o torna-estranho

Fim de tarde tempestivo em Lisboa. Atravesso a ponte a caminho de Azeitão. Motivo? Um leilão reservado (leilão reserva) de lotes especiais de garrafas de Moscatel da casa José Maria da Fonseca. Chove ainda quando chego e estaciono. Levo máquina, tripé, entro no aconchego da antiga casa de família vertida a sala de visitas. Entre paredes, uma espécie de pequeno museu, memórias de muitos prémios, colheitas excepcionais, recordações de família, marca e prestígio. Olho em volta como torna-viagem, bebendo os circunstantes para a ocasião seleccionada. Coleccionadores, detentores de garrafeiras, amantes do vinho. Todos de olho nalgumas preciosidades ali à praça, não só pelo vintage dos néctares a rateio, como pela derradeira oportunidade em adquiri-los. Com que fito? Prazer, negócio? Aos lotes, 35 ao todo. Em todos eles o leit motiv do leilão, cem garrafas de Moscatel de Setúbal Superior 1955. É pegar (pagar) ou largar; desse ano só sobejarão cerca de 50, que ficam em casa, na família. Pegar e pagar na própria noite, pede o pregoeiro, devidamente enfarpelado e laçado, antes de começar o jogo. Está na hora, servido que foi o jantar aos convivas. Ementa de luxo, a condizer com a noite: responde pelos acepipes e demais alavancagem de peixe e carne o Chefe Chagas, do Restaurante Ribamar, em Sesimbra. Virá à tribuna merecer o devido aplauso. Comeu-se garoupa, de bela roupagem, e um javali, menos avalizado. Bebeu-se melhor, bem melhor, a rematar com um cheirinho de Moscatel 55; que outro? O pregoeiro pede silêncio, dá início à sessão. A abrir, 1 garrafa de Moscatel Setúbal 55, arrematada por 420 euros. Avançam três alapadas a outras tantas de DSF Moscatel Roxo 2003. Vendido por 850 euros, nada mau comparado com a primeira oferta por uma só garrafa. A largas dezenas avançam as licitações, o pregoeiro virando à direita e à esquerda do auditório adegueiro (pois é lá, in adega veritas, que tudo se afere). Rapidamente as ofertas ultrapassam as centenas de euros. A maior chega aos três mil euros, outras ficam-se a uma média de 1500. Falamos de quatro, cinco garrafas de vinho no máximo. A sessão termina em coisa de quarenta minutos. Todos parecem satisfeitos. Há que pagar, pegar. Assisto a tudo e não consigo deixar de pensar na crise e no quanto de subjectivo assiste ao conceito. A crise de uns definitivamente não é a crise de outros. In vino veritas. Ou será que estou bêbedo?… Não me parece, sinto a chuva, continua a chover.

P.S. Sim, era muito bom, o Moscatel de 1955. Mas não me senti seu amigo, antes um estranho.

TXT E Fotos PTN

Anúncios

~ por pedroteixeiraneves em Novembro 10, 2011.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: