1700 O século dos portugueses

O século dos portugueses
Entrevista com Massimo Mazzeo, director artístico do Divino Sospiro

Título, chamativo, a dar que pensar: «1700 The Century of the Portuguese». Mas, afinal o século dos portugueses não foi o de quinhentos, dos infantes, Sagres e quejandas navegações? Massimo Mazzeo, director do agrupamento Divino Sospiro, elucida. Falamos de música, falamos de um tempo e de um época em que, e cito para eventual pasmo: «Portugal naquela época tinha capacidade não só económica de contratar grandes músicos, mas tinha capacidades estéticas de poder escolher, de poder encontrar os melhores interlocutores. Os compositores não eram compositores quaisquer, eram provavelmente os melhores compositores da época. Os cantores que eram contratados eram realmente os melhores». Ó tempo volta pra trás, como diria a Maria Cachucha. Mas a dança hoje é outra. Vão-se os anéis fiquem os dedos, mais que não seja para fazer contas à vida. Fazer pela vida, com brio e qualidade, é o que faz o Divino Sospiro, e quase de forma altruísta pois como poucos ou raros dá uma vez mais provas de um esforço ímpar para dar a conhecer o património musical português. Património, leu bem, leia também, por incrível que lhe possa parecer, desconhecido, ou antes, por dar a conhecer. O país não investe, o cultural ministério recuou na patente; que interessa o património?… Ora, de forma diversa pensa o Divino Sospiro e daí esta recolha brilhante de obras de três (quatro, com Carlos Seixas) compositores portugueses de setecentos. De setecentos e de monta! Mais abaixo poderá saber porquê, antes, agora, retenha os seus nomes: Pedro António Avondano (cuja secna de Berenice para soprano e orquestra abre o disco); Pietro Giorgio Avondano; e Francisco António de Almeida. O disco é editado pela Dynamic (a fim de uma melhor distribuição), tem naturalmente à frente da condução musical o maestro Enrico Onofri, e recolhe interpretação da soprano Gemma Bertagnoli. Na capa, uma imagem do Convento de Mafra, num desenho encomendado a António Jorge Gonçalves. Uma escolha, a composição atribuída a Carlos Seixas (Coimbra, 1704 – Lisboa, 1742), aqui interpretada por Fernando Miguel Jaloto (cravo) e Stefano Barneschi (violino). A conversa com o director artístico, Massimo Mazzeo.

TXT Pedro Teixeira Neves

Qual a génese deste trabalho? É fruto de uma ideia recente?
É um trabalho que teve uma génese, eu diria, grande. Foram alguns anos de pesquisa e que finalmente chega a ver a luz nesta edição da editora Dynamic. Na verdade, seria talvez incauto ter querido fazer este disco logo no início de vida do Divino Sospiro. Poderia ter sido feito, sim, mas provavelmente não com a mesma qualidade com que agora é apresentado.

«O século dos portugueses», assim lemos no título. O que faz com que assim seja denominado?
Devo dizer que o património musical português é talvez o lado menos conhecido da cultura portuguesa em termos gerais. Realmente, quando se fala do século dos portugueses sempre pensamos nos Descobrimentos, enfim, nesse contexto de expansão que caracterizou o século XV português. Porém, falando propriamente de música, ao longo do tempo eu pude constatar que o século XVIII, 1700, é realmente a mina de ouro para a cultura portuguesa, é um tempo de representatividade cultural e musical de grande qualidade, espelho do grande poder intelectual de Portugal naquela época. Para mim, em termos de música é efectivamente isso a que poderemos chamar “o século dos portugueses”. Estamos a falar de música instrumental, claramente, vocal, instrumental, operática, e não tenho dúvidas que o título “século dos portugueses” se aplica bem a este período.

Está a falar-me de um legado musical em nada inferior àquilo que à data se fazia fora de portas?
Sem dúvida. Eu acho que aquilo que podemos ouvir neste repertório, que escolhemos para este disco, corresponde a um altíssimo valor relativamente à música que à época se fazia no estrangeiro. E não falo apenas da escrita musical. Mesmo que, de algum modo, com derivações da música italiana – que influenciou todos, não só cá –, a verdade é que Portugal naquela época tinha capacidade, não só económica, de contratar grandes músicos. Tal como tinha capacidades estéticas e mesmo poder para escolher e poder encontrar os melhores interlocutores. E note-se que os compositores não eram compositores quaisquer, eram provavelmente os melhores compositores da época! Os cantores que eram contratados eram realmente os melhores que havia, e isso permitia transferir também a própria imagem estética do país. De alguma forma, acho que é isso que tentámos também mostrar neste trabalho.

Para lá dessas influências a que aludiu, até que pouco este legado musical tem as suas próprias especificidades?
Volto a frisar, devemos ter sempre em mente que toda a música setencentista, especialmente da primeira metade de setecentos, tem em si um pouco uma influência que vem da música italiana. Quase todos os compositores, incluindo Mozart, foram influenciados por isto! Mas, embora haja esta matriz, que está um pouco por detrás dessas obras todas, há uma certa peculiaridade e uma certa especificidade que também se pode encontrar na música portuguesa. Quanto a mim, um exemplo paradigmático que se encontra neste CD é a cantata do Francisco António de Almeida [A quel leggiadro colto]. O Francisco António de Almeida é um homem que estuda em Roma e chega a ser tão apreciado e querido que é convidado, por exemplo, em primeiras apresentações de obras de Handel, seu contemporâneo, que estudava em Roma com ele. De resto, temos até relatos do próprio Handel dizendo da sua presença aquando da primeira apresentação de uma oratória sua em Roma. Outra prova do seu valor é que Francisco António de Almeida esteve também entre um lote muito reservado de figuras ilustres escolhidas para serem retratadas por um dos desenhadores mais importantes da época, que só fazia retratos dos mais notáveis artistas de então. Interessante nesta sua obra é que ele, digamos, utiliza o material de “implante italiano”, mas confere à escrita musical uma característica e um lado emocional, digamos assim, de uma intensidade que é típica nele, mas que é típica também de uma certa vivência cultural portuguesa.

Pedro António Avondano abre o disco. Por alguma razão especial?
Não. Tornou-se, eu diria, uma razão especial. A princípio, a ideia era fazer um trabalho que mostrasse o que foi o século de setecentos em Portugal. Ou seja, dar uma panorâmica do modo como a música teve um grande implemento na altura, algo que hoje, infelizmente, não acontece. Isto não obstante o grande trabalho que, por exemplo, o Divino Sospiro tem feito em todo o mundo, divulgando o repertório de setecentos, do século XVIII português, que é ainda muito pouco conhecido. Nesse contexto, queríamos dar uma panorâmica relativamente àquilo que eram as características mais fortes da música portuguesa de setecentos. Sucedeu que ao pesquisar, tentando recuperando o mais possível em termos de material, cruzámo-nos com este compositor, Pedro António Avondano. Que tem uma história bastante singular, como está bem vincado nas notas de Cristina Fernandes, no booklet, escritas de forma exemplar. Ele era de família italiana, nascido em Lisboa, e participou na vida cultural da cidade de forma marcante, algo sobre que até hoje não foram ainda realizados estudos aprofundados. Portanto, sobre ele sabíamos algumas coisas, mas algo confusas. O que acontece é que, a um certo ponto, cruzei-me com uma partitura que achei absolutamente extraordinária, e desde logo intuí que aquela ficaria como a primeira faixa do disco, que lhe serve de apresentação e que é a chamada cena de Berenice. A partir daí, tive o instinto de ir procurar saber mais sobre este compositor, a sua vida e a tudo aquilo em volta dela. Nesse sentido, por exemplo, viemos a descobrir que duas peças que lhe eram atribuídas (e que estão neste disco) eram na verdade do seu pai, Pietro Giorgio Avondano.

Gemma Bertagnoli, a voz ideal para este projecto? Porquê?
Acho que sim. Mas devo dizer que a sua escolha teve que ver com uma necessidade artística. Ou seja, eu estou convencido que o melhor serviço que se pode fazer para a recuperação de um património musical – e neste caso do património musical de Portugal do século XVIII –, se deve fazer escolhendo os melhores interlocutores, aqueles que podem servir a causa da melhor forma possível. Neste caso, eu tinha, sem dúvida, à minha disposição um grupo extraordinário de pessoas que são os músicos do Divino Sospiro, que são pessoas que a nível profissional e humano são pessoas fora de série. Tal como tinha uma pessoa que é conhecida em todo o mundo e que tem votado uma parte da sua vida à causa do Divino Sospiro, que é o Enrico Onofri. De qualquer forma, creio que a Gemma Bertagnoli é o soprano que, do meu ponto de vista, consegue encarnar de melhor forma o canto barroco setecentista de matriz italiana, e daí a sua escolha. É uma pessoa que tem aprofundado muito o trabalho de interpretação neste repertório e nas suas várias vertentes. De resto, tem uma capacidade que lhe é reconhecida em todo o mundo, tem feito muitas gravações para as melhores editoras do mundo, e por tudo isso pareceu-me a melhor interlocutora para darmos a este primeiro trabalho dedicado inteiramente à música portuguesa o valor que ela merece e precisa.

Fica muito ainda por revelar?
Um património imenso! Nem a minha vida inteira, e talvez a de outros, chegaria para revelar tudo. Talvez porque falta também um plano sólido de recuperação. Há quem tenha levado a cabo, como no nosso caso, iniciativas de instinto próprio, com grande amor e vontade, há institutos que fazem algum trabalho, mas são instituições que dependem muito de quem está à frente das decisões, de quem está à frente desses institutos, e às vezes, com a mudança de nomes, os projectos acabam por ficar pelo caminho. Acho fundamental que se enraíze a ideia de que um plano de recuperação deve ser não só de um espólio material, mas também de memória.

[Dias 17 e 18 de Fevereiro próximos, às 21h00, o disco será apresentado no Centro Cultural de Belém, a anteceder a também apresentação da oratória «Morte d’Abel», de Pedro António Avondano. A oratória foi escrita, provavelmente, na década de 1770 para ser apresentada na “Assembleia das Nações Estrangeiras”, o clube dos estrangeiros fundado pelo próprio Avondano no qual foram promovidos os primeiros concertos públicos na cidade de Lisboa. Aqui, surge numa edição crítica baseada na única cópia manuscrita conhecida, conservada na Biblioteca Estatal de Berlim/Património Cultural Prussiano.]

~ por pedroteixeiraneves em Fevereiro 2, 2012.

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