entrevista inédita a maria teresa horta por ocasião da atribuição do prémio literário d. dinis, fundação da casa de mateus, ao romance “As Luzes de Leonor”

«As Luzes de Leonor»

Sobre Uma Mulher Perigosa

TXT Pedro Teixeira Neves

Foi há quase um ano. Maria Teresa Horta editou, na D. Quixote, a quixotesca viagem ficcional em torno da vida da sua avó em quinto grau, Leonor de Lorena, mais conhecida por Marquesa de Alorna, muito embora tal título apenas lhe tenha cabido já em vida adiantada. Um trabalho literário de invulgar empreitada que lhe tomou mais de uma década de escrita. Mas já vamos a esses quinhentos. Para já, alguma coisa a respeito dessa mulher que deixou marca indelével no seu tempo e em todos aqueles com quem privou. O fulcro: era neta dos Marqueses de Távora, executados pelo Marquês de Pombal sob suposta acusação de atentado contra a vida do rei, e foi pois por herança genética que se viu prisioneira durante cerca de duas décadas num convento, juntamente com a sua mãe e irmã. Leonor estava, porém, votada a desígnios maiores do que se deixar morrer ou encanecer sob as sombras de um chão católico de freiras e quejandas. Ali, aproveitou para crescer: por fazer-se mulher, bela por sinal, e por crescer em termos culturais, encontrando tempo e maneira de ler todos os grandes pensadores e filósofos da História. Não por acaso, crescia também o seu cortejo de admiradores, muitos dos quais, homens e mulheres, iam vê-la, ou visitá-la ao catre. Aos vinte e muitos Leonor viu-se livre. Escolheu marido por gosto próprio, recusou amantes e maridos outros, e foi conhecer mundo. Ou foi-se dar a conhecer ao mundo! Recebida por reis e rainhas, cedo entendeu os rumos político-diplomáticos de uma Europa prestes a cair em mãos napoleónicas. Talvez por isso mesmo, por alertar para esse perigo, e por ter apelado a uma Europa unida contra Napoleão, se viu exilada manu militari por Pina Manique, certamente a mando de influências gaulesas. No entretanto, Leonor cresci como criadora, como poetisa, com musa inspiradora também – que o diga um Alexandre Herculano. Pelo caminho, tempo e dores para oito partos! Vida cheia e vivida a de Leonor, expoente de Luz ao longo de um caminho que lhe queriam de sombras, lutando contra um passado sombrio, iluminando um futuro que parecia em perigo. Pois bem, havia treze anos que também Maria Teresa Horta lutava contra todas estas sombras e luzes de uma mulher com a qual desde pequena, por influência de sua mãe, aprendeu a conviver. É obra, grande obra, um intensíssimo trabalho criativo (note-se não biográfico, embora partindo de traços biográficos reais) que agora chega ao fim. Cremos, porque nem toda a vida de Leonor aqui se encontra plasmada. Importa, contudo, deixar explícito: o fulgurante trabalho poético que aqui está narrado, uma admirável filigrana que parágrafo a parágrafo se vai entrelaçando criando um soberbo fresco de época, entrando no mais dentro das personagens, chegando ao espírito do tempo como poucos conseguiram. «As Luzes de Leonor», um livro com tudo o que dignidade e mérito encerra uma tal palavra.

Maria Teresa Horta, é possível resumir o que traduz este livro, mais de uma década de pesquisa, se calhar uma vida inteira?… Como dizer, em poucas palavras, quem foi a Marquesa de Alorna?
É exactamente a essa questão que eu pretendo dar resposta; quem foi essa mulher? E não faço a mínima ideia ainda, porque neste momento quanto mais… eu neste momento estou numa altura em que faço a pergunta que a Virginia Woolf fez à Sackville-West quando acabou o «Orlando» e tinha ali, digamos, a sua heroína viva, eu não tenho, não posso fazer essa pergunta. Mas ela perguntou-lhe: eu agora que acabei, pergunto a mim própria, será que te inventei, dos pés à cabeça? Portanto, esta mulher é tão rica que eu fui atrás exactamente de cada pormenor. Por isso, este livro é um livro de pormenores.

Em que sentido?
É um livro de pormenores por causa dela e porque eu trabalhei a linguagem de uma forma exaustiva e que me deu imenso prazer. E isto porquê? Porque ela própria era uma mulher que ia atrás das palavras, porque era uma poetisa, uma mulher da escrita, uma mulher de invenção, que ficcionava tudo de tal maneira, que se ficcionava a si própria. Ora é muito difícil ir atrás de uma mulher tão rica, que viveu tantos anos, que teve uma vida tão preenchida, era uma viajante e que esteve, apesar de tudo, dezassete anos presa dentro de um convento. Mas uma mulher que conheceu a corte austríaca, a corte francesa, conheceu a Maria Antonieta, mulheres da Revolução Francesa. Portanto, estamos perante uma vida tão rica que por mais que se vá atrás dela sabe sempre a pouco.

Uma mulher que conheceu muito mundo, mas que em si própria condensava muitos outros…
Sem dúvida. Ela era também uma mulher desconcertante, porque como era uma mulher de uma grande ambiguidade. Era uma mulher que se dizia da razão, mas que agia segundo o coração muitas vezes. Era uma mulher que dizia que não conhecia a paixão, mas foi uma mulher que se apaixonou imenso, que teve uma paixão fulgurante. Quanto mais uma pessoa a lê, porque ainda por cima deixa para trás uma obra muito extensa, as filhas publicam-lhe a obra poética, mas ela deixa atrás de si, e não por acaso, porque ela falava sempre da posteridade, ela deixa atrás de si imensas pistas.

E o que foi mais difícil nesse exaustivo trabalho de «ir atrás dela», segundo a sua expressão?
Difícil não foi encontrar as pistas, difícil é segui-las, porque ela depois faz imensos desvios dos caminhos que ela se propõe, como se estivesse já a baralhar-nos no caminho até ela. Como se ela se tivesse querido, apesar de tudo, resguardar, embora se expondo tanto, como mulher política, como poetisa, como mulher da cultura da sua época.

Esse trabalho começou exactamente quando, há treze anos, ou antes disso?
Não muito antes dessa data. Esta obra começa por pensar uma obra mais extensa, que seria trazer ao de cima da história das mulheres em Portugal, as mulheres que estão dissimuladas no passado, no esquecimento, as mulheres que estão esquecidas na poeira dos tempos. E a ideia, digamos, ambiciosíssima, impossível, de executar, seria ir trazendo, em romance, várias figuras de que as pessoas ouviram falar de passagem, como a Catarina de Lencastre, ou não ouviram mesmo, como por exemplo uma Joana Isabel Forjaz. Mas à cabeça estava Leonor, como eu a trato… e a Leonor é minha avó, quinta avó – era trisavó do meu avô. E eu desde muito pequena que uma das imagens que guardei foi de um livro do Marquês de Ávila e Bolama sobre ela – que eu hoje acho que é muito mau, mas que teve a vantagem de nos dar a conhecer cartas e dados pessoais que eram desconhecidos –, que, recordo-me, estava em cima da mesa da minha mãe. Tinha fotografias e mais não sei o quê e foi das primeiras coisas que, ainda muito pequena, li. E eu achava-a fisicamente muito parecida com a minha mãe.

Isso constituiu no imediato uma fonte de atracção, presumo.
Naturalmente, isso atraiu-me muito. E eu, já desde muito pequenina, escrevia e queria ser escritora e ela era uma escritora… Não se seria um exemplo de vida para mim, um exemplo de vida é a Simone de Beauvoir, um exemplo de escrita será a Marguerite Duras, mas ela é, ela tem as minhas raízes.

E até que ponto vai essa irmanação? Mais, até que ponto vai essa irmanação com essas mulheres que, como escreve, são «dadas a pressentimentos, a anjos e cintilações», que têm «conhecimento das raízes de tudo o que nasce e brota das tempestades»?
Eu, ao longo desta busca, e a que voltei sedenta num poema sobre ela, cheguei à conclusão de que nela tudo se reinventa. E, portanto, uma pessoa quando julga que a apanhou, ela não está, olha-se e não está. Há dados, apenas. E eu volto sempre para trás. Neste momento, olho para o livro e penso, será que tenho de voltar ao início dele? Será que os seguintes, o resto da vida dela – porque este livro abrange só cinquenta anos e ela viveu até aos noventa, sempre lúcida, inquieta… –, seriam diferentes? Não sei, aquilo que eu sei é que essas mulheres, que depois me surgem, porque eu vou atrás da Leonor mas há uma mulher que vem atrás de mim, que é a Marquesa de Távora, minha sétima avó, que eu admiro muito. E eu cheguei à conclusão que para dar a Leonor eu tinha de dar a avó dela, mas porque ela veio ter comigo. Eu quando começo a escrever esse livro, não tinha nenhum projecto com a Marquesa de Távora e o primeiro texto que eu escrevo é a Marquesa de Távora. Portanto, é ela que me abre o caminho até à neta dela.

Têm dito que se trata de uma biografia sobre a Marquesa de Alorna. Sei que não partilha desse ponto de vista. Houve ou não uma intenção biográfica?
Não. Nunca quis fazer uma biografia. Porque eu não sou uma biógrafa, sou uma escritora, uma poetisa. Aqui está uma poetisa à solta. Há muitos escritores poetas e que quando fazem um romance põem o poeta que são de fora, na cave, amordaçam-no, põem-lhe grilhetas para ele estar calado. Eu nunca fiz isso e neste romance muito menos, porque estava a tratar de uma poetisa.

Mas ao «ir atrás» dela até às raízes, volto à expressão, não está no fundo a fazer uma biografia?
Não, porque eu inventei. Ela deu-me dados. Depois, quando eu ia atrás dela, realmente havia um buraco negro, não havia nada, porque havia saltos onde não há pistas dela, ou apenas pequenas pistas. E aí eu inventei tudo; por exemplo, todo o capítulo XVII, da Revolução Francesa, é praticamente inventado por completo. Sabe-se que ela está lá, o neto diz ela está lá, no início da Revolução, estava em Marselha, vai para Paris e a partir daí não se sabe nada. Só me restava a invenção. Ora como é que eu posso dizer que é uma biografia quando eu a ponho a conhecer todas aquelas mulheres da Revolução Francesa, a Théroigne de Méricourt, a Claire Lacombe, a Olympe de Gouges, quando a ponho a assistir à tomada da Bastilha, quando vão a Versailles ter com os reis?

Porque tomou a opção de nos dar um quadro tão vivo desse período «francês», digamos assim?
Porque era ideal para mostrar a dilaceração que havia nela. A dilaceração face aos acontecimentos, porque ela conhecia os reis, e o estar de acordo, porque ela é uma discípula de Voltaire e do Rousseau e ao mesmo tempo é de uma família de alta aristocracia. Portanto, ao pô-la na Revolução Francesa o que pretendi dar foi essa dilaceração. Mas eu acho e digo no livro que foi uma altura-chave em que ela podia ter mudado completamente a vida dela, mas ela não podia recusar o seu passado, ao mesmo tempo aquilo atraía-a, concordava, mas também temia pelos seus, pela corte portuguesa, a que estava muito agarrada. Ela era muito amiga da D. Maria, por exemplo, que era uma grande protectora dela.

Diz que a sua vida se foi construindo ao acaso, mas tão grandes feitos e realizações, tamanhas vivências experimentadas e relações tecidas, dão-nos a pensar até que ponto ela não escrevia as linhas do seu destino. Concorda?
Sim, é um pouco paradoxal, mas para nós, hoje, que olhamos para aquela mulher naquela altura… Ela, naquela altura, era um desacato, uma mulher perigosa. Nós encontramos em várias alturas, de dados que nos chegam de várias biografias, homens que disseram. «Esta mulher é perigosa». E era uma mulher tão perigosa, era uma mulher política, que atordoava o D. João VI, que era um homem timorato, e muito mais diante das mulheres, como também diante do Lannes, ministro plenipotenciário francês que estava cá na altura. Ele estava entre a Dona Carlota Joaquina, que era a dama especial dela, e que defendia a sua dama – como ela dizia, nas minhas damas ninguém mexe –, e o Lannes, que trazia a palavra do Fouché e do Napoleão. Estes, que diziam: essa mulher tem que ser expulsa de Portugal.

E tinha razão de ser, o epíteto?
Creio que sim. Porque ela realmente propunha-se ir com credenciais portuguesas pela Europa fazer a união da Europa, porque era a única maneira de deter o Napoleão. Portanto, ela fala da União Europeia pela primeira vez e quer deter aquele déspota, déspotas que ela odiava.

Recuemos um pouco. Quando é que ela vai para o convento e porquê?
Ela vai para o convento com oito anos, porque os avós dela foram condenados por tentativa, que depois de veio a provar ser falsa, de morte do rei. Os avós são, de resto, mortos no cadafalso. Ela tinha uma ligação enorme com a avó, a Marquesa de Távora, e ela é metida no convento com a mãe por causa dessa acusação. Portanto, é uma menina cuja vida de repente lhe é coarctada e é metida num convento onde fica até aos 27 anos. E ela sai de lá, portanto, com uma idade, para a época, já algo avançada; enfim, regra geral, nessa idade, em princípio, uma mulher ficaria para tia, era alguém que já não se casaria, e ela quando sai, no auge da sua beleza – a corte ia visitá-la, os poetas iam ter com ela, nos célebres outeiros poéticos de Chelas, onde ela era a principal atracão –, sai sob os focos de todas as atenções e disposta a viver. É preciso ver que ela conseguiu reunir seiscentos livros em Chelas! Esses livros, que ela depois traz, a verdade é que ela conseguiu que as freiras lhe dessem um quarto só para pôr os livros, portanto fazendo a sua biblioteca. E isto é tão inusitado para a época, ela estava tão entretida com tudo isto que… é nessa altura que começa por ser perigosa.

Para quem em concreto?
Primeiro, para o Marquês de Pombal, que começa a notar a sua rebeldia, depois para o Arcebispo de Lacedemónia, que é quem o Marquês encarrega de a pôr na ordem, porque a Madre prioresa se queixava dela e da irmã, porque eram umas meninas insubordinadas. Tem o exemplo dos vestidos garridos que ela conseguia que lhe trouxessem e que ela usava no convento, ela conseguia tudo o que queria. Depois, há realmente o Napoleão que diz: «Essa mulher é perigosa, não pode estar em Portugal». Porque ele teve pela primeira vez uma mulher a fazer-lhe frente. Ele não gostava de mulheres, sabe-se, e é uma mulher portuguesa, de quarenta e tal anos, exorbitante, que mete medo ao Napoleão. Eu penso que isto é extremamente curioso e o Fouché diz mesmo «esta mulher é perigosa», tal como o Lannes. Homens que viam e reconheciam nela o perigo mas que também reconheciam o seu poder de atracção, porque ela era muito bonita. O Lannes também era e inventou-se um grande romance entre os dois, o que a escandalizou muito. No Lannes também havia uma grande ambiguidade; queria ao mesmo tempo que ela saísse, e ao mesmo tempo tinha que trazer a palavra do Fouché até ao Rei. E aí, o Pina Manique, outro que sabia que ela era perigosa, e que andava atrás dela, seguindo-a o tempo todo, disse «é preciso pô-la na fronteira». Todos estiveram de acordo e ela é posta na fronteira com Espanha e é exilada rodeada pela tropa portuguesa. Portanto, vão daqui até à fronteira levá-la a ela e a um filho; uma mulher que levava os seus livros e um filho pela mão, mais nada. Eu penso que isto dá a medida da sua dimensão.

Acha que ela de algum modo teria noção dessa sua força, dessa dimensão?
Eu penso que ela estava tão empenhada que ela sabia que teria sempre dificuldades, mas sempre achou que isso era o direito certo, o direito dela e das mulheres. Era uma insubordinadora sem nunca deixar de ser a Marquesa de Oeynhausen, porque a Marquesa de Alorna no meu livro nuca chega a ser Alorna, porque só o é no fim da vida dela. Portanto, uma mulher da alta aristocracia, uma mulher a quem não se podia fechar as portas da corte.

Amada por uns, temida por outros. O que a Teresa tentou foi sobretudo olhar aos que a sublimaram, dessa forma fazendo vir ao de cima a sua grandeza. Estou certo?
Sim, foi isso. Até porque nenhum dos que lhe fizeram mal tem a dimensão dela. O que era importante era ela, a sua dimensão espantosa para a época, a única mulher das Luzes que nós tivemos. Aquela mulher que era amiga da madame de Staël, que na verdade causa medo a esses pequenos verdugos, aos pequenos ódios e perseguições que lhe moviam e que, é verdade, acabam por lhe fazer a vida penosa. Mas eu pergunto: curiosamente, é como se ela tivesse na vida dela todo um conjunto de circunstâncias que a faziam crescer, porque ela era desafiada e não podia ser desafiada! Quando isso acontecia era quando ela crescia. No Convento, por exemplo, ela fica quieta à espera de sair? Não, ela aprende línguas, música, ciências, tem o culto da ciência, aprende e tenta entender o universo das estrelas, ela seria neste momento uma mulher dos Verdes, porque tinha o culto da Natureza… Ela era a modernidade dentro de um convento. Ela falava do mundo, da saída para o mundo, era uma viajante, queria conhecer o mundo e durante 27 anos tiraram-lhe isso. Mas ela quando sai, numa das cartas que escreve ao pai, pergunta: «Será que as filhas de vossa excelência teriam esta cultura se não estivessem estado fechadas num convento?» Portanto, ela tirava partido das situações, cresce na adversidade.

Este livro é também uma grande homenagem à poesia, não é assim? Porque você escreve repetidamente que é a poesia que salva esta mulher… Isto para já não falar no modo poético como o livro está escrito por si, também poetisa.
É verdade. É a poesia que a salva a ela e é a poesia que me salva a mim. Disso não tenho dúvidas, e tem sido assim ao longo de toda a minha vida.

Outra pergunta que a Teresa se coloca muitas vezes ao longo do livro é sobre se teria ou não a Marquesa encontrado a felicidade? Chegou a alguma conclusão?
Mas chega alguém verdadeiramente a encontrar a felicidade? É que eu acho que quando as pessoas chegam a um patamar que acham que é a felicidade, querem já outra coisa e querem logo ir mais longe, pelo que esse momento, a existir, é meramente fugaz. E a Leonor era uma pessoa tão insatisfeita… As pessoas insaciáveis… Eu tenho um poema em que digo, e pu-lo na boca dela… «para a minha sede/ nenhuma água chega». Ora isto é o que se passa comigo e era o que eu achava que se passava com ela, mas essas são as minhas raízes, muito provavelmente eu sou assim porque tive esta mulher na minha vida, que já era assim porque teve a avó que teve. Portanto, quantos mais entraves mais nós crescemos e a Leonor então, com aquela luz…

A esse propósito, o título surgiu-lhe de imediato como escolha óbvia?
Creio que sim, porque ela passava a vida a falar das luzes. Ela dizia: eu tenho luzes, aquele não tem luzes, o meu pai tem muitas luzes mas eu quero mais luzes. Portanto, «As Luzes de Leonor» porque ela própria era uma luz.

Mesmo que sempre empurrada para as sombras?
Sempre, sempre, sempre. Desde que vai para o Convento, é levada para o exílio e mesmo na vida quotidiana, porque a sua família, o pai, sempre tentaram mandar nela e pô-la no lugar onde achavam ela devia estar. Que era no papel de esposa amantíssima, quietinha, em casa, a bordar, a cuidar de filhos e a ter a idade que tinha. É curioso que há uma carta do ministro do Napoleão, o Fouché, que informa o Napoleão, quando ela está em Londres, que morreu o Henry Forestier, o amante dela, que foi a grande paixão da vida dela, que tem menos 25 anos que ela, e diz o seguinte: «É preciso termos cuidado porque ele usa muitas máscaras, se calhar isto é uma maneira de nos iludir, a morte dele e ele está vivo. Mas dizem que quem é a mentora disto tudo é uma condessa portuguesa, jovem, muito bonita.» Muito bonita, jovem? Naquela altura? Com cinquenta e tal anos?! Já hoje nem sequer é, quanto mais naquela altura! E uma «perigosa» mulher portuguesa. E diz mais, acrescenta a seguir: «Ela é uma perigosa aventureira». E eu acho espantoso que depois tudo isto é branqueado pela minha família até há bem pouco tempo. Portanto, ela era vista como aquela senhora impoluta que nos dá o Hernâni Cidade, que é a imagem da mãe amantíssima, filha submissa. Ela não foi nada disto, foi sempre uma insubordinada, uma desobediente. Nunca guardou, por exemplo, o resguardo depois do parto, de três meses, como era comum… O marido dela, foi ela que lutou por ele, que ela escolheu, não foi imposto. O seu pai não queria aquele marido! Eu, aliás, falo muito do marido no livro porque ele dá uma visão dela muito interessante, que foi de resto o que eu quis também neste romance, dar dela não só a minha visão, mas também dar a Leonor pelos olhos dos outros. É por isso um romance facetado, como se fosse um cristal, em que o cristal é ela. E as várias faces do cristal, que são os outros à sua volta, dão exactamente a Leonor.

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~ por pedroteixeiraneves em Janeiro 5, 2012.

Uma resposta to “entrevista inédita a maria teresa horta por ocasião da atribuição do prémio literário d. dinis, fundação da casa de mateus, ao romance “As Luzes de Leonor””

  1. Excelente!!

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