sobre nikias skapinakis – uma entrevista com raquel henriques da silva

É um dos nomes cimeiros das artes plásticas portuguesas contemporâneas. O Museu Berardo, ao CCB, acolhe uma vasta retrospectiva da obra plástica de Nikias Skapinakis, a maior alguma vez dedicada ao artista. Em visita cerca de 260 obras, que cruzam e atravessam géneros pictóricos diversos, para além de vasta documentação de Imprensa e bibliográfica. Nikias pinta há mais de sessenta anos, Tem mais de oitenta e partiu dele o desejo de fazer esta antológica. Sobre a mesma, diz Raquel Henriques da Silva, curadora.

TXT E FOTOS Pedro Teixeira Neves

Qual a importância desta reunião antológica?
A importância desta exposição resulta, em primeiro lugar, e não é pouco, para o próprio autor, Nikias Skapinakis, que pinta há seis décadas! E o fazer esta antológica foi uma vontade dele próprio…

Porque, já agora, crê ter ele sentido essa necessidade?
Para os artistas, como para cada um de nós, de vez em quando é importante rever aquilo que se fez. É importante frisar que ele está em plena criação, se calhar está a preparar novas fases, não sei. E portanto ele achou que era o momento de rever quadros, alguns deles que não revia há muito tempo – alguns nunca tinham mesmo sido expostos em público. Isso para o pintor, portanto, é de grande importância. Tal como para o Museu Berardo, uma vez que este foi um projecto muito acarinhado pelo François Chougnet, o anterior director, e que o Pedro Lapa – que é amigo pessoal do Nikias –, recebeu muito bem quando chegou.

Mais-valias portanto também para o museu.
Sem dúvida. Para um museu que é conhecido, e muito bem, sobretudo pela sua colecção de arte internacional, aceitar fazer uma grande exposição neste espaço tão extraordinário sobre um artista português, que é um artista que começa a carreira num período em que a modernidade era quase um proibido em Portugal, eu acho que também é de considerar e sem dúvida importante para o currículo do próprio museu. Por último, eu diria que se trata de uma exposição importante para o público em geral. Eu espero que seja sobretudo importante para o público, porque nós, na nossa cultura, cultivamos quase sempre um repto e desenvolvemos uma ânsia pelo que está a dar, pelo que se está a fazer, pelo que está em cima do momento, e o recuo da história é às vezes uma premissa com que não se conta. Ora, para quem é historiador, e é o meu caso, nós sabemos que esse recuo é muito importante. E a possibilidade de ver o percurso de um homem que começa em cima do segundo pós-guerra a trabalhar, a trabalhar numa Lisboa que era uma Lisboa muito difícil, porque depois da guerra havia a esperança que o regime se alterasse, e o regime endurece, e depois um homem que vive a sua juventude e sua primeira maturidade num clima bastante opressivo, que ele trata numa série com um nome extraordinário, que é o «Estudo da Melancolia em Portugal», e que depois se vai libertando e que hoje, com a idade que tem, se inspira, por exemplo, nomeadamente na pintura de rua, nos graffiti, e que faz uma última série de retratos que já não são exactamente retratos – porque quem posa, entre aspas, são manequins, manequins propriamente ditos, não gente –, portanto, abordando todas as questões do que é o Humano hoje, do que é o clone, do que é o transumano, essa oportunidade, de aqui abarcar todos esses períodos criativos, é de enorme importância.

Um dos fascínios da obra de Nikias, de resto, é a sua abrangência de registos.
Sem dúvida. É um homem que vai desde uma pintura muito lírica, muito nostálgica, muito concentrada na sua própria aprendizagem, e que chega com um esplendor extraordinário até hoje. Que, por exemplo, trabalha em larguíssimas séries – nós estamos numa sala de desenho que tem, desde lá do fundo, uma série que são as pinturas higiénicas, os desenhos higiénicos, que são feitos sobre rolos de papel higiénico, que ele vai desdobrando e portanto não têm fim… Mas é sobretudo um homem da tradição do trabalho em atelier – ele só trabalha com luz natural. É um homem da pintura a óleo, ele usa o guache e usa os instrumentos do desenho, mas ele é um homem do óleo e o óleo é uma técnica que exige muito tempo, muita segurança (o óleo para quem não sabe lidar com ele é muito ingrato, com muitos tempos de secagem, muita pintura sobre pintura, para encontrar o tom certo). Portanto ele é um homem de sólido ofício, e gosta disso, adora, creio que é o máximo para ele, é estar no atelier a pintar, mas depois é também um artista que abre esse ofício tradicional de pintura a reptos sucessivos de modernidade. Que passam pela figuração, que passam pela abstracção, e que passam por uma coisa que é muito peculiar neste homem, que é um homem discreto e até assim com um ar ligeiramente distanciador, que é a ironia.

Uma veia que lhe vem de onde?
Ele tem uma ironia incrível e que nós, culturalmente, conotamos com o dadaísmo. Por exemplo, a série dos papéis higiénicos de que já falei, ou a série dos Quartos Imaginários, que é uma grande série – que começa em 2001 e que se prolonga até hoje, em que ele inventa quartos de grandes pintores, de grandes escritores, de figuras que ele admira. Por exemplo, o quarto do Fernando Pessoa, do Amadeo Souza Cardoso, do William Blake, do Piranesi, do Freud… não é? E em que monta histórias. Ele é um pintor que tanto faz um paisagismo com uma grande marca de abstração e trabalhado pela cor, como tem um gosto extraordinário pela narrativa, que passa pelos títulos e que passa pela forma como ele articula os assuntos.

Pode concretizar?
Por exemplo, para além da série «Para Estudo da Melancolia em Portugal», que são retratos de intelectuais da época, ele tem uma série notável na passagem dos anos 60 para 70, mas antes do 25 de Abril, que são «Os Caminhos da Liberdade», que é uma série de uma ironia extraordinária sobre o feminismo. Uma coisa que vai crescendo ao longo do século, que é um traço da nossa cultura ocidental, talvez o melhor traço da nossa cultura ocidental, que é o estatuto da mulher, e que ele apanha em cheio nos anos 60 e 70, aqueles movimentos feministas… E faz uma série de pinturas que parecem cartazes, que jogam um bocadinho com um gosto pop e que são altamente provocatórios, porque são nus femininos de gente que era identificável na época e na cidade. E que, aliás, posaram para ele, não foi nenhuma pintura clandestina. Portanto, é um homem que junta muitos contrários, e eu acho que esta exposição permite um percurso notável pela história da pintura do século XX.

E também um artista que não se demite de um olhar crítico ao mundo em volta, certo? Prova disso a implicância na edição de «Quando os Lobos Uivam», do Aquilino Ribeiro…
Sim, é verdade. O Nikias do início, o Nikias dos anos 50, e 60, e até ao 25 de Abril, é um homem que a par da sua actividade de artista, que é o essencial da sua vida e o que lhe interessa, é um homem que tem uma actividade política. Sempre teve, foi sempre um homem de oposição, foi um homem que chegou a estar preso, conotado com o Partido Comunista, o que era extremamente proibido… Eu estou a dizer conotado, não estou a dizer que fosse comunista, eu acho que era compagnon de route, como se costuma dizer. E tem, por exemplo, essa série notável de desenhos fantásticos, notáveis ilustrações que ele fez para o livro do Aquilino – o livro que foi apreendido e cujos desenhos originais desapareceram. A esse propósito, recordo uma história curiosa. Quando ele esteve preso, ficou com, e já teria antes, uma ficha na Pide. A ficha na Pide tinha sempre aqueles pequenos retratos a acompanhar as infomarções sobre os detidos ou suspeitos. E ele teve acesso ao seu retrato, que aliás tem um número de identificação que a Pide lhe dava… Ora, ele transformou esse retrato no seu retrato oficial. E passou, nos anos subsequentes, nos diversos catálogos que fez, a utilizar esse retrato, o retrato da ficha da Pide. Esse retrato, tirado pela Pide, está de resto aqui na exposição.

E em matéria de influências, heranças, o que há a dizer?
O Nikias, embora seja um pintor moderno, é um homem que tem consciência das vanguardas anteriores. Ele é, por exemplo, um grande admirador de Amadeo Souza Cardoso, de Eduardo Viana, de Mário Eloy… E por outras razões, que não pictóricas, também do Almada – em 57 ele conseguiu mesmo que o Almada posasse para ele, e, facto interessante, esse retrato, pela primeira vez apresenta lá uma pintinha, uma pequena bola vermelha que ele considera que é um sol que havia de guiar toda a sua produção pictórica. Esse quadro também aqui está, embora não o original.

Como resumiria o que aqui podemos encontrar?
O que aqui há é um percurso que nos seduz pela capacidade de contar histórias em pintura. E esse contar histórias tanto ocorre naqueles quadros figurativos, uma natureza morta, um retrato, numa paisagem, como na quase luxúria de cor. No mais, por tudo o que atrás disse, é uma obra de uma grande importância.

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~ por pedroteixeiraneves em Abril 19, 2012.

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