«a chegada de twainy», uma entrevista a hélia correia

«A Chegada de Twainy»

Uma pequena fada, sozinha, abandonada. Que não se importa, que começa por afirmar: «Ninguém há de arrancar-me um ai». Ninguém, na verdade, o fará. Mas em menos de um ai a vida de Twainy muda. Perdida do seu povo, da Gente Pequena que partiu em busca de uma vida melhor, num local onde pudesse respirar, onde não houvesse poluição, Twainy vê-se subitamente perante um coelho branco ameaçador que insiste em poder vê-la enquanto apetitosa cenoura. Um perigo! Um perigo da qual a salva um falcão numa viagem até Oxford. Aí, Twainy, perigosamente a atravessar uma fase de Pinóquio, conhece uma espécie de fada madrinha, Clarice. Apaixonada, em vias de se casar, Clarice não pode ficar com Twainy. Contudo, arranja maneira de por interposta amiga a fazer chegar a Portugal. Em Janas, Sintra, Twainy prepara-se para uma vida nova. Hélia Correia escreveu, Rachel Caiano ilustrou, está já nas livrarias «A Chegada de Twainy». Uma conversa com a autora de «Lilias Fraser» ou «Adoecer».

TXT e Foto Pedro Teixeira Neves

Como nasceu a Twainy?
A Twainy existiu primeiro como nome, porque um priminho meu, um dos meus meninos – tenho muitos meninos, muitos amiguinhos –, muito pequenino, a primeira vez que veio ver-me, achou que eu era tia, e chamou-me Twainy, que era o nome que ele dava às tias. E eu achei que o nome era muito bonito e fiquei com o nome. Não só a Twainy dele, como pensei: este nome é muito bonito, este nome vai existir de qualquer modo. Depois, numa loja que eu frequento muito e que também tem assim muitas coisas invulgares, encontrei uma bonequinha com asas de tule. Esta bonequinha, com um aspecto muito, enfim, antifeérico, quando a vi pensei, olha aquela é a Twainy.

Materializava-se assim, de algum modo, a personagem, a que faltava doravante conceder enredo… Mediou muito tempo entre esse momento e o início da escrita do livro?
Não sei dizer. Eu não tenho noção nenhuma de tempo… Mas pensei, depois de encontrar a Twainy, pensei: a Twainy vai estar num texto, vai estar num texto… Porque eu prometo sempre aos meninos que farei isto e aquilo, que vou escrever, mas nunca mais faço… Passo a vida a fazer-lhes textos orais, porque andamos sempre metidos num grande texto de fantasia, eu com eles, mas tinha essa intenção de alguma vez passar à escrita a história da Twainy. Portanto, quando ela começou a existir, de certo modo, o texto começou a gerar-se também. Mas de uma forma absolutamente inesperada, porque eu não sabia nada sobre o que seria a história, que ideia seria, pelo que foi assim, inesperadamente. E, claro, por circunstâncias da minha vida, porque eu estive uns dias em Oxford – sem nada para fazer, que é uma coisa extraordinária – e o primeiro livro acabou por ser a história da vida anterior da Twainy até chegar, enfim, aqui, aos meus territórios, a Janas.

De facto, o título parece indicar um momento a partir do qual o enredo se desenvolverá, mas acaba por ser um momento de chegada, um final de aventura.
Exacto, foi totalmente imprevisto. Eu não tinha nada o desígnio de escrever isto. E de escrever assim também. Porque acho que a escrita está razoavelmente elaborada, isto é, pelo menos eu não tive a preocupação do destinatário, de facilitar ou de fazer frases curtas, de aligeirar o vocabulário, nada disso. Portanto, a escrita ganhou aquele corpo porque ela própria o determinou assim.

E o título, surgiu-lhe antes ou depois da história?
Eu preciso de títulos, preciso muito de títulos. Portanto, quando eu percebi que ia ser a viagem da Twainy, o périplo, quase uma iniciação, até vir para aqui, dei-lhe logo o título, «A Chegada de Twainy».

Há também algo que não é comum nos seus livros, diversas pontes para a realidade…
Sim, é curioso, porque há mais referentes reais neste livro, de fadas, do que praticamente em todos os meus livros, excepto o «Adoecer», que tem referentes reais, como é evidente, porque é feito sobre pessoas que existiram realmente. Mas, sim, este livro está cheio de realidade, de coisas realmente existentes.

Trata-se também de uma homenagem a Lewis Carroll…
Justamente. A Alice e a homenagem ao Lewis Carroll, por exemplo, claro que têm a ver com a minha permanência em Oxford, que é sempre um sítio onde eu vou, onde eu estou com muito prazer. O Christ Church College, onde tudo se passou, tal como a visita ao riozinho onde ele dava passeios de barco com as meninas Liddell e começava a contar as suas histórias. Oxford é um sitio de romagem que faz parte da minha vida e naturalmente incorporou-se naqueles episódios que, volto a dizer, não foram premeditados por mim. As coisas nunca são premeditadas. Mas neste caso, então, fui apanhada de surpresa absoluta porque não estava nada a pensar que ia escrever sobre Oxford, inclusivamente sobre lugares históricos de Oxford, como o Ballymahon Park. E tudo aquilo que por lá me aconteceu passou a acontecer à Twainy.

Estou errado se dizer que na Twainy há muito de si?
Talvez não. Dizem que tem bastante de mim… Outra pessoa perguntou-me se eu era a fada Clarice. Eu disse que não. A fada Clarice também existe, existe absolutamente, mas não sei se tem aquela história, embora tenha uma história muito parecida; na verdade, trabalha em Oxford e é a minha fada de Oxford. Foi ela que me levou pela primeira vez ao Christ Chruch College, andámos lá à procura da Alice as duas. Ela existe absolutamente como pessoa, mas não como personagem, e não tem nada a ver comigo, porque é uma doçura de pessoa e tem um comportamento muito sensato. A maior parte das pessoas identifica-me muito com a Twainy e é verdade. Até já é quase uma gracinha entre amigos quando eu… faço uma traquinice qualquer, digo eu digo assim uma coisa das minhas… As pessoas dizem: lá está a Twainy. E, realmente, se há aqui personagem que se identifique comigo é ela. Nos defeitos! Também ela poucas qualidades mostrou ainda, nem sei se vai mostrar! Ela, enfim… a história começa a acontecer porque ela é muito distraída, bastante irresponsável, muito perguntadora e algum tanto impaciente.

Mas queixa-se de que foi vítima de uma maldade, que o seu povo, a Gente Pequena, é que lhe pregou uma partida e deixou-a para trás.
Mas não foi. Não foi, ela é que realmente foi imprudente. E eu sou muito, muito imprudente, aí não há nada em comum, porque eu não me queixo de maldade nenhuma, a mim só me fizeram coisas boas. É essa a diferença em relação à Twainy.

No livro há uma fada, Clarice, que se transforma deliberadamente num ser humano. De si não seria antes de esperar o contrário?
Mas não fui eu que quis assim, não é decisão minha. Uma vez mais, foi a realidade a impor a história. E o que aconteceu realmente é que o período durante o qual estive em Oxford foi proporcionado por ela, pela minha fada. Que não tem exactamente esse nome, mas tem um nome muito parecido, e os outros nomes, então, correspondem todos a personagens reais, nomes que nem sequer têm transformação nenhuma. Portanto, essas férias foram proporcionadas por ela, que até nem estava em Oxford durante esses dias! E aconteceu que no último dia em que eu lá estava nos cruzámos, uma vez mais inesperadamente, sem o termos previsto, e ela vinha muito iluminada porque tinha justamente acabado de ficar noiva e eu fui a primeira pessoa a quem ela mostrou o anel. Daí que ela esteja, na história, a transformar-se em humano, para se casar.

Uma vez mais, foi a Hélia e a Twainy a tropeçarem na realidade…
Pois. Se ela, que era a minha fada de Oxford, tinha acabado de ficar noiva a história só podia seguir nessa direcção.

Uma vez que este primeiro volume de aventuras da Twainy termina com a chegada a Janas, podemos presumir que o próximo volume estará em andamento, dando conta da nova vida de Twainy, agora em Portugal?
Não sei. Eu tenho muitos meninos zangados comigo, porque comecei a fazer uma série sobre um feiticeiro, um adivinho grego, o Mopsos, e os meninos vão crescendo, à espera do terceiro… E estão muito zangados comigo, já não acreditam em promessas, chamam-me mentirosa, chamam-me preguiçosa, com toda a razão, porque nunca mais eu faço o terceiro Mopsos. E eu tenho muito medo de prometer e depois andar a falhar. Inclusivamente tenho amiguinhos, agora já cresciditos, que ficaram muito zangados com o aparecimento da Twainy, eu ofereci-lhes a Twainy e eles ficaram furiosos, porque… nem vão ler! Nem vão ler porque querem Mopsos e eu não faço o terceiro Mopsos. De modo que eu tenho muito medo de prometer mais Twainy. Em princípio, como eu nem sequer tinha previsto fazer este primeiro livro sobre a vida anterior da Twainy, tinha pensado começar a olhar para ela já aqui, em princípio pelo menos o livro dela aqui aparecerá. E depois depende muito do que ela quiser e da realidade dela.

Escreve para si, antes do mais, ou com destinatários em mente?
Na escrita para adultos não há leitor, não há destinatário, não há figura nenhuma que seja, digamos, o terceiro elemento em relação à escrita e a mim. É por isso, aliás, que eu deixei de traduzir, porque aí havia um terceiro elemento, que era o autor, que me estava vigiando por cima do ombro, e me desesperava completamente. Eu não aguentava aquela presença, a vigiar-me, a vigiar-me, eu não aguentava aquela presença. Em relação aos meninos, no caso do Mopsos, houve um destinatário muito concreto, um sobrinho meu – que, aliás, é a quem eu dedico o primeiro volume –, que desde pequenino fazia muitas perguntas sobre a Grécia, e eu pensei justamente, quando ele fez oito anos, escrever livros sobre a mitologia grega com muita fidelidade à mitologia. Falhei completamente, porque ele não leu, com oito anos, os meninos do ensino básico não conseguem ler, e quem leu e quem se tornou fã foram os meninos digamos a partir dos 13, 14 anos. Quanto à Twainy, ela tem um destinatário que são os meus amiguinhos, como eu lhes chamo, que eu tenho a felicidade de ter na minha vida, e com quem ando sempre a passar para o mundo feérico. Enfim, não temos nunca dificuldades em fazer essa passagem…

~ por pedroteixeiraneves em Fevereiro 3, 2012.

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