margarida gil – uma entrevista sobre «paixão»

«Paixão», de Margarida Gil

Esse acto tresloucado, que é o acto de criação

Num prédio em ruínas, uma mulher rapta e mantém prisioneiro um ser muito belo. Margarida Gil (n. Covilhã, 1950), realizadora que se estreou em 1989 com «Relação Fiel e Verdadeira», também guionista e professora, regressa às longas-metragens depois de «Adriana» (2004) disposta a mostrar a paixão pelo lado do excesso. É isso que filma em «Paixão», num enredo escrito a meias com Maria Velho da Costa, surpreendendo-nos a meio do caminho quando inverte a relação entre algoz e prisioneiro. Como nos diz: « … normalmente a vítima tem um grande potencial de devir um violador, ou um ser também violento.» De grande plasticidade, visual e sonora, «Paixão» é sobretudo um objecto de reflexão, um objecto artístico cujos méritos maiores radicam na eficácia e simplicidade dos meios narrativos, tecendo o passar do tempo, abrindo espaço para entrarmos nas personagens.

TXT E FOTO PEDRO TEIXEIRA NEVES

Nas actuais circunstâncias sociais, com a Cultura em clara despromoção nas prioridades do Governo, com as estatísticas de consumo cultural em baixa, como vê a chegada ao grande ecrã de um novo filme?

Com muito entusiasmo. Acho que nas alturas de grande perigo é preciso ter a cabeça bastante fria. Acho que o chegar às salas já é muito bom e devo alegrar-me. Mas com muito medo de que as pessoas, que se recolhem ao mínimo sinal de crise, tenham um comportamento reflexo, que é não ir pagar um bilhete, por exemplo. Esse automatismo de ficar em casa porque o tempo está muito mau… porque o país está em crise… E compreensível, claro, eu compreendo muito bem os receios, mas assim como nós temos que resistir, porque é preciso espírito de resistência – para escrever, para filmar, para produzir o que quer que seja –, quando se faz, quando se cria, desde o início temos consciência de que não há dinheiro para isso. Pelo que é sempre um acto de generosidade do criador quando faz qualquer coisa da sua cabeça. A criação, em princípio, pressupõe um acto de liberdade e de generosidade. O filme tem que ser visto, nessa altura acaba o processo, o meu processo de liberdade. Por isso fico contente com o facto de o filme sair em sala e espero que as pessoas também sejam suficientemente generosas e livres para completarem esse acto.

O que me está a dizer é que o cinema é hoje em dia um acto de resistência?
Eu acho que sempre foi, sempre foi. Há muitas maneiras de fazer um processo criativo mas se ele não for um acto de resistência contra algo que já está instalado e que está anquilosado, que está feito, não é um acto criativo. O acto criativo pressupõe um ponto de partida em que se anula o passado, em que se anula aquilo que está para trás. Isso muitas vezes não é deliberado, não é consciente, mas tem de existir, é por isso que é sempre um acto de resistência e tem de ser um acto livre.

Para além liberdade intrínseca ao acto criativo, e que parte do criador, este reserva sempre algum espaço para pensar no destinatário, ou seja, de algum modo actua em função de expectativas de terceiros?
Eu acho que isso está imanente, faz parte do processo, mas quando se faz cinema ou quando se escreve, pinta, eu duvido muito que se pense imediatamente nisso. Mas aceita-se um processo, sem dúvida, que termina com o público que vê, que olha, que lê. Que pode ser um amigo, eu própria, alguém, seja quem for. Não há nenhum realizador que não goste que o seu filme seja muito visto. Se algum disser isso eu não acredito. Pode estar a ser sincero, eu é que não acredito!

Há nisso que me diz um desejo também de partilha?
Não sei se há assim uma consciência. Há uma necessidade de expressão. Acho que é sobretudo isso, uma necessidade de, uma necessidade vital, de filmar, de escrever, de compor, de pintar… senão morre-se.

As coisas só fazem sentido se chegarem ao Outro?
Aí não concordo, acho que não, não acredito nisso. Acho perfeitamente possível não chegar ao Outro e ser na mesma um processo criativo. Pode, eventualmente, dizer-se que não está completo. Mas no caso do cinema, é muito difícil não chegar ao Outro, porque senão nem se sequer se chega a fazer. Tão-só porque é um acto que começa por ser solitário, mas no qual, depois, participa muita gente. Participa uma equipa, é preciso financiamento, é preciso passar por um produtor, há os actores, em princípio costuma ser assim. Portanto, esse acto é múltiplo. É isso que também torna o cinema tão gratificante. Começa por ser um acto livre, e essa liberdade vai sendo partilhada, isto é, perdida, porque é partilhada por muita gente, que se associa e generosamente participa nesse acto. É fascinante.

Algum momento do processo lhe é especialmente caro?
A escrita. O começo. O momento da total liberdade, em que tudo é possível. Não há pensamento, não há público, orçamento… Tudo é possível.

Quanto a esta nova longa-metragem, «Paixão», qual a sua génese?
É difícil situá-la… Perde-se muito no tempo… Há um belo dia em que uma pessoa se senta e escreve um acto tresloucado! Esse acto tresloucado, que é o acto de criação, um acto de inauguração de qualquer coisa, vem de onde? Não se sabe!

Fala-nos de um rapto, de uma mulher que rapta e mantém prisioneiro um homem. Um caso com alguns paralelos com a actualidade…
Sim, mas a ideia para o filme nasceu antes de se falar desses casos de pessoas metidas em caves e raptadas, em que se começou a falar do síndroma de Estocolmo; nessa altura já estava o filme escrito. Eu tenho sempre a sensação que a vida é muito mais imaginosa do que a arte. Quando pensamos que estamos a fazer uma coisa completamente tresloucada, depois, a seguir, é só abrir os jornais e a vida encarrega-se de nos desmentir, mostrando que, afinal, é muito mais venturosa. A ideia surgiu como nos outros meus filmes. Costuma-me aparecer uma ideia completa, depois é descascar uma cebola, é chegar lá, ser o mais verdadeira possível em relação a essa ideia inicial que é…, normalmente, é a mais fulgurante.

E neste caso, que ideia inicial foi essa?
Precisamente a de uma mulher a quem acontece uma grande desgraça e que rapta um ser belíssimo num prédio em demolição.

Porque o aspecto da demolição?
É muito importante. O em demolição… não quer dizer que estas coisas tenham um acto simbólico. Mas… o prédio em demolição é uma situação precária, ameaçada, há uma ameaça permanente no filme. Eu penso que hoje em dia é difícil escrever algo que não esteja contagiado por algo de grande ameaça e derrocada, porque estamos numa época de derrocada. Não foi deliberado, mas eu agora vejo que essa imagem de um prédio em demolição, faz muito sentido.

É um filme que vai ao encontro de muitas outras paixões, certo? Nomeadamente, a musical, que tem tradições na sua família…
É fatal como o destino. Eu tenho a musica permanentemente em circulação dentro de mim. Para já, porque eu vivo dentro de música, estou sempre a ouvir música, desde miúda, a música tem um papel muitíssimo importante no meu quotidiano, portanto seria difícil escapar-lhe.

E do mesmo modo a componente plástica do filme assume grande cuidado…
Eu também pinto, mas não sei se isso tem uma influência directa. Vejamos, no cinema há um olhar, se esse olhar não tiver uma componente plástica não sei se o cinema será muito interessante.

E os nomes dos protagonistas? João, a lembrar o evangelista… Maria…
Chama-se «Paixão», o filme. Há uma componente religiosa, naturalmente; por muito que eu não queira, tudo o que eu faço a assume. E há um universo um pouco sadomasoquista, dos mártires, da tortura física, a maneira como a tortura física se mistura com o prazer, a maneira como no imaginário religioso a história da mística se associa, não só a uma qualidade estética, como a algo que tem a ver com um certo prazer na dor. A paixão é isso. É um ser que se transforma num outro, que o come, que o engole, há uma simbiose. Não é propriamente uma simbiose feliz, há muito na paixão de dramático, de dor, é algo por que todos os adolescentes anseiam, um paixão, mas não sei se há muito de felicidade nessa procura.

E a que se deve aquela inversão de papéis, a meio do filme, entre carcereiro e prisioneiro?
Pois… talvez eu queira falar outra vez, falando de paixão, da inversão de papéis numa relação de poder, que existe sempre numa relação amorosa. Atingindo o ponto culminante na relação passional. A relação interdependente da vítima e do carrasco, criando uma simbiose. Que eu penso que é um dos factores que me interessa no filme, acho que é um dos traços da paixão, acho que é um dos traços da violência, daquele que exerce a violência sobre o outro e está a gerar um ser violento no mesmo momento em que exerce essa violência. Eu penso que a grande armadilha da vida é precisamente essa, é escapar a essa correia de transmissão de violência, aquilo que acontece quando numa situação de miséria, numa situação de exercício de tortura de um sobre o outro, normalmente a vítima tem um grande potencial de devir um violador, ou um ser também violento. Esse processo é um processo ao qual é muito difícil escapar.

Os abismos da alma humana… Gostava que me falasse agora de como decorreu o trabalho de escrita de argumento a dois com a Maria Velho da Costa.
Já trabalhamos há muito tempo. Mas eu estou, entre aspas, muito mal habituada. É que eu comecei por trabalhar com a Luísa Neto Jorge, e trabalhei com o João César Monteiro e depois com a Maria Velho da Costa, com o Manuel Gusmão… São poetas e escritores que eu respeito imenso e que aprecio imenso. Com a Maria Velho da Costa tenho uma relação longa de amizade. Há uma simbiose perfeita no resultado, mas temos universos muito diferentes, eu sou do cinema, ela da literatura, isso já conduz a caminhos paralelos. Podem tocar-se mas não é necessário.

Ficção ou documentário? Para onde pende actualmente?
Ficção, eu tenho sempre uma tendência para entortar o documentário para o lado da ficção.

Anúncios

~ por pedroteixeiraneves em Março 29, 2012.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: