vítor silva tavares e joão pedro george na «epicur» março/ abril, a propósito da edição da biografia «puta que os pariu»

Para melhor sintonizar Pacheco

São umas cinco e picos da tarde, encontro marcado à beira-Pessoa, n’A Brasileira ao Chiado. O jornalista marca primeiro o ponto e aguarda, a frio e bica turística, a chegada de Vítor Silva Tavares. Ei-lo que chega, a sobretudo e luvas resguardado o mais possível das baixas temperaturas. Terceiro à mesa, João Pedro George. O quarto circunstante, jornalista também, juntar-se-á à conversa já dentro da Trindade dos bifes, ali ao lado. Quando chega, corre já, animada e bem-disposta, a palestrada em torno de Luiz Pacheco. É ele, afinal, que ali nos traz, o escritor, o editor, o sacana, o indigente, o literato, o vintes e o muito mais que é comum chamar-lhe. O propósito, a edição recente da biografia «Puta Que os Pariu», assinada por João pedro George, chancela Tinta da China. Vai ser um vê-se-te-avias de histórias a rolar, muito por causa da prodigiosa memória daquele que foi seu amigo e editor, também uma espécie de pai, Vítor Silva Tavares, nome que se confunde com o de uma editora de muito valor e contar, a &Etc. São outros vintes, ou quinhentos, que ficam para contar numa outra oportunidade, eventualmente quando também alguém se lembrar de biografar a vida de uma das mais importantes casas editoriais cá do burgo, ontem como hoje, com edição à antiga, de crivo e qualidade. Aqui, porém, é Pacheco o nosso mote. A glosa, esta notável biografia, obra como não é de uso ver-se por estes lados obrada. Segue-se a conversa, em jeito de eu disparo, tu disparas, até porque Vítor Silva Tavares logo para início de contenta assim, de chofre, nos afiançou:

TEXTO EDUARDO MIRAGAIA / PEDRO TEIXEIRA NEVES FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES

VST – Ora bem, aqui quem começa a fazer perguntas sou eu. A que Luiz Pacheco quer a revista «Epicur» abrir as suas colunas? É que há muitos! Quer saber se o Pacheco percebia de gastronomia?…
JPG – Até porque o Luiz Pacheco seria a pessoa ideal para falar destes assuntos, porque, tanto quanto eu sei, os dotes culinários do Pacheco eram…
VST – Zero!
JPG – … basicamente, uma panela, um arroz de frango, tudo metido lá para dentro…
VST – Pior do que isso, o Pacheco não gostava de comer e praticamente pouco ou nada comia. Ou comia muito pouco. Petiscava umas coisas. Nada! Não gostava de comer. De beber, em certas fases gostava, mas bebia tanto que depois, como é sabido, um tipo que se mete nos copos a certa altura nem é capaz de comer. Era uma das coisas que me irritava nele. Epá, os amigos e não sei quê… toda a gente oferecia copos ao Pacheco. Para quê? Para o Pacheco fazer as suas rábulas, ser o bobo da corte. A malta ria-se com as piadas do Pacheco. Isso a mim irritava-me, porque eu queria era ver se o tipo comia uma sopa, uma sandes, qualquer coisa, mais que não fosse para fazer lastro.

Epicur – Na verdade, não era tanto por aí. Trata-se mais de lembrar o homem, o escritor, o editor, e dar a conhecer e divulgar aquela que nos parece uma obra meritória, esta biografia. Onde se diz, de resto, e pegando no vosso mote, que ele, afinal, não era nada dado à bebida, até porque tinha problemas de saúde que a bebida agravava. Não era assim?
JPG – Não é uma questão de ser dado ou não… Ele não era um bebedor constante. Tinha as suas fases e além do mais não era um grande bebedor, porque a questão é que o Pacheco tomava muitos comprimidos…
VST – … e estava quase sempre tão fraco, tão fraco que, quando muito, de manhã bebia uma cervejola; mas só bebia zurrapas, porque não tinha dinheiro. Ele não era daqueles intelectuais ou escritores que frequentavam belos bares e à noite consumiam bons uísques escoceses. Nem pensar nisso. Era zurrapa, o tintol, a cervejola, e enfim, quando já estava para lá do espelho, o bagaço mais horrível que imaginar se pode.

Muito bem. Queríamos, para início, perceber os porquês deste trabalho, como é que nasce a ideia desta biografia. Porquê biografar Pacheco?
VST – Antes disso, vamos sintonizar. Há pelo menos um ponto em comum aqui com o João Pedro, que já sobre o Pacheco tinha feito uma introdução ao livro que recolhe algumas das suas entrevistas, as principais… Essa introdução já constitui um retrato do Pacheco muito composto, a que se segue este trabalho monumental de pesquisa que é esta biografia. Mas o ponto de partida foi exactamente o mesmo. O biógrafo aqui presente confessa que parte da admiração do Pacheco a partir de uma entrevista que o Pacheco tinha dado à revista «K». É isso que leva o biógrafo ao primeiro movimento de admiração…
JPG – … e houve outra circunstância que confluiu, que foi o facto de a minha namorada da altura ser a namorada do Henrique Garcia Pereira. E eu tinha ido passar um fim-de-semana a Cabanas com a Catarina e com os amigos dela. Ela, na altura, era jornalista da RTP. Estávamos numa mesa à beira-ria e às tantas começam a falar de literatura. Eu, sem nunca ter lido o Pacheco, apenas tendo lido a entrevista, começo a dizer: «O maior escritor português é o Luiz Pacheco». E a Catarina diz-me: «mas tu conheces o Luiz Pacheco?» E aí ela conta-me a história… Que o irmão dela era o Paulo, o Henrique Garcia Pereira e a Helena Coito tinham vivido com o Pacheco em Massamá… E então eu disse-lhe: «Então apresenta-me o Pacheco». E fomos a Setúbal, à Avenida 5 de Outubro… Isto foi no ano da entrevista.
VST – Tudo isto parte, portanto, de um acto de admiração, que para mim significa sempre um dos pontos mais altos da generosidade humana, esta capacidade de admirar. Ao admirar alguma coisa há uma sintonização, é quase como um alter ego, encontramos ecos de nós próprios no outro que estamos a admirar.
JPG – Projetamos nos outros aquilo que gostaríamos de ser.
VST – Portanto, um acto de admiração. Sem ainda conhecer o bípede! Só o vem verdadeiramente a conhecer depois.

Já agora, quando foi a última vez que o viu, João?
JPG – A última vez que o vi foi uma semana antes de ele morrer. Ela já tinha saído de casa do filho, tinha-se chateado com ele. Tinha saído do Príncipe Real, tinha feito ali uma rábula, e tinha ido para o Montijo. Acho que foi o grande erro dele, porque estava muito arrependido de ter saído de casa do filho, com quem se tinha zangado por causa da neta… Recordo-me de uma das últimas coisas que ele me disse, já muito debilitado e enfraquecido, já não se percebia muito bem o que ele dizia… Ele estava a tentar dizer-me qualquer coisa e eu pensei que seria qualquer coisa de muito profundo. E eu ia aproximando a minha orelha da boca dele para tentar perceber o que era… A única coisa que me disse foi: «Foda-se!» Como se fosse para um epitáfio…

E o Vítor, ao contrário, como se deu o seu encontro com o Pacheco?
VST – Há que sintonizar, insisto. Há, de facto, uma série de coincidências que fazem parte da nossa biografia, de uma trama da nossa vida. Se quiser, a nossa vida é um somatório de coincidências. Mas que depois, quando pensamos nelas, pensamos que se calhar não o são. Acho que foi o Bréton que disse que a única coisa que não acontece por acaso é o acaso. Ora, por acaso, eu venho das Áfricas, isto e aquilo, e a certa altura aterro na editora Ulisseia. E lá estou, na Rua da Misericórdia, frente ao «República» quando começam a chegar os primeiros ecos da existência de um fulano assim e assado, frito e cozido. Esses primeiros ecos vieram do Santos Fernando, humorista, e do Ferro Rodrigues, igualmente humorista, funcionário do Banco de Portugal nessa altura, aqui na baixa – pai do mais tarde secretário-geral do PS. Era numa pequena tertúlia que funcionava no Bar dos Piratas, ali ao lado do cinema Éden. Com o António Homem Cristo, filho da carolina Homem Cristo, que era a directora e proprietária da revista «Eva» (que tinha um enorme sucesso no Natal, porque quem comprava a revista podia-lhe sair uma vivenda – devo dizer, a propósito, que a revista tinha uma redacção estrondosa, também na Rua da Misericórdia; tinha lá a Maria Judite de Carvalho e o Carlos de Oliveira!), e com o homem dos gelados, o senhor Di Luca Giovanni, admirável conversador, amigo íntimo do Hemingway. O António Homem Cristo era neto de um antigo polemista monárquico, muito conhecido, com o mesmo nome.

Era uma tertúlia de humoristas? Só?
Sim, mas não só, a gente saía dali e ia para uma tasca de galegos em Campo de Ourique onde eles já tinham encomendado a boa cabeça da garoupa ou de pargo… É aí que eu tomo conhecimento da existência de um escritor vagabundo que frequentava o escritório do Santos Fernando para sacar algum e passar documentos… Desperta-me logo a atenção. E aí começa a haver uma certa sintonia, de muita natureza. Inclusivamente, não posso negar isto, de natureza de classe. Eu sou um tipo… O Pacheco, sim senhor, vinha da média burguesia e tal… Enfim, ao contrário daquela gente toda, eu era o único de natureza iminentemente popular. O meu avô era pescador, o meu pai marítimo, a minha avó biscateira… carne para canhão! Ora, um escritor naquelas circunstâncias ia muito ao encontro de mim mesmo e da imaginação a partir de leituras que eu fazia e tudo o mais; era já a projecção do herói romântico, como os modiglianis, os van goghs…
Avançando…
Já estou na Ulisseia quando tenho conhecimento que o Bruno da Ponte, da editora Minotauro, ia publicar a antologia «Surreal/ Abjeccionismo», organizada pelo Mário Cesariny. E ia fazer uma apresentação do livro na Casa da Imprensa, ali à Rua da Horta Seca, à noite. Então eu estou lá caído, e é aí que o Pacheco me aparece – ele está nas Caldas. E lá está o Mário Cesariny e o Bruno da Ponte, o editor. Então o Mário pega nuns papéis e vai ler o texto do Pacheco «O Que é o Neo-Abjeccionismo». O texto em que o Pacheco narra a sua epopeia de andar por aqui, por acolá, a querer trabalho, uma tradução aqui, isto, aqueloutro… e que tudo junto não dava sequer para poder dar pão aos miúdos. E ele chega a dizer: «Ainda hoje acordei e ouvi os meus filhos a gritar por pão». Pão sem literatura, meus senhores, pão, pãozinho!
JPG – Ele dizia que era uma música horrível…
VST – Exacto. E terminava: «Peço uma esmola». Fez-se um silêncio que apetece lá pôr o adjectivo sepulcral. De resto, aquilo parecia um sepulcro, era um ambiente tristíssimo, de cortar à faca. E o Cesariny diz, com uma voz apagada, mas se quiserem dar alguma esmola ao Pacheco faz favor. Não é preciso dizer mais nada. Eu, que já tinha tido ecos do tal escritor que deixava panfletos por baixo das portas dos acusados, digamos dos gajos que ele maltratava, o João Gaspar Simões, este e aquele… Eu entendia que esse lado de provocador estava a vitimar o Pacheco, que obviamente era uma vítima da sua própria coragem. Claro que sim.
JPG – O que já fazia parte do tal ideal romântico.

O que é que o Vítor já tinha editado na Ulisseia, antes do «Crítica de Circunstância»?
VST – Comecei na Ulisseia por um acto de pura provocação. Eu chego à Ulisseia e não quis receber ordenado, e antes de entrar, o primeiro mês passo-o em Paris. Entre outras coisas, vou à Gallimard para ver se sacava os direitos do Céline. Dizem-me que os direitos estavam em poder de brasileiros mas que os brasileiros não pagavam e a Gallimard estava lixada com eles. Então eu arranco com a «Viagem ao Fim da Noite».
JPG – Sobre o qual o Pacheco escreve naquele suplemento do Correio do Ribatejo, «Portas do Sol»… e que aparece no «Crítica de Circunstância».

Mas quando é que o Vítor chega à fala com ele?
VST – Bom, atendendo ao interesse em recolher as coisas do Pacheco, o que houvesse e o que não houvesse, entra aqui o Virgílio Martinho. Alguém, suponho que o Santos Fernando, fala com o Virgílio, que era, digamos, de uma geração de surrealistas e que já é do grupo do Gelo. Portanto, amigo íntimo, podemos dizê-lo, do Pacheco. E é o Virgílio Martinho que vai organizar os textos que vão fazer parte do «Crítica de Circunstância» e isso vai proporcionar o primeiro encontro que eu vou ter com o Pacheco, dizendo-lhe, desde logo, que eu ia fazer um contrato com ele tal e qual o contrato que a Ulisseia tinha com o José Cardoso Pires e os demais. O que significava logo uma pipa de massa. O Pacheco nem queria acreditar. Os textos vêm para a minha mão e eu faço um autêntico ultimato ao Pacheco: «Sim, senhor, está tudo muito bem, mas eu não quero que isto seja um simples conjunto de coisas já publicadas, ainda que escassíssimas tiragens, papéis avulsos, não senhor… E é aí que eu exijo que ele escreva um texto especial para a edição, a nota do autor aos 40 anos. Foi o cabo dos trabalhos para lho arrancar! Mas, ou vem o texto ou não há livro! E veio o texto. Eu reconheci que aquilo podia ter, como teve, problemas com a Policia Politica. E eu já estava escaldado porque, ó, mistério dos mistérios, a Pide apreendeu «A Viagem ao Fim da Noite». Para minha grande estupefação! Lembro-me de estar a falar com os inspectores da PIDE… Mas um autor destes? Que é idolatrado por tudo quanto é direita? Que acompanhou o Exército nazi para a Dinamarca?… Bom, quando surge o momento da publicação do «Crítica de Circunstância»… O que é facto é que o livro veio a retirar-se, sobretudo por causa de um texto, «Os Doutores, a Salvação e o Menino», que era o remake de um velho texto que ele tinha publicado em 1946…
JPG – Que é o primeiro texto literário dele, para a revista «Bloco».
VST – Exactamente, que era uma revista que estava ligada ao MUDE. Mas a PIDE retirou esse texto porque nele se faz alusão metafórica a um tal tirano, que decorre aqui em Lisboa e nomeadamente ali na Brasileira do Chiado. Mas como o texto está escrito como se fosse em versículos bíblicos. O qual tirano, como tirano que era, tinha a sua guarda pretoriana, os seus centuriões. Ora, a acção deste texto vai decorrer na brasileira onde o menino Jesus vai entrar em contacto com os doutores. Bom, o texto é retirado, e no interrogatório com o agente da PIDE, este começa por perguntar-me se eu não achava que o adjectivo «farsista», que estava no livro, era muito parecido com fascista. Eu disse que realmente era. E que guarda pretoriana era aquela? – ele. Eu, fazendo sempre a defesa dos livros, não podia não deixar não apresentar desde logo a minha reclamação. «Isto é inadmissível e não sei quê…» No caso do Pacheco, eu disse, é preciso ver que este livro, os textos que aí estão, são todos de coisas que ele já publicou, em jornais, revistas! E esse texto, está lá escrito, olhe: revista «Bloco», 1946. Diz-me o gajo: «Pois é, mas nessa altura essa revista foi retirada.» E eu: «Ah foi?» — eu sabia perfeitamente! E digo-lhe: «Olhe, eu nasci em 37, isso foi em 46, portanto estou eu de calções a jogar ao berlinde.» «Ai estava a jogar ao berlinde?», ele: «Mas eu não». Resumindo e concluindo, quer o biógrafo do Pacheco, o JPG, quer eu, partimos de um acto de admiração e sintonização por alguém. O que é que agora fica de pé ou não fica? Ou esse acto de admiração, pelo homem, pelo escritor, se mantém no decorrer da vida, ou morre, sofre um colapso. No caso do João Pedro George, depois da fase do enamoramento seguiram-se quezílias, porque o tipo tinha realmente uma língua… enfim, faz sacanices, inventa intrigas, mete-se nitidamente para dentro da vida pessoal do outro… Ora bem, e comigo a mesma coisa, só que por muitíssimo mais tempo. Foi assim num percurso que ora teve caminhadas em conjunto ora desvios. Mas por todo o lado onde eu passei chamei sempre o Pacheco.

Era já a amizade a falar mais alto?
VST – Talvez a palavra seja essa mas é difícil aplicá-la no seu sentido mais normal para um indivíduo como o Pacheco. De qualquer modo, eu fui totalmente amigo do Pacheco e quero crer que vice-versa. Agora a maneira e o modo como essa amizade se processava tinha por vezes todas as características do seu exacto contrário. Naquela relação ambivalente e permanente do ódio-amor. Por vezes eu tinha uma vontade de o estrangular ou matar e ele, num dos diários negros, chega a dizer isso de mim. A mim e ao Manaças e não sei quê e era a sério! Porque chegava a um ponto tão extremo de polémica e zanga que eu era por vezes de uma impiedade completa em relação ao tipo. Porquê? Porque aquilo que eu tinha projectado no Pacheco, educável, fora do mainstream… O choque que eu tive quando ele dedica uma edição ao Manuel Vinhas! Ele vinha muito politizado… Começo a saber que ele já tinha sido germanófilo. Durante anos e anos foi uma espécie de bola de pingue pongue entre ele e o Cesariny, por ciumeiras.
JPG – Ele projectou também no Cesariny o seu próprio defeito, porque ele acusava o Cesariny de se ter zangado com ele, Pacheco, porque achava que o Cesariny tinha ficado com ciúmes de o Pacheco ter editado outros!

Muito bem, aproveitando a deixa e a todo esse respeito, que entendimento tinha ele do conceito de ética?
JPG – Eu acho que era uma ética diferente todos os dias.
VST – Pois, mas ele apresentava-se como um ser eminentemente moral. Mas uma moral burguesa, evidentemente outra, que não tem que ver com o que nós entendemos como moral e ética, porque na verdade tem outros pressupostos.
JPG – E às vezes fugia-lhe o pé para a sua origem burguesa. Porque, por exemplo, uma das últimas zangas que eu tive com ele, ele nunca me disse o porquê. Só o percebi muito mais tarde. Houve uma altura em que estava muito zangado comigo… A ultima entrevista que ele deu ao jornal «Sol», pouco antes de sair um projecto feito a meias comigo – em que a escolha das entrevistas era dele –, ele na entrevista nega o livro, diz que é uma aldrabice, que eu sou um aldrabão. E a jornalista pergunta-lhe: mas então ele não é seu amigo? «Não!» Vim a descobrir que era um ressentimento que ele tinha havia anos. Porquê? Porque as edições Quasi tinham publicado uns anos antes as «Cartas ao Léu», as cartas àquele livreiro Raposo Nunes, de Setúbal, e os tipos na altura perguntaram-me se eu não queria escrever um texto para a badana. E na badana lia-se: Luiz Pacheco, ex-alcoólico, asmática, não sei quê… e também «cadastrado». Pois vim a saber que cadastrado foi a maior ofensa que lhe tinha feito. Mas ele nunca mo disse, ficou a remoer.
VST – Sobre isso, conto também esta. Um dia estávamos no Treze, eu e mais amigos. E ele vai fazer umas perguntas à malta. Suponho que eu, o António José Fortes, o Carlos Ferreiro, enfim… E as perguntas do Pacheco eram as seguintes: Tenho ou não tenho direito a ter uma refeição quente por dia? Tenho ou não tenho direito a ter um quarto com tecto? Tenho ou não tenho direito a ter os meus filhos comigo? Estas questões, do tenho ou não direito, que remetiam para casa, comida e filhos, que estavam no mais fundo das preocupações do Pacheco, não atiram a sua figura para o tal sem-abrigo voluntário, o sistema anti-sistema. Não senhor, era um indivíduo que nuns aspectos seria o apocalíptico, funcionava no pequeno espaço moral da república das letras e das tretas como tal, mas no fundo ele desejou sempre o seu paraíso perdido.

E nesse medida em quanto se fez valer da ficção que se criava em torno dele?
VST – Que se criava ou que ele próprio criou. Tenho uma teoria, que a certa altura, empurrado pelas circunstâncias, ele começa a formatar o personagem Pacheco.
JPG – Eu julgo que ele começou a formatar porque viu que essa imagem estava já a ser formatada.
VST – Exacto, ou seja, começou a haver uma certa caricatura do Pacheco.

Apesar de ele ter renegado sempre a condição de maldito.
JPG – Mas isso faz parte da própria condição: o maldito nunca reconhece que é maldito. Faz parte também da representação típica do escritor, faz parte da retórica do meio.
VST – Eu creio que é importante dizer que o Pacheco só é em função da literatura, nesse aspecto é um animal literário e isso aqui está bem expresso. Ele sacrificava tudo pela literatura.
JPG – A tal imagem d’«o literato mais literato», como referia o Ernesto Sampaio.
VST – Exacto. Ele tudo equaciona em moldes literários ou indo parar à literatura.
JPG – Era um obcecado pela literatura.

E quanto à sua literatura, o que importa reter acerca da sua real mais-valia?
VST – Vamos lá ver, nas cartas, nos diários negros, nos textos que deixou é 100% um autor autobiográfico.
JPG – Até a própria crítica que faz lhe serve para isso. Os seus textos muitas vezes são mais sobre ele do que sobre os que critica.
VST – Bem e o Henry Miller também, e cito-o por haver pontos de contacto. Até de feitio! Nós sabemos que o Miller quando salta para os Parises, à procura da luz, do espírito novo, e entra em contacto com os surrealistas franceses, o Cendrars, o Breton e tal… o Miller, já de idade avançada, viveu muito mal! E os seus livros destilam um humor que eu sempre associei ao Pacheco. São os tais dias felizes, tranquilos em Clichy, que correspondem a uma época em que ele andava aos caídos. E chegou a passar fome. Mas nada disso tirou àquele guru o que quer que fosse de optimismo vital. Eu publiquei na Ulisseia a correspondência entre o Miller e o Lawrence Durrell, que é um livro curiosíssimo. Como é que dois indivíduos tão distintos e opostos puderam ter a ligação que tiveram. Há um período em que vivem na mesmíssima casa e todas as manhãs, ao acordarem, cada um vê em cima da mesa de cabeceira uma carta do outro… Enquanto o Durrell, muito europeu, é capaz de ficar para morrer porque comprou uns sapatos que lhe fazem doer os pés e portanto a vida torna-se um inferno e escreve isso ao outro, este diz-lhe «epá eu ando descalço, deita fora os sapatos». Esta maneira de encarar a penúria, as gargalhadinhas sarcásticas do Pacheco por vezes eclodiam em grande miséria ou a partir da sua miséria.
JPG – Era um tipo completamente despojado dos bens materiais. Mas depois, quando não tinha dinheiro, era também capaz de fazer tudo para o conseguir. Oscilava entre uma generosidade invulgar e uma obsessão.
VST – O ávida-vintes, da alcunha que o Breton deu ao Dalí… Ávida-dólar. Vintes, porque era a nota preferida. Mas, sim, vi eu muitas vezes por aqui o tipo a encontrar um mendigo que lhe pedia algum e ele, indistintamente, passado muito pouco tempo de ter sacado uns vintes, tirava a massa do bolso a pô-la na mão do pedinte. Um caso muito dramático é o das criancinhas desaparecidas. Porque aí entra outra componente muito forte do Pacheco. Ele era realmente um patriarca e sofria efectivamente por não o poder ser. Ele queria a sua tribo. A sua mulher, os filhos… ele era monogâmico, quando tinha uma mulher não tinha duas.

Então, também temos dele uma noção errada de libertino?
VST – Eu acho que ele não era libertino.

Mas voltando ainda à real valia literária dele.
VST – O Pacheco tinha uma coisa de que hoje ninguém fala: talento! O Garcia Llorca chamar-lhe-ia dom. Uma coisa que não é explicável.
JPG – Não é explicável, mas aí tenho de discordar de si. Porque, para além disso, há outra coisa que não se refere, ele era um grande trabalhador.
VST – Já lá vamos: não poderia esse trabalho refulgir com brilho se ele não tivesse esse dom natural do talento para a escrita. No arranque essa capacidade pode estar ainda informe, não ter ainda atingido o estilo. O estilo pachecal, esse é produto de uma vasta cultura de conhecimento literário, as suas leituras, do meio onde ele nasceu. E depois o trabalho vem a compor um estilo próprio e intransmissível. Ele criou um estilo literário e de poucos escritores em Portugal se pode dizer a mesma coisa. A maior parte tem línguas de madeira, não têm nada que imediatamente as identifique e que encante.
JPG – Levando até a que alguns críticos quando escreviam sobre ele tentassem escrever com o seu estilo…
VST – Exacto. Agora, por circunstâncias diversas, a obra dele como sabemos é escassa.
JPG – Eu acho que nos diários e nas cartas está melhor obra do Pacheco.
VST – Sim, pelo imediatismo, pela verdade. Total! Ele não poupa ninguém nem se poupa a ele mesmo. E pelo cuidado na escrita portuguesa, escreve com uma enorme perfeição.
JPG – E ao mesmo tempo tem a capacidade de incorporar a linguagem popular fundindo-a com a literária, não só urbana como rural. O Pacheco só saiu uma vez de Portugal, esteve quinze dias em Itália, mas deve ter sido dos escritores portugueses que mais viajou dentro de Portugal.
VST – A seguir ao Camilo.
JPG – Exactamente, o Camilo. Que também esteve preso por causa de mulheres, que também raptou menores. É também um escritor muito autobiográfico e com uma correspondência impressionante. Mas eu creio que o Pacheco deve ter escrito cartas ou postais todos os dias!
VST – E escrevia em tudo o que é sítio. Eu tenho por exemplo cartas dele que ocupam sete bilhetes-postais. Portanto, muito trabalho, sim, mas com graça e centelha, talento, e de outra forma não se vai lá…

Mas o contexto de época e as pessoas com que se cruzou e conviveu também o moldaram, ou não?
JPG – Sim. Tal como o facto de ter tido conhecimento de meios sociais tão diferentes, desde a família da Maria Irene e da Maria do Carmo, na Sertã, desde os meios dos tipógrafos, os escritores, as tascas… eu acho que tudo isso resultou num talento invulgar.

João, teme de algum modo que a faceta dos vintes e da maledicência dele se possa sobrepor ao que interessa verdadeiramente reter, que é a sua relação com a literatura?
JPG – Eu julgo que se algum mérito este livro tem é realçar isso…

Mas convenhamos que o título também parece apostado em ir ao encontro dessa faceta. Parece um título para vender…
JPG – Bem há várias questões que se podem pôr à volta deste título. Uma delas é essa, com certeza e a editora dentro de uma lista de títulos que eu apresentei pegou imediatamente neste. Mas de qualquer modo ele surgiu porque retirado da última resposta dele à revista «Ler», A inspiração está aí e está também nos próprios tempos que vivemos hoje, porque é de facto a expressão que apetece utilizar quase todos os dias quando lemos os jornais ou ouvimos o primeiro-ministro ou os governantes europeus…
VST – Claro que é um título choque, mas que é um título adequado a uma pessoa e a um escritor choque.
JPG – Atenção, é preciso ainda ver qual a pergunta na base desta resposta: «Qual a mensagem dele para as novas gerações?»

Isso leva-nos a uma outra questão, para terminar: o que lhe dizia a ele a posteridade?
VST – Está na obra dele.
JPG – Eu acho que tanto lhe dizia que ele deixou muita coisa inédita. Ele podia ter publicado muita coisa e deixou, portanto sabia o que era a posteridade. Até porque não esqueçamos que ele era extremamente cuidadoso com os seus fieis depositários da sua obra.
VST – No fundo, uma natural preocupação com a projecção da obra dele.

~ por pedroteixeiraneves em Março 29, 2012.

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