três poemas em manhã de nevoeiro

I.
penso
na terrível angústia do espaço vazio
depois de uma data
depois de um hífen
no vazio em frente depois do hífen
à nossa espera
um dia
1969 –

II.
dizem
dizem que as pessoas mudam
eu digo que emudecem
que o tempo nos emudece. os caminhos
de brincar por onde andam? há tanto tempo já
que as mãos não inventam estradas. tirei a carta em 89 creio
e não mais as inventei. julgo que passei a ser conduzido
sem o saber. também não me recordo
da última carta que escrevi e carta astral nunca
me fizeram. no fundo no fundo aceleramos
mas é sempre a desacelerar rumo ao silêncio. estamos
sempre a perder. no fundo
no fundo não quero saber vou meter-me
no carro e sair por aí.

III.
abriu a janela para o negócio das costuras
faz arranjos bainhas e afins assim o afirma num pedaço de cartão
mal amanhado. faz enfim acertos a ver se acerta
as contas do mês. não sei se ainda prega cotoveleiras
joalheiras ou outros remendos que antigamente eram uso
quando as roupas envelheciam de irmão para irmão e as calças
e camisolas picavam terrivelmente a pele.
olho-a atarefada à margem da lei espreitando a rua onde dois polícias
fazem guarda ao pingo doce… remenda-se como pode
costureirinha pequenina que já não vais ao cinema namorar
costureirinha pequenina como um botão.

~ por pedroteixeiraneves em Novembro 29, 2011.

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