rentes de carvalho – excerto de uma entrevista quase a chegar na «epicur» – txt/ foto ptn


A sua necessidade de regressar assiduamente a Estevais prende-se com o quê exactamente? É coisa de raízes?
Não, não, estou há 56 anos na Holanda, se há raízes que me prendem – tenho lá família, mulher, filhos, netos… — as minhas raízes estão lá. Mas, há uma coisa atávica… Eu aqui não sou estrangeiro. Eu, lá, mesmo depois de 56 anos, sinto-me estrangeiro.

Mas isso é de si, ou fazem-no também sentir-se estrangeiro?
Não, eu sinto. Nunca escrevi personagens holandesas, enfim, no «A Amante Holandesa» há uma personagenzita. É que não há um entrosamento com aquela alma, é uma alma totalmente diferente. Eu funciono muito bem com o holandês, sou quase um native speaker… Eu sinto-me lá bem e confortável mas a minha alma não está lá. Aquilo para mim é uma identidade de empréstimo, aquilo não sou eu, ou então sou outro.

O Rentes é muitas vezes apontado como alguém que sabe do que fala quanto ao que seja a identidade portuguesa. O que é ser-se português, afinal?
É aquela coisa que nos leva a gostar mesmo do estupor da terra em que nascemos e a achar que água que seja melhor nunca bebi.

E a identidade da Língua?
Isso é um capítulo aparte. A Língua portuguesa para mim é… O Fernando Pessoa tomou aquela frase de empréstimo para ele, mas que não é dele, é de um escritor cujo nome agora não recordo… enfim, aquilo de «a minha pátria é a língua portuguesa», isso é um bocado forçado. Para mim, a Língua portuguesa é o instrumento que eu possuo e que me dá a possibilidade de me exprimir, não só em pensamento-sentimento, mas, sobretudo, a possibilidade de traduzir em melodia aquilo que eu quero dizer. Porque escrever com palavras não é só contar histórias ou criar personagens. A boa prosa é música. Eu estou a ler um livro de um rapaz nosso compatriota [Ricardo Adolfo] – é o segundo livro que eu leio dele, o primeiro era muito bom –, mas neste segundo livro, eu vejo ali coisas que… Eu não lhe vou dizer, que cada um faz como quer, mas a nossa Língua tem sons desgraçados. O ão é um ditongo que tem um som bonito mas o ão tem de se usar com cuidado. O rapaz tem linhas que são pecados capitais para um escritor. Primeiro, todas as frases têm a mesma dimensão, tá, tá, tá, tá!… E todas acabam em ão. Tal, tal, emoção! Tal, tal, televisão! Tem assim páginas inteiras, mas não é o único. Se for a reparar no que se escreve em português, as pessoas parece que estão loucas. Não têm a noção da melodia nem do ritmo.

Mas voltando ao Pessoa, onde é que queria chegar?
A Língua portuguesa… espere aí, eu conheço umas quantas línguas: sou muito bom em inglês, francês, holandês, sou razoável em espanhol e italiano, estudei romeno e catalão, e não há língua nenhuma como a minha que me dá a gama, a paleta daquilo que eu preciso para dizer aquilo que eu desejo. E quem for um leitor atento dos meus livros verá que há, fora do sentido restrito das frases, um desejo de que todas as frases tenham melodia. Eu sou tão chato que mesmo no meu blog [www.tempocontado.blogspot.com] não consigo escrever sem reparar se a coisa está melodiosa.

Vamos por aí. Que posição tem a respeito do acordo ortográfico?
Não me interessa. Ouça, eu aprendi a ler aos 5 anos, em 1935 e depois, desde então, conheci uma quantidade de mudanças… ao fim ao cabo, eu acho que aderi ao acordo ortográfico de 19 e sessenta e não-sei-quê e fiquei por ali. Não vou mudar. E depois, eu tenho uma simpatia grande pelo brasileiro, a língua brasileira dá-me bons sentimentos, dá-me um sentimento de alegria e de felicidade, eu rio. Eu não posso ouvir um brasileiro sem estar a rir. Porque mesmo o brasileiro culto, que fala bem a sua língua, tem uma coisa que… é emprestada do italiano, do espanhol… e depois aquela canção, aquela melodia, não é cantiga, para mim tem cantiga demasiada.

Escreveu há dias no seu blog que não sabia para que ia votar. Quer esclarecer?
Ontem, peguei na «Única», do «Expresso», e li lá duas coisas cómicas: uma, era um senhor chamado Emídio Pinho que juntou os grandes nomes da riqueza em Portugal mais o senhor Mário Soares e afirmou “o Presidente Mário Soares é o maior estadista português do século XX.” Eu desatei a rir; a minha mulher até perguntou porque é que eu estava a rir. A segunda coisa era o patrão da CIP, que dizia: “Portugal já está a subir, isto já está bom, já está a andar”. Epá, pouca vergonha!

A cidadania europeia diz-lhe alguma coisa?
Nada! Eu sou português. Sou português na medida em que… Vamos lá ver, eu sou bem educado, tenho essa vantagem, digo as coisas que sinto, não devo a ninguém, não sou dependente de ninguém. Mas, a Europa é uma treta, a Europa é para os holandeses, para os alemães, para os noruegueses, para a gente do dinheiro, o resto anda de mão estendida.

~ por pedroteixeiraneves em Novembro 11, 2011.

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