Olhos abertos! O «Público» vira a página

Um plano específico para jornalistas, mais vantajoso em termos de mensalidade, levou-me a dar o salto (tecnológico/ mental) para o Iphone. E, sim, claro, novo brinquedo nas mãos, criança que somos em tais circunstâncias, nas últimas duas semanas tenho-me rendido à pequena maravilha daquele que é um autêntico minicomputador. Vénia, vénia! E como qualquer neófito tenho perdido algumas horas a explorar as muitas aplicações que a loja da Apple nos propõe. Vou ao que me interessa, ferramentas ligadas ao mundo da Imprensa e ao mundo dos livros. Algumas conclusões vou tirando: nos livros, em português de Portugal, pouco ou nada há disponível – em português do Brasil, sim, há alguma oferta, grátis, e tenho para leitura (nas que serão as primeiras tentativas digitais em tal matéria) dois livros cujo download fiz, «D. Casmurro», de Machado de Assis, e «O Guarani», de José Alencar. Vou às editoras, o panorama é ainda básico. A Leya resume-se a um mero enunciado de novidades vendáveis, a Porto Editora fica-se pela oferta de dicionários, da concorrência nem vê-la. No plano dos Media, a paisagem é mais animadora. Vários títulos apresentam propostas interessantes, bem estruturadas e apelativas, as televisões também. Vem isto tudo a que propósito? A propósito do «Público», que hoje inicia nova vida ao remodelar um formato que levava já cinco anos desde a última remodelação, gráfica e de conteúdos. «Público», justamente o jornal que nas duas últimas semanas me habituei a ir consultando on-line, leia-se, no Iphone. Com uma actualização constante, com belo grafismo, ampla cobertura de áreas de interesse, todas elas bem sintetizadas, rendi-me. Contudo, nado e formado (também formatado) na Imprensa de papel, foi com entusiasmo que hoje corri para as bancas a ver o “novo” «Público». Devo dizer que não fiquei com grande impressão. À excepção do formato mais portátil, no miolo quase o mesmo se encontra. Notícias quanto baste, penso que mais triadas, os colunistas de sempre, pouca reportagem de fundo, bastante publicidade (a ver se se mantém o fluxo, pois é sabido que estas edições de relançamento, para mais gratuitas, são sempre chamariz para um universo publicitário cada vez mais renitente em investir) e um grafismo o menos ousado e interessante de todos quantos já conheci ao jornal. Vejamos: é o primeiro número da nova vida, aprimoramentos esperam-se, e há ainda que ver como resultarão os suplementos semanais de fim-de-semana. Quanto a esta edição, que foi dirigida pelo filósofo José Gil, o tema é naturalmente muito interessante: saber (ou questionar) o que não sabemos sobre o país em que vivemos, isto, é, dito filosoficamente, questionar o vazio em que gravitamos – alegremente?… O tema é pertinente, curioso e interessante, e faz algumas perguntas às quais, naturalmente, os políticos instados a comentá-las (que não responder-lhes) obviamente se subtraem olimpicamente, com o habitual golpe de rins político-deixa-andar-diz-qualquer-coisa-que-eles-publicam-na-mesma… Uma crítica: teria sido talvez igualmente muito interessante pesquisar, no mesmo formato de indagação do vazio, o que se passa no mundo da Comunicação Social – justamente o universo no qual o «Público», nesta viragem para o futuro, tenta reposicionar-se. Ora bem, seguindo o molde que o jornal hoje utiliza para outras áreas, como a saúde, a política ou o ensino, coloco algumas questões (sobre o vazio) às quais que seria igualmente interessantíssimo tentar responder, isto no âmbito do universo dos jornais, friso. Assim: Quantas reportagens ficam por fazer porque as administrações/ direcções dos jornais não financiam trabalhos jornalísticos de fundo? Qual o efeito da não vinda a público dessas reportagens? Quantos jornalistas estagiários passam anualmente, ou passaram nos últimos anos, pelas redacções de jornais sem serem pagos? Quantos desses estagiários cumpriram o seu período de estágio e foram depois mandados embora? Quantos jornalistas se encontram deprimidos por terem conhecido o desemprego consecutivamente? Quantos jornalistas se encontram a recibos verdes? Que efeito têm essas situações precárias na busca/ produção de informação? Quantos jornalistas transitaram das redacções para junto das esferas políticas, nomeadamente para gabinetes de comunicação ministeriais? Que efeitos e influências tais rotatividades geram na gestão da notícia? Que relações de proximidade/ amizade se estabelecem entre jornalistas e políticos? Que efeitos perniciosos ou vantagens advêm da eternização em lugares de comentário político? Quantas matérias de investigação foram (são?) sonegadas pelas administrações das empresas de Comunicação Social ao longo dos últimos anos, ou desde o 25 de Abril? Enfim, creio que o vazio que emerge de todas estas questões é suficientemente grande para motivar igualmente alguma filosofia. De minha parte, enquanto o «Público» não investir nestas «grandes» questões, não se ficando, como acontece na edição de hoje, pela sua identificação, temo que venha a perder leitores de papel para leitores de écran, estes ficando-se pela leitura das parangonas do costume, que as televisões da manhã, de resto, logo, logo se encarregam de parasitar, escalpelizando-as como se de sua lavra jornalística, com a agravante de disso se aproveitarem comercialmente. Mal vai o jornalismo que, à imagem de qualquer empresa, se esqueça de que para progredir/ sobreviver há que investir. Caso contrário, ao extremo, e lembrando um conto notável de Alface, em que uma personagem tem a surreal profissão de virador de turistas no Algarve (quando aqueles aqueçam demasiado ao Sol), temo que a leitura de jornais, também ela, qualquer dia, exija do mesmo modo um virador de serviço, e de preferência que acumule a função com aqueloutra de nos manter os olhos abertos!

~ por pedroteixeiraneves em Março 5, 2012.

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