edição on line das cantigas medievais galego portuguesas

EDIÇÃO INTEGRAL ON LINE DAS CANTIGAS MEDIEVAIS GALEGO PORTUGUESAS
http://cantigas.fcsh.unl.pt.

Um projecto de vulto, moroso e meticuloso. Assim a edição integral on line das canções medievais galego portuguesas. O trabalho começou em 2007, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, e encontra-se agora visitável no endereço http://cantigas.fcsh.unl.pt. Coordenado pela professora Graça Videira Lopes, coadjuvada por Manuel Pedro Ferreira (responsável pela área da Música) e Nuno Júdice, o site Cantigas Medievais Galego Portuguesas institui-se no imediato enquanto inestimável fonte de acesso a um património literário ibérico riquíssimo, em grande parte desconhecido do grande público. Cantigas, Autores, Manuscritos, Cantigas Musicadas, Iluminuras, estas as principais vias de acesso à muita informação agora disponível à distância de um clique. Possível ainda, entre muitas outras valências, a consulta, fólio a fólio, ao curioso e singular tratado de poética trovadoresca «Arte de Trovar», que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Mas muito mais há a descobrir. Em audição, treze melodias originais, múltiplas versões, para além de dezenas de composições de autores contemporâneos, da música erudita até ao jazz ou mesmo rock. Com lugar a muitas surpresas. Como uma música dos brasileiros Legião Urbana, de Renato Russo, ou versões mais ousadas, caso da desconcertante «A Um Frade Dizem Escaralhado» (ver no final), por Xurxo Romani e Koishi Tanehashi, sátira a um frade que se dizia impotente mas que ia engravidando mulheres por onde passava, três delas dando à luz no mesmo dia… Para maior elucidação do que está em causa, a conversa com Graça Videira Lopes.

POR PEDRO TEIXEIRA NEVES

Que projecto é este agora finalmente disponível depois de vários anos de grande empenho e trabalho?
É um projecto que foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, teve também a colaboração da Biblioteca Nacional, e que se destina a apresentar a edição completa e unitária das cantigas medievais galego portuguesas. Foi feito por uma equipa sob minha coordenação e que teve também a coordenação do Professor Manuel Pedro Ferreira, para a parte musical, e que incluiu ainda o Professor Nuno Júdice. E, sobretudo, incluiu um conjunto de jovens bolseiros e colaboradores absolutamente empenhados e sem cujo trabalho este projecto não poderia ter ido para a frente.

Quando começou o projecto exactamente?
A equipa sénior, digamos assim, já trabalha na literatura medieval há muito tempo… Mas a ideia das cantigas, nós apresentámo-la no concurso de 2006 da FCP. O projecto foi seleccionado e começou em 2007. Foi financiado de 2007 a 2010, e no anos eguinte continuou o trabalho mesmo sem financiamento. O projecto está inserido no Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Qual é a sua principal mais-valia?
O facto de ser a primeira vez que se faz uma edição integral das cantigas medievais galego portuguesas. Não quer dizer que elas não estivessem disponíveis, porque desde que elas foram descobertas nos grandes cancioneiros, em meados do século XIX, as cantigas foram publicadas. Por exemplo, ou por cancioneiro, como foi o notável trabalho da professora Carolina Michaelis, ou então por género, como foi o caso do professor Rodrigues lapa, que publicou, já nos anos 70, as cantigas de Escárnio e Maldizer, ou então, mais recentemente, no âmbito da investigação, em que têm sido publicados os trovadores individualmente. Mas uma edição unitária, geral, é a primeira vez que se faz.

O facto de ser uma edição on line que vantagens traz?
Este tipo de edição permite, não só editar as cantigas, com notas, glossário, antroponímia e essas coisas todas, mas também dar acesso aos manuscritos. E sobretudo nós quisemos, de certa forma, devolver às cantigas o seu carácter oral, que elas tinham, portanto a música, e é isso também que o formato electrónico nos permite ter e disponibilizar. Temos, portanto, um conjunto vasto de música, que tanto é a música original – mas nesse aspecto só sobreviveram treze melodias originais dos trovadores –, mas a que nós juntámos todas as músicas a que nós tivemos acesso de compositores contemporâneos, dos mais variados géneros: da música chamada erudita até ao jazz, passando pelo rock, José Afonso, Amália Rodrigues…, intérpretes que cantaram a partir dos textos medievais. Há também as versões Contrafacta, que são composições com melodias adaptadas a várias letras.

Vamos à homepage, como se processa o acesso à informação a partir daí?
Isto é uma base de dados, portanto, o site e a base de dados estruturam-se à volta das cantigas e dos autores. Assim, logo na primeira página nós temos a lista das Cantigas e a lista dos Autores; clicando, por exemplo, na lista das Cantigas nós temos acesso ao conjunto total das Cantigas. Depois, clicando num dos títulos que aparecem vai-se para a página da cantiga. Portanto, cada cantiga tem uma página e nessa página pode-se ver a cantiga editada, com as notas, mas também se pode ter acesso ao manuscrito, cuja folha nos aparece destacada no respectivo Cancioneiro. E depois temos também por baixo a música; quando há música, porque há muitas cantigas que não estão musicadas.

Trata-se, por conseguinte, de um trabalho em aberto…
Exactamente. E essa é outra vantagem das edições electrónicas. De resto, desde que apresentámos o projecto já fomos contactados por um grupo musical galego que também gostaria de colaborar, enviando-nos as suas músicas… Na verdade, nós ficámos surpreendidos com a quantidade de músicas que há sobre as cantigas, mas certamente que temos apenas uma pequena parte. E, portanto, como já dissemos publicamente, tratando-se de projectos de qualidade estamos disponíveis para integrá-los na base de dados. Mas é também um trabalho inacabado por outro motivo. É que as canções medievais são difíceis de editar. Os manuscritos às vezes são complicados, têm lacunas, os especialistas dividem-se sobre as edições… Este tipo de edição electrónica permite-nos continuamente fazer melhorias na edição das próprias canções e ir incluindo novos dados que venham a ser descobertos. Por exemplo, sobre as biografias dos trovadores, sobre as quais aos poucos se vai sabendo mais.

Presumo que sendo um trabalho tão exaustivo durante o processo tenham surgido descobertas novas…
Sim, sim… Nós temos muitos dados novos, porque uma coisa é fazer a edição de algumas cantigas, ou de alguns trovadores, outra coisa é fazermos as cantigas na totalidade… E só a simples relação, mesmo electrónica, de determinadas coincidências que aparecem, permite logo termos um conjunto de dados novos. E portanto é evidente que três anos a trabalhar sobre estas cantigas permitiram a descoberta de novos dados. Sobretudo na área da antroponímia, ou seja, das personagens que são referidas nas cantigas, que nós quisemos que tivessem também uma curta referência biográfica. Essa questão é importante porque normalmente as cantigas onde aparecem nomes são as cantigas de escárnio e maldizer e estas cantigas, cada vez se nota mais que são cantigas todas de âmbito essencialmente político.

Mas não só, não é assim? Há, de resto, temas surpreendentes de algum modo… Mas tudo parece por elas e pelos poetas filtrado, não é assim?
Sem dúvida, e isso pode ser visto na consulta à base de dados clicando em Temas. E aí há de tudo, desde cantigas que versam questões do Império, disputas entre reinos, animais, alimentação, vestuário, até, mais especificamente, cantigas com temáticas de âmbito pessoal onde tudo e mais alguma coisa é alvo de sátira, desde a homossexualidade à traição, incesto ou mesmo doenças venéreas, até a gravidez, raptos, romarias, vida religiosa, etc. Mas no Âmbito político, muitas vezes se nós virmos quem são as pessoas, quais são as referências que a cantiga faz, acabamos por dar com situações e contextos políticos muito precisos.

O que é que, em seu entender, faz com que estas cantigas sejam ainda hoje tão apreciadas ao ponto de suscitarem a curiosidade e, em muitos casos, adaptações por parte de músicos e compositores?
Eu acho que as cantigas medievais são um património ibérico riquíssimo e são, essencialmente, grande poesia; grande poesia lírica, grande poesia satírica, por um conjunto muito notável de poetas. Ora a grande poesia é intemporal. É evidente que as pessoas conhecem mais as cantigas de amigo, pelo lirismo delicado, pela sua sensualidade, algo que é até hoje motivo de atracção. Mas nem só. Há por exemplo um grupo galego que vai pegar naquelas cantigas, como direi?… mais… hardcore, que também há muitas, e faz com elas músicas de rock muito engraçadas. Há de facto todo um universo que as pessoas conhecem mal e que agora têm ao dispor de uma forma viva e activa, porque esse foi também um nosso desejo, ou seja, não apresentá-las apenas enquanto património estático, antes como um património que desejamos vá sendo lido e cantado. De resto, o professor Manuel Pedro Ferreira tem no site um artigo onde explica, por exemplo, de que forma as cantigas foram servindo para várias ideologias, desde o nacionalismo dos anos 30 e 40 até ao aspecto mais popular, o património popular, por exemplo, com as músicas do Zeca Afonso… Portanto, a lição que retiramos é que as cantigas vão sendo lidas e actualizadas segundo vários modos de ver o mundo e isso é também a característica da poesia em geral, não especialmente da Idade Média.

Para finalizar, este é também um trabalho que de algum modo permite perceber ao cidadão comum um pouco do que se faz dentro do âmbito universitário…
Sim, creio que essa é, de resto, uma das missões da Universidade, ou seja, não se fechar em si, mas dar ao público possibilidade de acesso aos resultados da investigação, mostrando também as competências técnicas que nós temos para além da transmissão do saber. Para além disso, o que desejamos é que este projecto seja visto, ouvido, consultado e discutido pelos cidadãos.

A um frade dizem escaralhado,
e faz pecado quem lho vai dizer,
ca, pois el sabe arreitar de foder,
cuid’eu que gaj’é de piss’arreitado;
e pois emprenha estas com que jaz
e faze filhos e filhas assaz,
ante lhe dig’eu bem encaralhado.

Escaralhado nunca eu diria,
mais que traje ante caralho arreite,
ao que tantas molheres de leite
tem, ca lhe parirom três em um dia,
e outras muitas prenhadas que tem;
e atal frade cuid’eu que mui bem
encaralhado per esto seria.

Escaralhado nom pode seer
o que tantas filhas fez em Marinha
e que tem ora outra pastorinha
prenhe, que ora quer encaecer,
e outras muitas molheres que fode;
e atal frade bem cuid’eu que pode
encaralhado per esto seer

Cantiga de Escárnio e Maldizer, da autoria de Fernando Esquio

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~ por pedroteixeiraneves em Novembro 6, 2011.

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