apostas propostas – fernando de azevedo e os outros – na snba

FERNANDO DE AZEVEDO revisitado
Uma entrevista com Cristina Azevedo Tavares

De homenagem se trata. De lembrar o artista mas também o homem (grande) nas suas múltiplas dimensões. Como proposta, duas exposições agora patentes na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. «Um Texto, Uma Obra» reúne 91 obras da autoria de 91 artistas, entre pintores, escultores, gravadores, fotógrafos, ceramistas e tapeceiros. A cada uma destas obras corresponde um texto de apresentação escrito por Fernando de Azevedo, entre 1953 e 2001, como prefácio ao catálogo de uma exposição individual de cada um destes artistas. O comissariado é de José Augusto França, Rui Mário Gonçalves e Cristina Azevedo Tavares. Ali ao lado, «Fernando de Azevedo e os Outros», uma exposição comissariada por Cristina Azevedo Tavares e António Viana, onde se apresenta um núcleo de obras raramente vistas ou inéditas do pintor, bem como alguns documentos de amplo interesse. Expoente do surrealismo e co-fundador do movimento surrealista em Portugal, Fernando de Azevedo (1923-2002) desenvolveu uma actividade extensa no âmbito da crítica de arte ao longo da sua vida, contribuindo para a valorização dos artistas e da arte contemporânea em Portugal a partir dos anos 40 e até ao final da sua vida. Sem temer o vanguardismo, o artista, crítico e curador dedicou-se à arte e aos artistas a tempo inteiro, algo que estas exposições bem revelam e vincam. Segue a conversa com a curadora e também filha de Fernando de Azevedo, Cristina Azevedo Tavares.

TXT Pedro Teixeira Neves

De que desejo nasceram estas exposições?
Estas exposições nasceram muito do desejo dos amigos de Fernando Azevedo de verem o modo como no seu legado se manifesta, digamos, a relação entre o texto escrito e a obra, fosse pintura, escultura ou outra área qualquer. Ou seja, perceber como essa relação intrínseca entre o texto e a obra plástica era nele uma constante. Ao longos dos anos, desde que ele faleceu, houve vários amigos que expressaram muito essa ideia que agora se formaliza nestas exposições, «Um Texto e Uma obra» e «Fernando de Azevedo e os Outros». Trata-se portanto de uma homenagem e de uma evocação – quem se lembrou disso, aliás, foi uma pessoa que já não está entre nós, o pintor José António Flores. Daí, de resto, a opção que eu e o António Viana tomámos de reunir aqui coisas mais íntimas do Fernando Azevedo.

Portanto, trata-se também de dar a conhecer Fernando de Azevedo através do olhar dos outros, ou pelos outros?
Sim. Esta é, realmente, uma evocação do Fernando de Azevedo com os outros, com os seus amigos, com os seus colegas de trabalho, com as pessoas com quem ele se foi cruzando na vida, com a família. Mas interessou-nos, sobretudo, revelar também essa grande ligação com a sociedade que ele tinha.

Mas a dimensão pessoal está aqui muito vincada…
Porque, de facto, a obra do Fernando de Azevedo tem uma dimensão muito pessoal. Através dos desenhos, das colagens, procurou-se fazer algo extenso em termos cronológicos, que começasse com as primeiras obras dele, do período surrealista, e que depois viesse até aos nossos dias, até ao final da vida, dois mil e pouco… Grande parte destas obras, digamos, são obras que estavam guardadas, que não são conhecidas do público, embora haja uma ou outra que já foi mostrada. A esse núcleo, juntou-se a pintura do museu de Amarante, porque realmente é um prémio de pintura e foi a última obra que ele realizou enquanto pintor.

«Fernando de Azevedo e os Outros» tem também um cariz documental, nomeadamente revelando o crítico incansável e divulgador que ele foi!
Sim, há aqui muitos textos dele, em mesas, que são originais manuscritos. O meu pai não sabia escrever à máquina nem tal coisa lhe passava pela cabeça, a relação dele com as máquinas, desde que não fosse máquina fotográfica, era muito difícil. Ele escrevia tudo à mão, muitas vezes passava-os a limpo. Creio que a maior parte dos que aqui estão eram as primeiras versões, portanto, não passadas a limpo. São sobre um conjunto de artistas que vão desde o António Pedro ao Malangatana, o André Gomes, pelo Artur José, o José Aurélio, uma série de gente. São textos interessantes porque revelam também as suas hesitações, com palavras riscadas, os remates, as correções. Ele escrevia muito, aos fins-de-semana, pela noite dentro, era um trabalho exaustivo e não havia semana que não tivesse textos para escrever. E daí talvez parte da responsabilidade pelo seu desvio do seu trabalho enquanto pintor, um desvio para a colagem, por exemplo, porque era um trabalho mais lúdico, que podia ir juntando as peças e depois concretizar. Escrever para ele era uma preocupação enorme, era uma actividade muito intensa.

E há ainda as outras facetas, eventualmente menos conhecidas…
… que também aqui estão e daí as vitrinas com desenhos de circunstância, esbocetos, tal como a sua faceta de designer gráfico ou de autor de desenhos de figurinos para ópera. Procurámos, sobretudo, dar uma dimensão de uma coisa que ele fazia muito, que era justamente o pequeno desenho, quando estava a ver televisão, o pequeno esboço ou esboceto, quando via uma paisagem – algo que dá, digamos, a dimensão da sua relação com a Natureza, com os outros, com os pontos de interesse que eram importantes para ele.

Eram dimensões que, apesar de lhe serem menos conhecidas, ele trabalhava muito?
Sem dúvida. O meu pai sempre teve um vasto currículo e múltiplas áreas de interesse, que nunca abandonou. Nomeadamente, a parte do designer gráfico, que ele foi muito, do curador, do projectista de exposição, da relação dele com o teatro, com o figurino da ópera, enfim, toda essa vasta gama de trabalho. Isto porque, como todos sabemos, quando eles, estes artistas, começaram a trabalhar, nos anos 40, eles procuravam sobretudo trabalho na área das artes gráficas, porque como pintores não havia mercado para aquilo que faziam. Evidentemente, as artes plásticas e a pintura sempre o acompanharam, e é claro que na Fundação Gulbenkian e depois aqui, na SNBA, ele foi sempre tendo a oportunidade de estar sempre muito relacionado com a montagem e projectos de exposições.

Quer concretizar um pouco que fotografias são estas que aqui encontramos?
São fotografias que os amigos trouxeram e outras que nós, a família, trouxemos e que mostram precisamente essa relação dele com os outros.

Há também outras com assinatura reconhecida…
Sim, as do Fernando Lemos. Uma, do meu pai, outra da Casa Jalco, que fazia parte do catálogo da exposição, justamente lá, em 1952, que ele realizou com o Fernando Lemos e com o Marcelino Vespeira. Podemos também ver e ler um poema do Fernando Lemos, que eu também tinha, manuscrito e que ele tinha dedicado ao meu pai em 52, que é um poema que mostra muito a vitalidade e o espírito crítico do Fernando Lemos. Há ainda uma serigrafa do Robn Fior, de cariz meio pop, que mostra o Nikias Skapinakis com o meu pai.

Ser surrealista, para além de uma corrente artística, era em Fernando de Azevedo, e nos nossos surrealistas, um modo de estar à vida, uma atitude?
Se perguntarmos isso a todos os surrealistas eles dizem de facto que sim. Se passarmos pelo Cesariny, pelo Cruzeiro Seixas… ainda hoje disse mais ou menos isso na rádio. De facto ser surrealista era uma atitude, uma atitude crítica, e talvez isso explique porque razão no seu conjunto os surrealistas não frequentaram as escolas de Belas Artes, embora até tivessem tentado, mas sempre com dificuldade em aceitarem o tipo de ensino que lá se praticava. Por um lado, há essa componente de crítica à tradição e aos valores do ensino dos anos 30 e 40. E era uma atitude também política, porque o catálogo de 49 assumia claramente uma posição contra o regime, e portanto estes artistas, como na generalidade os artistas, mesmo os naturalistas, estavam contra o regime. Era uma tomada de posição que tinha que ver com a dignidade humana. No caso dos surrealistas há efectivamente a ideia da liberdade, que é um valor supremo e que passa pelos processos de automatismo tão caros ao grupo.

E é esse valor que aqui paira sobre todo este trabalho e empenho do Fernando de Azevedo enquanto criador e divulgador da obra dos outros?
Paira como pessoa que ele era, uma pessoa crítica, que surpreendia e que gostava da surpresa e do acaso. E também porque mesmo quando ele faz pintura, com processos plásticos que envolvem a busca de imagens e de situações que têm que ver com o automatismo e nas colagens, o onirismo estava sempre presente. Portanto, o surrealismo é transversal à sua obra, mesmo que eu não possa dizer que o que ele fazia nos anos 90 era surrealista, mas essa atitude, esse domínio do mundo interior e do mundo onírico, tal como essa expressão muito forte da liberdade e da afirmação do homem, isso está sempre presente.

Sociedade Nacional de Belas-Artes
Até 30 de Abril
Segunda-feira a sábado/ das 11 às 19 h

~ por pedroteixeiraneves em Fevereiro 18, 2012.

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