bénédict houart – uma entrevista

Bénédicte Houart, filha de pai belga e mãe portuguesa, nasceu em Braine-le-Conte, uma pequena cidade nos arredores de Bruxelas, em 1968. Em 1975 veio para Portugal. Estreou-se em livro com «Reconhecimento» (2005), seguido de Vida: Variações (2008) e Aluimentos (2009), todos pela editora Cotovia. Recentemente editou «Vida: Variações II» (2011). Sobre o seu livro, sobre a sua poesia, sobre o estar à vida estando à poesia, a conversa que com ela tive.

TXT Pedro Teixeira Neves

Quando quero morrer pinto
as unhas de verniz
azul turquesa
made in china

não há nada de metafísico nisto,
pois não
pois sim

graças a deus, a acetona
adia a questão para
outro dia.

in «Vida: Variações II», Cotovia 2011

É-lhe difícil falar de poesia?
Para mim, é difícil falar… Melhor, não é difícil falar de poesia em geral. Eu aliás tive de o fazer muitas vezes por razões profissionais, porque fui docente de estética uma série de anos na Faculdade de Letras do Porto, e enquanto docente de Estética falei de poesia, falei de artes plásticas, falei de cinema, falei de música, etc. Difícil é falar sobre aquilo que escrevo, não tanto eventualmente falar do modo como escrevo, do próprio acto de escrever, mas é mais difícil falar sobre os sentidos que se podem extrair das coisas que eu escrevo.

Perguntava porque me pareceu algo apreensiva… Talvez porque quando se trata de um romance é mais fácil perguntar qual é a sua trama, referir a sua história… Será por aí?
É engraçada essa questão. De facto, é verdade, relativamente a um romance pergunta-se logo qual é a história, quer-se logo saber do que trata o enredo, quais os protagonistas, se há uma trama narrativa… e provavelmente do ponto de vista de quem escreve será mais fácil talvez definir isso. Eu tive uma experiência bastante semelhante a essa. Há alguns anos escrevei uma peça de teatro, em 1998, creio, que foi encenada em Coimbra, no Teatro Académico Gil Vicente, por um grupo de amigos meus actores e actrizes, e realmente, na altura, tive de dar uma entrevista para uma estação de rádio e dei por mim a fazer esse tipo de discurso: é um texto sobre isto, acontece aquilo… e de repente percebi que estava a anular o meu texto, a destruí-lo, e então passei a falar de outras coisas que me pareciam mais importantes e neste caso seria também um bocado isso…

Que significado tem para si escrever poesia?
Para mim, o trabalho de poesia é sobretudo um trabalho… é um trabalho formal. É uma espécie de trabalho de configuração de mundos, não é?… Portanto, é um trabalho que ocorre sobretudo ao nível da língua. Neste caso, será da língua portuguesa, visto que eu em geral escrevo em português. E não se trata tanto de saber o sentido daquilo que é dito como a forma como isso é dito – isso é o que me parece muito mais interessante.

Trabalha muito os seus poemas? Pergunto-lhe porque se fica com a sensação de que é tudo muito mecânico e imediato.
Há diversos processos, mas posso dizer que genericamente os textos são muito mais trabalhados do que aquilo que parece. Até a mim. Ou seja, quando eu volto a ler os meus textos, a sensação que tenho é que aquilo foi de facto uma espécie de jorro criativo, não é?, em que o criador quase é uma espécie de… recebe as palavras por inspiração, não é?, as frases e o poema surgem tal e qual. Não é assim. Não é assim comigo e posso dizer que não é assim com a maior parte das pessoas que escrevem poesia.

Isso acontece apenas quando se trata de poesia?
Sobretudo quando se trata de poesia. Porquê? Porque em poesia, tendo em conta as próprias características formais dos textos, que são uma mancha de uma determinada dimensão na página, não é?, são os versos, etc., portanto, só ocupam um pedaço bastante pequeno da página, qualquer elemento que esteja nessa mancha gráfica, por exemplo, eu poderia dizer uma vírgula, é objecto de horas de reflexão e decisão. Ou seja, será que esta vírgula faz sentido aqui, será que devo cortar aqui o verso e continuar na linha abaixo, será que faz sentido deixar um espaço branco, mais ou menos maior, entre os versos, ou escrever o poema continuamente, linha a linha, etc.? Portanto, estas questões, que têm a ver de facto com a forma do texto, podem, a posteriori, dar a sensação ao leitor de que, de facto, o poema surgiu tal e qual como está organizado, mas não. A questão da organização do texto é demorada, exige muito trabalho, muita paciência, muito tempo e há muitas hesitações. A pessoa hesita e às tantas pensa, não… este texto ou outro, às vezes acontece, este texto eu não consigo dar-lhe a forma que o próprio texto exige. E portanto não lhe toco mais, não publico, guardo, pode ser que daqui a uns anos, ou pode ser que nunca e não guardo mesmo esse texto.

Fala-me da palavra em termos formais, do seu desenho e organização no branco da página, mas o título do seu livro, «Variações», também remete para a estética num outro sentido, o do som e da musicalidade. A escolha do título, de resto, não será fortuita…
Não é de facto, mas eu permitir-me-ia fazer uma ressalva. Não é fortuita mas também não é assim tão premeditada. E eu posso dizer muito simplesmente que dos livros de poesia que eu publiquei até hoje o título que mais me agradou foi precisamente este, «Vida: Variações», precisamente por poder ser objecto de múltiplas interpretações. E portanto não é um titulo que, na minha opinião, obrigue o leitor a ler os poemas de um determinado modo. Isso acontece muito com os títulos. Acontece mais talvez com os títulos dos romances. Se eu dou a um romance, por exemplo, o título, ocorre-me agora, «O Dia da Felicidade», do Erri di Luca, que eu li há pouco tempo, é óbvio que o próprio título, de alguma forma, pode parecer ao leitor uma espécie de síntese daquilo que depois aparece escrito. Isso acontece muito com os livros de poesia. É extremamente difícil no meu entender, para mim em todo o caso é, encontrar um bom título para um livro de poesia. Há muitos autores que utilizam o título de um dos poemas para título do livro todo.

Não é também difícil porque a sua poesia se faz muito de acasos e circunstâncias, ou seja, não é programada à nascença como um todo?
Exacto, não é programada como um todo, não. De tal forma que este livro resulta de um conjunto de textos alguns dos quais existem há dez anos ou mais, outros são mais recentes. O que eu fiz, no fundo, foi considerar um conjunto de textos muito mais vasto, 150 ou 170, e encontrar uma organização em que, no fundo, é banal dizê-lo, mas é verdade, não houvesse demasiadas redundâncias. E que em termos de ritmo, por exemplo, a um texto mais curto se seguisse um texto mais comprido e depois outra vez um mais curto – porque eu tenho textos muito curtos, só de três ou quatro versos e tenho personagens dos meus … – penso um bocado os meus textos como pequenas histórias – e há personagens que são recorrentes. De facto neste livro há personagens que já apareceram noutros livros anteriores, mas tentei que não houvesse dois textos com as mesma personagem, embora, é verdade, isso aconteça num caso, com a Penélope.

Não vejo que daí venha mal ao mundo, ou ao poema. Para um poeta, que bebe todos os dias a vida à sua volta, cruzando-se múltiplas vezes com diversas personagens, é normal até que isso aconteça…
Naturalmente, o poeta cruza-se consigo próprio, entre aspas, no sentido em que se cruza com os textos que já escreveu, e que, como eu disse, podem ter sido escritos há dez anos, há quinze anos, e depois têm de ser retrabalhados, rearrumados, organizados, porque nunca foram preparados para serem publicados. Mas o autor não se cruza apenas com os seus próprios textos, e isso acho que é mais interessante, cruza-se com os textos que leu, com os textos de outros poetas, cruza-se também com romancistas… Eu tenho aí num dos textos uma alusão a um romance do Ian McLuhan, que na altura eu estava a ler… É a circunstância! O Goethe dizia que o poema é a circunstância. É, é… tem uma dimensão circunstancial muito forte e depois tem uma aspiração à universalidade, não é?, e aí estará eventualmente o talento do poeta, se ele tiver esse talento – não há muitos que tenham –, mas se eu tiver o talento de fazer com que essa dimensão circunstancial ascenda a esse nível mais universal, aí, então, eventualmente, pode escrever um poema muito bom. Mas isso… isso é raro.

A sua poesia é muito quotidiana… Quer falar um pouco sobre o modo como vai ao encontro dos poemas?
Sim, há muitas alusões nos meus textos a cafés, a frases ouvidas nas ruas… Algumas foram efectivamente ouvidas nessas circunstâncias, outras não, são inventadas, entre aspas, não é? Mas isso, essa distinção é irrelevante… Mas de facto eu preciso de… eu preciso de me deslocar, preciso eu própria de me deslocar, para captar impressões, paisagens, pequenos pormenores, frases ditas, frases imaginadas também… Às vezes nós vamos na rua, passamos pelas pessoas, ouvimos metade de uma frase, não ouvimos tudo, estamos a ouvir uma conversa, continuamos a andar, depois ouvimos mais um pedacinho de uma frase, e todos esses fragmentos podem efectivamente, como uma espécie de mosaico, podem ser depois organizados e então dão de facto resultado a uma mancha, uma mancha gráfica no papel.

E quanto de si podemos descobrir nestes poemas? Escrever poesia é uma entrega íntima?
Se eu me desse, eu, tal como eu sou ou julgo que sou, provavelmente aquilo que escrevo não teria interesse para os outros. Portanto, esse eu… esse eu… A expectativa que eu tenho é que cada leitor se possa reconhecer nesse eu, que é o eu da enunciação, eu digo, eu faço, etc. Toda a gente pode assumir este eu, que é um eu deíctico, não é? É como: eu aqui e agora, etc. Qualquer pessoa pode dizer isso. Portanto, a minha expectativa é que o leitor possa reconhecer-se nesse eu que diz alguma coisa, que faz alguma coisa, que pensa alguma coisa, ou que sente alguma coisa.

~ por pedroteixeiraneves em Fevereiro 2, 2012.

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