para além da fatalidade de escrever versos, escrever

Propostas para introdução de alguma tranquilidade nas consciências

Votar no amor de forma universal e directa aos olhos.
Deslocalizar a poesia para o tempo do pequeno-almoço.
Relembrar Baudelaire: «A inspiração é trabalhar todos os dias». Mesmo que trabalhar todos os dias canse.
Pensar e aceitar por vezes, com quanta modéstia seja necessário, que não temos nada a dizer – mesmo quando julgamos ter.
Não nos alongarmos demasiadamente a pensar nos gregos, senão antes a lê-los.
Beber um copo de optimismo ao acordar de cada impulso pessimista. Balbuciar talvez um verso, degustá-lo como a um vinho.
Respirar o suficiente para viver.
Educar a memória para os lapsos recordando fábulas e contos de fadas.
Enquanto durar a crise, aproveitar para repensar os sonhos. E dar-lhes tempo, terra, chuva.
Rejeitar todo e qualquer lirismo político-económico.
Se a vida se assemelhar em demasia a um mau romance, sorrir.
Pensar, em última análise, que dispomos ainda de direito de opção. Mesmo que só tenhamos uma opção.
A classe política: uma encenação mal conseguida à espera de um pontapé futurista.
Manifestar-se, sim, mas tendencialmente sempre pelo movimento das mães.
Acreditar que a verdade virá ao de cima como coisa que se mete pelos olhos adentro da mentira.
Ter esperança na justiça, tal como no futuro da poesia simples. Saber que os poetas arrazoados têm maus fígados.
Descer à rua com a leveza crédula de um deus caminhando sobre as águas, mesmo que seja preciso fingir com a força com se adopta um milagre.
Renascer sempre que possível, tornar a ser renascentista se preciso for.
Esquecer a propriedade alheia, virar o dedo para nós próprios como quem consulta um espelho de verdades.
Procurar sentimentos nas inquietações. Ir pelo mundo cientes de que caminhamos sem deixar pegadas.
Se essa for a atitude mais fácil, virar as costas e ir até junto do mar com os pés descalços.
Sair de peito aberto à morte em todos os dias sim e, sobretudo, fazer da leitura a nossa grande dívida soberana.
Se as coisas apertarem chuta para canto. Recorda: que canta seu mal espanta. Até porque não há por que confundir bola com fruto proíbido.

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~ por pedroteixeiraneves em Novembro 2, 2011.

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