a origem do seu apelido…
Essa é uma hipótese, porque até hoje, na verdade, nunca ninguém conseguiu explicar porque é que este homem também se chama Macedo. Este homem chamava-se, ao que parece, José Tegueira, nasceu em Beja, segundo diz o Inocêncio em 1761 – hoje em dia eu também tenho dúvidas sobre isso, mas isso é um pormenor da investigação e não o vou revelar, porque isso é, digamos, um dos interesses do próprio livro –, chamava-se José Tegueira e nunca ninguém que escreveu sobre o José Macedo conseguiu perceber porque é que ele se chamava Macedo. Bom, é uma hipótese…

Tegueira, apelido cuja etimologia também se desconhece…
Exacto. Nem sequer a etimologia! O que é que quer dizer Tegueira? Consegui encontrar uma etimologia parecida, aproximada, uma teiga era um cesto de vime, podia ser que o pai dele fosse chamado o Tegueira, por fazer cestos. No entanto, Inocêncio diz que o pai dele era ourives de profissão… Não se está a ver muito bem um ourives de profissão a fazer cestos de vime, a menos que fossem incrustados em prata e em ouro! Portanto, também isso é um mistério sobre ele. Depois há uma segunda dimensão que me fascinou no Macedo e que tem a ver com o facto de me fascinarem também os grandes destinos falhados. Ou seja, no fundo aquelas figuras que falham a sua vocação e a sua vida, mas falham com uma grandeza extraordinária. E este homem de facto falha, mas falha estrondosa mas genialmente a sua vida. Ele queria ser um poeta maior que Camões, passar à posteridade como tal. Não passou, foi um péssimo poeta. Em contrapartida, ele, que não ligava muito a isso, é um grande prosador, é um enorme prosador sobretudo um enorme polemista e um enorme panfletário. E é importantíssimo politicamente, porque é, digamos, o corifeu, o cabeça de fila, se se quiser, da ideologia mais conservadora, mais reaccionária que se desenvolve na sociedade portuguesa, sobretudo a partir da Revolução de 1820 – portanto, entre 1820 e 1831, que é a data da morte dele, ele torna-se uma espécie de corifeu do absolutismo, do Miguelismo, de tudo aquilo que era mais conservador. E portanto há um duplo lado associal deste homem: porque ele falha o seu destino social, se calhar porque ele queria ser parecido com o tal Frei Francisco de Santo Agostinho de Macedo, que viveu cem anos antes dele – e esse, sim, foi uma figura absolutamente extraordinária, enquanto diplomata, polemista, filósofo, político também, até certo ponto, e foi-o internacionalmente, foi professor da universidade de Pádua, foi conselheiro do Papa Alexandre VII, etc., tudo aquilo que nós imaginamos que este José Agostinho de Macedo adoraria ter sido, só que nunca saiu daqui.

E, contudo, tratando-se de uma figura literária secundária, de uma figura ou de um ser humano da ordem do infame, o que o levou a persistir na investigação da sua vida? Mereceu ele este seu esforço de mais de vinte anos de trabalho e investigação?
Ah, merece absolutamente se o pressuposto da investigação é aquele que eu dizia. Literariamente interessam-me muito mais estas figuras do que as figuras que triunfaram absolutamente na vida.

Recorda-se de algum outro caso similar?
Repare, nós hoje podemos dizer que Fernando Pessoa é um genial poeta – e eu acho que é, uma figura maior da Literatura portuguesa – mas quando ele morreu em 1935 não era tal. Ou seja, de alguma forma, o seu destino que era grandioso, como nós hoje sabemos, não se cumpriu até à altura da sua morte. E há um conjunto de lados falhados na vida do Fernando Pessoa, que me interessaram muito, e por isso publiquei uma biografia em 2005, chamada «Fazer Pela Vida», que tem a ver com os projectos empreendedorismo do Fernando Pessoa – projectos absolutamente extraordinários, projectos absolutamente inovadores em Portugal, que ele não levou à prática. Ou seja, ele gostava de ter triunfado na vida, triunfado no sentido corrente, comercial, económico do termo, e essa foi a dimensão que ele não teve, de forma nenhuma. Ou seja, partindo deste princípio, que me interessam estas personagens imperfeitas – no caso do Macedo imperfeitíssima –, foi isso que me interessou literariamente. Foi aprofundar, foi, um bocado… escavar na ferida e tentar perceber o que é esta figura e como é que foi a vida desta personagem. Que é uma vida curiosamente aventureira, do ponto de vista literário, embora não tenha tido aventura nenhuma especial, porque foi um homem que nunca saiu daqui, na primeira parte da vida andou de Herodes para Pilatos, entre Lisboa, Coimbra, Braga, etc., mas isso era porque se portava mal nos conventos, e era encarcerado e era expulso.

Foi um grande cultivador de ódios…
Cultivou muitos ódios, absolutamente, designadamente a partir de 1810. A partir dessa data ele torna-se um alvo a abater pela doutrinação liberal que começava a surgir. O Pato Moniz é um grande adversário dele, o João Bernardo da Rocha Loureiro também, mas muitos mais. Todos os intelectuais, todos os criadores ou artistas portugueses que eram abertos às ideias liberais, à inovação, tomam o Macedo como um alvo. Porquê? Porque ele era muito truculento e não se calava e a partir de 1807/ 1808 toma completamente de ponta a Maçonaria, os liberais, as doutrinas novas, o constitucionalismo, tudo isso, e passa a sair à espadeirada literária, claro, contra todas estas ideias de progresso. Ele foi sempre um defensor incondicional do trono e do altar.

Espadeirada literária mas talvez não só a esse nível… É isso, de resto, que de algum modo levanta como hipótese ao repescar o episódio da exumação das ossadas do padre, altura em que se descobriu no crânio uma lesão de origem desconhecida…
Isso é outro mistério. Como é que este homem, que foi um homem truculentíssimo, violentíssimo – eu a certa altura, de resto, utilizo, de empréstimo, uma expressão do Georges Steiner a propósito do Céline, a «pornografia do ódio», de facto há textos do Macedo que são uma autêntica pornografia do ódio –, como é que este homem atravessou a vida quase sem um beliscão! Vejamos, os textos dele valem porque são uma oração ao ódio, um apelo aos sentimentos mais violentos das massas contra os liberais, os maçons, as ideias de progresso, o constitucionalismo! Agora, como é que este homem sobreviveu 70 anos, sem ter, a partir da sua idade adulta, digamos, sequer ido parar aos calabouços da Polícia e sem que se conheça que tenha existido nenhum episódio de assalto, violência, isso é que pode soar a estranho. Essa lesão no crânio estava lá, de facto, mas literariamente vale tanto como a célebre mancha humana shakespeareana, ou seja, é um pouco a mancha do mistério que fica sobre o destino deste padre Macedo.

Fala em infâmia, em crueldade, mas até que ponto devemos confundir estes conceitos com maldade pura? Ou seja, até que ponto este homem não era meramente produto do seu tempo?
Eu não penso que o Macedo seja uma incarnação do Mal. Falta-lhe uma dimensão: não foi um assassino, não matou ninguém. Com as mãos dele não matou ninguém. E essa, para mim, é a dimensão extrema do Mal. Agora, é evidente que é uma figura maléfica, porque ele não matou ninguém, mas ele apelava, pela palavra dita e escrita, à morte dos seus inimigos. Ele não dizia vamos correr com eles, dizia vamos pendurá-los pelos pés! E ele é, sim, em múltiplas dimensões, um fruto do seu tempo. Primeiro, é uma figura paradoxal e o paradoxo tem a ver com o tempo em que ele vive, ou seja, a passagem do século XVIII para o século XIX. Portanto, ele tem vinte e tal anos quando se dá a Revolução Francesa e tem 31 ou 32 quando Luís XVI é decapitado, curiosamente no mesmo ano em que Portugal perde a sua rainha, D. Maria I, que enlouquece em 1792. Portanto, há aqui um lado de decapitação do poder real que cria um período de grande incerteza. Porque o D. João, que assume a regência, é um pusilânime, é um homem muito hesitante, era um homem muito amado pelo povo, é verdade, mas era um homem que não decidia – de resto, a própria saída para o Brasil, em 1807, é precedida de longuíssimas hesitações…

Os preparativos já decorriam desde Agosto e a saída só se dá quase no final do ano…
Exacto, estava tudo havia meses aparelhado, e três ou quatro dias antes ele ainda hesitava, ainda dizia “ah, agora aplacámos os franceses, fechámos os portos aos ingleses, talvez…” Enfim, todo este período é de grande convulsão, é um período de mudança de paradigmas tradicionais de pensamento e organização do poder politico. A Revolução Francesa é uma ruptura e para um homem como Macedo a emergência de um rei popular, como Napoleão, torna-se um terrível corso, é o “mal francês” – que encarna no Napoleão. É, portanto, um período de grandes transformações, mas em Portugal não; Portugal é um país que tem uma enorme capacidade manhosa de fingir que se está a transformar mas não se transforma, as transformações só se dão com a revolução de 1820. Portanto, este homem é um paradoxo mas tem que ver com o paradoxo do tempo. Há um mundo novo que ainda não se sabe o que é, e há um mundo antigo que se sabe que vai acabar. Ele percebe isto e toma o partido do mundo antigo, que não quer que acabe. Isto contra o mundo novo, contra o que não sabe o que é, ou seja, o velho temor dos conservadores nas épocas de transição. Eu diria que é uma figura limite do seu tempo.

Figura tão maléfica, como refere, e complexa, como conseguiram os portugueses conviver com ele? E, indo mais longe, como conseguiu o Mega Ferreira privar tanto tempo com ela? O que, ao fim ao cabo, há nele de fascinante a ponto de as pessoas se interessarem por ele?
Respondo-lhe em forma de auto-crítica. E a resposta é óbvia, porque sou português! Mas, de facto, é surpreendente como é que esta figura entra na minha vida literária há mais de vinte anos e nunca mais deixou de estar comigo. Há uma primeira fase em que eu começo a biografia, em final dos anos 80, depois perco-a por causa de um incidente informático, depois digo que nunca mais escreverei a biografia, mas nunca deixei de coleccionar primeiras edições do Macedo nem de acumular bibliografia…

Chegou a ter pesadelos com o Padre?
Não cheguei a ter pesadelos, mas… Olhe, o Inocêncio, o tal biógrafo que não chegou a escrever a biografia do Macedo, referia-se a ele como «o tormento da minha vida solitária», e por diversas vezes essa frase me veio à cabeça.

Para terminar, porquê a escolha do artigo indeterminado no título do livro?
Bem, o título foi este também porque há vinte anos já era esse o título em que eu tinha pensado. Mas tem a ver com outra coisa, é que ele, de facto, personifica aquilo que o Voltaire chamava «l’infame», ou seja, o tipo truculento, anti-progresso, ou seja, o reaccionário. E para mim essa figura personifica-se no Macedo e daí chamar-se «Uma Biografia da Infâmia».

~ por pedroteixeiraneves em Outubro 20, 2011.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: