liberto cruz – uma entrevista

Sintrense, nascido em 1935. No mais, na vida, muita e muito andada e vivida, um pouco de tudo, sempre ao correr das letras e das humanidades. Liberto Cruz é poeta, crítico, ensaísta, biógrafo, tradutor e professor. Fundou revistas, foi conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Paris de 1975 a 1988, director da Fundação Oriente em Lisboa, e é Presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários. Conversou comigo na sua casa, um autêntico museu em ponto pequeno, lugar de histórias e afectos. Em cima da mesa, e como mote, a reunião recente, pela Editora Palimage, da sua «Poesia Reunida 1956 – 2011».

TXT PEDRO TEIXEIRA NEVES

Liberto Cruz, o que encerram e dizem estes cinquenta anos de poesia?
Este itinerário poético é o resultado da minha própria vida, não é assim?… Ou seja, encontram-se nestas páginas, nos diversos livros aqui reunidos, as várias fases de vida pelas quais eu passei. Ou seja, a guerra, o exílio… Sobretudo estes dois factores, eu diria, contribuíram, como de resto se pode ver no livro, para a construção deste edifício poético.

E o que tem representado a poesia na sua vida? Um diálogo de si para consigo ou mais um diálogo com os outros, ou com o Outro?
Há, sobretudo, um diálogo comigo mesmo, na medida em que eu me analiso e tento analisar aquilo que me rodeia e simultaneamente transmitir aquilo que eu vou vendo e observando do mundo que me rodeia.

Trata-se de algum modo de um diário?
De certa forma. Eu acho que, no fundo, toda a poesia reflecte um diário, visto que a necessidade de se declarar, a necessidade de expor aquilo que se vai sentido, é, podemos dizer, como diz, um autêntico diário.

De resto, o «Jornal de Campanha» é nesse tom que se apresenta…
Sim. O horror da guerra – eu estive na guerra de Angola –, necessitava de um testemunho e esse testemunho não podia ser feito com grandes parangonas, nem com grandes textos. Daí a brevidade… aAiás, o Eugénio Lisboa, no prefácio deste livro, chama-lhes «autênticos disparos», a esses versos do «Jornal de Campanha». E realmente eram disparos; não com a espingarda, mas com a palavra. Disparos contra o absurdo do momento que eu então – eu e muita gente, milhares de pessoas – então viviam, tanto em Angola como em Moçambique, na Guiné, etc.

Era também a escrita e a poesia como uma espécie de contraveneno ao ódio e às lágrimas?
Sim, mas a poesia era não só o contraveneno, como também um alarme. Era um alarme para aquilo que eu sentia, embora, claro, nessa altura eu não a pudesse comunicar, visto que só quando cheguei a Portugal, em 64, é que eu, enfim, estaria apto a poder transmiti-la. Mas nessa altura, dada a situação política vigente, não havia qualquer possibilidade de publicar este livro.

E por aí se justifica o dilatado intervalo entre a data da sua escrita e o momento da sua publicação.
Exacto. A esse propósito, já agora, acrescento um pormenor curioso, é que quando veio o 25 de Abril eu pensei que tinha chegado o momento de publicar o livro. Mas encontrei exactamente a mesma censura! – não se podia publicar um livro a dizer mal dos militares, como se a guerra fosse um assunto tabu e que não pudesse ser falado. E o livro acabou por sair, mas na ilha da Madeira. As próprias tipografias, quando eu quis, eu próprio, pagar a edição, as próprias tipografias recusaram com receio que houvesse melindres da parte da Censura, que supostamente já não existia…

O Liberto foi, de resto, um dos primeiros a escrever e a poetizar a guerra…
Eu creio que fui um dos primeiros, senão o primeiro. Isto porque logo em 1962, em Luanda, exactamente no ano em que cheguei, escrevi um poema longo, chamado «Discurso claro como o Inverno»… Mas que não figura aqui, nesta reunião, visto que é um poema isolado. Nesta poesia reunida só se encontram os livros que foram publicados. Quer dizer, os poemas publicados em revistas, em jornais, ou que eu tenha ainda inéditos, não figuram no livro.

Nesse contexto, achei curiosos os versos em que se indigna, tomando António Nobre pela parte de um todo de escritores que não ousavam pronunciar-se sobre a guerra. Quer comentar?
Afligia, porque nenhum escritor português, enquanto a guerra durou, escreveu o que quer que fosse contra a guerra de Angola. Mesmo os mais revolucionários, mesmo os mais atentos, não escreveram uma só linha. E, isto prova-o, depois do 25 de Abril eu estava à espera que aparecessem mais testemunhos e livros que não poderiam ter saído devido ao sistema político, mas esses livros não apareceram. Portanto, realmente aí eu antecipo essa necessidade, porque realmente não apareceu nenhum outro livro. Os livros são posteriores! Mas na altura do conflito os escritores estavam vivos e não escreveram absolutamente nada. Daí que eu tenha recorrido ao António Nobre, claro.

A sua poesia encerra, eu diria, duas facetas: aquela que espelha a vida, o mundo em volta, e aqueloutra que é toda construção, jogo, também ironia. Porque escolheu ir por aí?
Escolhi ir por aí porque era simultaneamente a maneira mais fácil e mais difícil. Mais fácil, porque tinha leitura imediata e portanto o leitor pensava, apercebia-se de uma certa realidade, mas ao mesmo tempo esse brincar era um brincar a sério. Sobretudo visto que se pretendia chamar a atenção, sobretudo na «Gramática Histórica», e isso é evidente, queria-se chamar a atenção para o que se vivia em Portugal então, e a palavra, essa palavra, que parece de brincadeira, fornecia os elementos necessários e a chave para o possível leitor entender a mensagem que desejava passar.

A poesia como intervenção?
Sim, eu acho que toda a poesia é interventiva.

E deve sê-lo?
Acho que sim, acho que deve ser, sim. Porque nos manuais de literatura, antigamente, quando eu era estudante, dizia-se: a poesia é um estado de alma. Era assim que vinha nos manuais de literatura. Ora eu acho que hoje, e toda a minha poesia teve essa preocupação, a poesia não é um estado de alma, a poesia é um estado de corpo. Porquê? Porque o poeta investe-se, não é assim?, com a fala, com o corpo, com os músculos, com tudo, com a força, para dar a conhecer o tal mundo em que ele viveu e que o rodeia.

A poesia é uma interrogação?
A poesia é uma interrogação, visto que eu me interrogo sobre o mundo, não é assim?, sobre a minha vida, sobre tudo em que me desloco… Portanto, é através dessa interrogação que eu procuro respostas, e é assim que vou vivendo.

Em busca de quê? A palavra salva?
Não, não acredito nisso. Não é uma salvação. É um testemunho, uma comunicação. E cada um deverá dela retirar as lições que souber e puder.

Em concreto, que livros aqui se disponibilizam?
Este livro reúne os dez livros que eu publiquei entre 1956 e 2011. E no final há um livro inédito, três poemas. Portanto, temos onze livros.

Para terminar. O que é que, enquanto poeta, aproxima e afasta o primeiro Liberto Cruz que aqui surge e o mais recente?
É claro que o primeiro livro destaca-se pela ingenuidade. O último livro pela maturidade. Portanto, é uma soma entre a ingenuidade de quem começa a escrever, ainda com menos de vinte anos, e quem publica, escreve este último livro, com mais de setenta.

~ por pedroteixeiraneves em Abril 18, 2012.

Uma resposta to “liberto cruz – uma entrevista”

  1. Não conhecia o autor. Li a sua entrevista com muito entusiasmo. Parabéns.

    1 abraço

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