a propósito de Borges reeditado – uma entrevista a Ângela Fernandes

Borges
Uma literatura que não se perde nem pode perder-se

A Quetzal acaba de dar início à publicação das obras completas de Jorge Luís Borges. Para já, dois títulos chegam ao mercado: «História da Eternidade», reunião de textos ensaísticos, e «O Livro de Areia», livro de contos que abre com o conhecido texto em que Borges encena um encontro consigo mesmo enquanto jovem. Sobre Borges, sobre estes dois livros, sobre esta reedição, conversei com Ângela Fernandes, professora de Teoria da Literatura e Literatura Espanhola da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

TXT Pedro Teixeira Neves

Como é que chega a Borges?
Na verdade, as primeiras leituras de Borges, e nomeadamente das «Ficções», vieram na sequência de sugestões da minha professora de Teoria da Literatura, no último ano da minha licenciatura. E, eu diria, foi a dimensão reflexiva e teorética que a obra de Borges tem, que foi o primeiro passo, ou constituiu para mim o modo de chegar ao autor.

Tem presente o primeiro impacto dessas leituras?
Aquilo que eu senti nessas leituras, que não foram portanto adolescentes, foi que o que há de surpreendente na obra de Borges está muito para além de uma primeira impressão ou primeira leitura. Os textos são em geral muito surpreendentes, desconcertantes mesmo, porque misturam aquilo que mais convencionalmente conhecemos como o fantástico, com a exibição de uma erudição, de um conjunto de referências a outros autores, que muitas vezes desconhecemos, mas como estão misturados com alguns que conhecemos, tomamos logo como certos, e muitas vezes são inventados… E portanto essa mistura, do fantástico, do desconcertante, do inusitado, com a erudição e a referência a um mundo de livros e a um mundo de referências, é verdadeiramente impressionante e sugestivo.

Nesse modus operandis de Borges a noção de jogo e de lúdico está muito presente, concorda?
Há claramente uma intenção de reflectir sobre o que é a literatura e o que é a leitura. Percebe-se muito claramente que aqueles textos são, ou estão construídos para que o jogo com o leitor o obrigue a reflectir sobre o seu próprio processo de descodificar, de interpretar, de dar sentido, de decidir se aceita ou não entrar nesse jogo.

Com um dado extra, ele próprio se joga na sua escrita enquanto personagem de si mesmo.
Sim. Eu penso que a presença do autor, de uma figura autoral, que vem aliás na linha da tradição do grande romance, desde «D. Quixote», aliás, esta presença do autor na sua obra, ou de uma figura autoral, é principalmente um alerta para a importância do ponto de vista na construção artística. A presença de uma perspectiva que em rigor é aquilo que constrói a verdade daquela narrativa e daquele texto naquele momento. Ou seja, a presença de Borges-autor não é propriamente a presença de Borges-pessoa. É a presença de uma figura que, quase sempre dita na primeira pessoa, quase sempre a falar como um eu, ali se apresenta como o responsável naquele momento, naquele contexto, como o responsável por aquilo que se apresenta, mostrando como todas as construções são tão precárias e tão efémeras quanto aquilo que a presença de um autor admite, de um autor que é uma pessoa, como será o seu leitor.

Isso leva-nos a dois outros tópicos marcantes da sua literatura, o tempo e o conceito de duplo. De resto, como bem o vinca o primeiro e notável conto de «O Livro de Areia».
Exactamente. Estes textos, na maior parte dos casos, misturam cenários fantásticos, jogos inverosímeis com o futuro, com o passado, misturam isso, essa narrativa fantástica com o esboço do ensaio ou do discurso ensaístico. Ou seja, a reflexão sobre… o discurso do conhecimento, uma reflexão sobre os problemas mais fundadores e essenciais da natureza humana. E é aí que as narrativas chegam a essas questões como a vivência do tempo, a construção de uma identidade, de uma identidade face aos outros, dos processos de conhecimento, dos processos de rememoração, da memória. Todas estas questões fundadoras, que são tanto pessoais ou individuais como sociais, também outra das questões que também aparece muito – e aqui, por exemplo, no conto «O Congresso» também encontramos –, são questões políticas, modelos de organização de mundo, modelos de conhecimento do universo e das sociedades humanas. Portanto, todas estas questões, todos esses problemas, como digo, são típicos do discurso do conhecimento, são típicos dos ensaios, sejam históricos, historiográficos, sejam filosóficos, sejam filológicos, quando se está a falar de arte. Portanto, todas essas questões maiores e essenciais aqui confluem num discurso que não pretende ser o discurso do conhecimento, mas é apenas o discurso sobre a arte, mostrando como a arte, e em concreto a literatura, é o lugar privilegiado para mostrar melhor, para representar melhor esses problemas, essas questões essenciais do humano, e ao mesmo tempo para mostrar os limites de qualquer discurso – também os outros e não apenas os literários.

Nesse jogo meta-literário haveria também alguma pretensão de Borges escritor em ombrear com os seus pares, os grandes escritores que cita e glosa?
Eu diria que todo o autor num momento em que se apresenta tem essas veleidades, ou tem esses objectivos, estar à altura dos seus mestres, à altura da tradição em que pretende entroncar. E nesse sentido a figura de Borges é também uma figura construída, como a de todos os grande autores. Imagino que não é muito diferente daquilo que os grandes autores sempre fizeram. Agora, estamos em meados do século XX, estamos num momento de muito profunda reflexão sobre a autoria, sobre a autoridade e sobre a presença, ou melhor, a permanência e o perdurar do discurso artístico e do discurso literário, e Borges parece ser muito ciente disso.

Para início da reedição das obras completas a Quetzal escolheu um ensaio, «O Livro da Eternidade», e um livro de contos. Para si, há um Borges superior nalgum género?
Não creio. Eu acho que as perspectivas se confundem. Aliás, esta «História da Eternidade», este livro de ensaios, desde logo pelo título lança a ambiguidade, lança a perspectiva artística sobre o procedimento ensaístico, e mostra como não é verdadeiramente uma história da eternidade, ou seja, não é uma sequência linear sobre a ideia da temporalidade, porque isso é um paradoxo desde logo. É antes um olhar sobre modelos diferentes de entender essa eternidade, ou seja, sobre conceitos de eternidade. Este livro, de 1935, portanto, próximo, contemporâneo das «Ficções», que vão ser publicadas algum tempo depois, e contemporâneo do «Aleph», mostra, da mesma maneira que as narrativas ficcionais, como o escrito sobre problemas, sobre um assunto, neste caso sobre a eternidade, é uma escrita sobre aquilo em que se fundam os problemas humanos mais comuns e mais banais. De resto, a apresentação num tom que é mais ensaístico, porque no fim há uma resenha, há uma lista de bibliografia, e porque há muitos autores citados, é um gesto análogo àquele que encontramos nas narrativas que na mesma época se faziam.

«O Livro de Areia», qual a sua importância?
«O Livro de Areia» é de 1975, portanto, é um volume publicado quarenta anos depois da «História da Eternidade», trinta e muitos depois dos outros volumes de contos de que já falámos. Porém, o que encontramos n’«O Livro de Areia» são os mesmos temas, os mesmos motivos que sempre o interessaram. Eu diria que talvez o conto que abre o volume é aquele em que, de uma maneira mais explícita, a presença de um autor envelhecido, ou de um autor de longa obra se faz sentir mais e talvez isso não estivesse tão presente nos textos dos anos 40, ou nos contos dos anos 40. Mas os motivos vêm a ser os mesmos: a identidade, a memória, o modo de conhecer, o modo de construir imagens do Universo, de entender a construção do Universo… É também um grande livro.

Ao longo das décadas a linguagem do Borges evoluiu de algum modo?
Não diria. Eu encontro uma coerência nestes 40 anos… ou seja, não encontro grandes diferenças ao nível da expressão, do discurso ou sequer dos motivos. Há uma grande coerência nesta obra. Haverá evolução, mas haverá principalmente, eu diria, uma reescrita, não porque reescreva os próprios textos em termos concretos, mas porque volta às mesmas questões e o modo de as escrever, de as colocar. Discursivamente não me parece que evolua, que se transforme radicalmente.

De que modo Borges influenciou a literatura sul-americana?
Borges influenciou muito diria a literatura ocidental da segunda metade do século. Borges traz uma consciência daquilo que são as linhas maiores da grande literatura da segunda metade do século XX. Que é a consciência de si, a consciência do acto, do gesto criativo. Saber se há um antes e depois dele é algo muito difícil de dizer, sabemos que foi muito lido, muito comentado, é um autor que agradou muito a críticos e a teóricos, porque apresenta a literatura na sua dimensão metaficiconal, que tanto agradou a títulos e teóricos do século XX. É a presença de uma literatura profundamente conceptual que gere de uma maneira muito consciente assuntos e procedimentos e, portanto, é verdadeiramente propiciadora de novos discursos, de discursos obre a literatura. Porque é inquietante, é desconcertante. Estes textos nunca deixam as pessoas tranquilas, não é?… Nunca ficam os leitores apaziguados perante os contos, ou os ensaios, ou quer os poemas de Borges. E porque não ficam apaziguados, são obrigados a reflectir sobre si próprios enquanto leitores, enquanto o outro pólo da comunicação literária, da relação literária… Nessa medida, esta literatura não se perde, nem se pode perder.

Porque lhe parece importante uma reedição, sendo que não há muito tempo a Teorema também o fez?
A recepção de Borges em Portugal é uma história feliz, de muita tradução ou razoável número de traduções. Isto porque, ao contrário de outros autores de língua espanhola contemporâneos, e sobretudo sul-americanos, Borges começou a ser traduzido pelos anos 60. O que se prende também, penso, ou vem na sequência da presença europeia do Borges, que começa justamente no princípio dos anos 60. Depois temos, nos anos 80, várias traduções e várias edições, de editoras diferentes, e em 1998/99, temos a tradução das obras completas, dos quatro grandes volumes publicados pela Teorema, que referiu. Aquilo que esses volumes não têm, e que estes agora publicados têm, é este carácter portátil, portanto esta proximidade dos leitores muito mais óbvia e concreta aos textos e aos livros. Ao mesmo tempo, este novo formato de bolso permite uma leitura mais descontraída, que talvez permita dessacralizar ou inverter uma certa solenidade que o autor parece ter.

~ por pedroteixeiraneves em Fevereiro 15, 2012.

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