crónica do senhor lopes no museu do côa com as devidas provas, de vinho (duas quintas/ bons ares) e factuais



BREVE CRÓNICA DO SENHOR LOPES

Tínhamos vindo da Quinta da Ervamoira. O senhor Lopes estava deitado. Enrolado sobre si mesmo, em posição dita fetal. Quieto e mudo, há milhares de anos, o que restava dele. A saber: um crânio semi-desfeito, algumas ossadas em problemático estado de conservação. Coitado do senhor Lopes, em tais preparos apresentado aos jornalistas em visita ao Museu do Côa como «o mais antigo esqueleto humano» por aquelas bandas encontrado. «O nosso senhor Lopes», diz Dalila Correia, a nossa excelente guia, sorrindo, com uma ponta de emoção. O senhor Lopes, assim reduzido à eterna circunstância de paleolítico achado arqueológico. Quanto aos restantes jornalistas convidados a palmilhar as funduras do alto Douro vinhateiro, em comemoração dos dez anos volvidos sobre a atribuição da classificação de Património Mundial à região, não sei, não sei se o senhor Lopes ficou a matutar-lhes o espírito, como fantasma de épocas outras, não sei se acordaram na manhã seguinte a tentar imaginar o que teria sido a pretérita e primitiva vida do senhor Lopes dito esqueleto-achado arqueológico. E acontecesse tal, pouca lógica na verdade teria – ossadas são ossadas, vidas passadas, ponto final, até porque no supracitado Museu motivos maiores de interesse aos olhos de todos terão saltado à vista, a começar pela magnificência do projecto arquitectónico em causa. Já eu, acordei a matutar no senhor Lopes. E descarto já qualquer interesse necrófilo em especial. Sucede que no dia anterior, ao chegar ao Hotel Aquapura, onde ficámos soberanamente alojados, um qui pro quo ligeiro me reteve na recepção – não davam com o meu último apelido: Neves. Se tinha a certeza?… De quê? De chamar-me Neves?… Que não constava na lista… «Veja lá…» – eu na insistência-certeza de ser Neves, e também Teixeira, «ora veja»… Teixeira, Teixeira… Sim, Teixeira há aqui um senhor; é Pedro? «Eu mesmo. Pedro Teixeira Neves». Ah, pois, então deve ter sido isso, aqui temos um Pedro Teixeira Lopes. Lopes! Recordo eu na manhã seguinte à visita ao Museu do Côa onde fui apresentado ao senhor… Lopes! Das Neves, Nunes, Nino vá lá, a coisa ainda passa, já aconteceu a troca do apelido – todos nós, de alguma forma, teremos experiência similar, e lembro o meu amigo Onésimo Teotónio de Almeida que na matéria tem vasto rol de estórias a contar, tanto que até deu por título a um seu livro de crónicas «Que Nome é Esse, Ó Nézimo?». Agora, Pedro Teixeira Lopes?! Vou ao bilhete de comboio, ao qual não prestara atenções maiores senão as devotadas aos horários, carruagem e lugar que me haviam sido reservados. Voilá! Ali estava, mesmo antes de partir de Lisboa eu já era Lopes. Ri-me depois do acaso… Terei pensado mesmo em fazer um bigodinho ao olhar-me ao espelho do quarto zen que me fora reservado, que isto de ser Lopes é coisa que me parece merecedora de um bigodinho… Logo depois, ao rever mentalmente o senhor Lopes reduzido a ossos e pó, um leve arrepio me percorreu a alma quando penso que um dia seremos mesmo todos senhores Lopes. Bem reflectido, no museu o senhor Lopes não era mais do que um espelho. Como escreveu o Alexandre O’Neill, «Enquanto os filósofos etiquetam, os relógios tiquetaqueiam». Às vezes os jornalistas dão em filosofar, o tempo, esse, não perde tempo com histórias.

~ por pedroteixeiraneves em Novembro 29, 2011.

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