vik muniz – uma entrevista

Vik Muniz
A arte: entre o lixo e o luxo

TEXTO E FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES

Minucioso, criativo e singular. É assim o trabalho de Vik Muniz, artista que entende a arte como projecto social de partilha e inclusão. Isso o revela o mediatizado documentário «Lixo Extraordinário», que, para além de revelar processos de trabalho, igualmente sublinha o papel do artista na sociedade contemporânea. Ao mesmo tempo que estatui uma premissa: para Vik, a arte contemporânea deve ser tudo menos um luxo extraordinário! Pintura, desenho, fotografia, são diversos os géneros que Vik Muniz trabalha, sempre com acento tónico na utilização de materiais ditos pobres e perecíveis. Por trás desta opção, o desejo de questionar o mundo contemporâneo e o desejo de levar a arte à vida das pessoas. Até 31 de Dezembro, oportunidade, no Museu Colecção Berardo (ao CCB), para ver aquela que é, até à data, a maior retrospectiva do artista plástico brasileiro (n. 1961). Reunidos, mais de uma centena de trabalhos representativos da sua trajectória artística. Papel recortado, sucata, calda de chocolate, geleia ou algodão, a relação entre os materiais utilizados e a referência a clássicos da história de arte é outro dos seus cartões de visita, de que são exemplo obras emblemáticas como a famosa réplica da “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci, ou até uma notável recriação do «nosso» “Tentações de Santo Antão”.

Vik, pelo facto de a sua obra ter uma vertente social muito acentuada, poderemos dizer que ela encerra uma marca do que significa ser brasileiro hoje? De onde vem a sua inspiração?
Não creio que tenha uma marca específica do que seja ser brasileiro, até porque as realidades que ela aborda não são específicas ou exclusivas da sociedade brasileira. Quanto à inspiração, ela vem de muitos lados. Por exemplo, em Nova Iorque, onde eu moro, poderia pensar-se que a cidade me fosse uma grande fonte de inspiração, mas em Nova Iorque eu pouco saio, fico muito em casa, a trabalhar. Normalmente quando viajo para o exterior vejo até mais coisas. Nova Iorque, durante muito tempo, foi de facto uma fonte de inspiração mas isso enquanto lá eu me sentia estrangeiro.

A arte deve ser crítica ou antes suscitar a crítica por via da reflexão?
Eu acho que a crítica cabe ao crítico. A arte deve promover diálogos, suscitar discussões, levar o público a reflectir sobre coisas que ele não reflecte no dia a dia. O artista que se coloca na pele do professor, eu acho que está perdendo muito dessa possibilidade de ouvir o espectador, porque no fim de contas o artista faz apenas metade do trabalho, quem faz a outra metade é o público, no modo como recepciona as obras.

Ainda acredita no poder da arte para mudar o mundo?
O mundo funciona a partir de imagens e representações de si mesmo. O advento da representação talvez seja o facto mais importante depois do controlo do fogo. Foi isso que nos permitiu desenvolver o conceito de História, de imaginar um passado e também de conceber de um futuro. A partir de trocas simbólicas é que conseguimos desenvolver sistemas críticos, como a política, a economia, a religião. Tudo isso vem do facto de você se deixar enganar momentaneamente por uma imagem. Quem começou tudo isso foi um artista! O artista que aparece como uma ocupação marginal, hoje em dia, mas a verdade é que tem um papel muito importante na nossa sociedade, sobretudo num momento de crise das instituições como o actual. Tem que haver um momento de reavaliação dos próprios sistemas e eu acho que o artista tem uma função muito importante nesse processo.

A utilização de materiais ditos menos nobres no seu trabalho encerra alguma dose de postura anti-artística?
Não, eu não sou anti-artístico de forma alguma. O que eu tento promover através da utilização de materiais não ortodoxos no meu trabalho é a ideia de que a arte não depende desses materiais. A arte não é uma função, não depende de uma hierarquia social e material. A arte existe tanto na cabeça da gente como nas coisas que a gente está olhando. E quando distinguimos material da forma, nós liberamos a ideia da arte do que ela é feita, ela passa a ser uma coisa mental, tal como Leonardo disse.

A sua arte é sinónimo de ruptura; que espaço há nela também para contemplação?
Eu acho que o mais importante é trabalhar promovendo espaço para a experimentação, da própria ideia do processo. A contemplação pode vir depois.

O chegar ao espectador é para si fundamental e daí o facto de trabalhar com as pessoas no processo de realização das obras?
Sem dúvida. Eu acredito que a arte não existe sem público. O artista pode até dizer que faz arte para si mesmo, mas ele faz arte para poder se observar através dos olhos alheios. A legitimação da obra só vem quando você vê que aquilo que lhe despertou interesse igualmente despertou dentro da cabeça das outras pessoas.

Arte deve ser sinónimo de activismo?
Creio que não. O artista é uma pessoa sensível, ele está aberto à reflexão sobre a condição humana talvez com uma disponibilidade com que outras pessoas, noutras profissões, não estejam, mas isso não lhe confere autoridade para chegar a conclusões definitivas sobre os assuntos. O que a gente pode mudar é o modo como as coisas são vistas, e assim abrir novas possibilidades de leitura sobre o mundo.

Ainda relacionado com a utilização de materiais ditos pouco nobres e perecíveis… Como vê este conceito aliado à arte contemporânea, o da perenidade?
Existem algumas convenções sobre o que é a arte contemporânea. Eu acho que têm que ser reavaliadas. Porque existe hoje uma crise de relevância da arte contemporânea, até no relacionamento da arte com os demais meios de comunicação. É impossível assumir a arte como um instrumento de elitismo, como uma linguagem a que apenas alguns têm acesso. Isso tem de mudar, a arte contemporânea tem de ser um direito, não um privilégio.

~ por pedroteixeiraneves em Outubro 21, 2011.

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