cristiano holtz – bach raro – uma entrevista

Obras para cravo
Bach raro por Cristiano Holtz

Nasceu no Brasil, em 1972. Cristiano Holtz vive, respira e interpreta J.S. Bach como poucos. Iniciou o estudo do cravo aos 12 anos e aos 15 foi para os Países Baixos, onde estudou sob orientação de professores como Jaques Ogg e Gustav Leonhardt. Veio depois para Portugal, onde reside e lecciona canto gregoriano. Acaba de gravar obras raras de Bach.

TEXTO PEDRO TEIXEIRA NEVES

Desde 1989 que toca regularmente em salas na Europa, América Latina, Ásia e em festivais internacionais, sobretudo como solista. Orientou masterclasses em Portugal, Brasil e Singapura. Para além do cravo e do clavicório, dá também recitais em órgãos históricos. Em 1995 ganhou um prémio no Concurso Eldorado em São Paulo. Participou também em diversas gravações para a rádio e televisão portuguesa e brasileira. Em 2002 gravou um disco com obras para teclado de J.S. Bach e música de câmara de G. F. Händel e A. Vivaldi. Em 2006, Holtz gravou as suites de J. Mattheson (estreia mundial) para a editora RAMÉE, trabaçho que distinguido com vários prémios internacionais como o “Preis der Deutschen Schallplattenkritik” e as 5 estrelas da revista especializada em música antiga – Goldberg. Actualmente vive em Lisboa e lecciona no Instituto Gregoriano e no Conservatório Nacional de Música. É em sua casa que o entrevistei, rodeado por múltiplos retratos de Bach, o seu farol e referente musical absoluto, ouvindo-o também tocar no magnífico cravo que mandou construir em Hamburgo.

Cristiano, quando é que se deu o seu contacto com a música de Bach?
Há muito tempo. Eu ouvi Bach pela primeira vez quando tinha sete anos, com a minha avó, que foi a minha primeira professora de piano – não pura. E ela tocou para mim muitas coisas: tocou Chopin, eu achei muito bonito, tocou Beethoven, muito bonito, alguma boa música brasileira também, muito bonito, mas quando ela tocou uma obra de Bach, aí, para mim, foi assim um calafrio, difícil explicar exactamente… Eu tinha sete anos e disse para minha avó: “Ok, você não precisa de tocar mais nada, é isso que eu quero tocar, para mim está claro.”

Tão claro que até hoje nunca mais o deixou…
É! Bach é uma fonte inesgotável, quando mais eu o vou conhecendo mais eu vejo que é um milagre inacreditável. Quanto mais próximo eu chego mais longe eu estou. Então é uma coisa assim, é sem fim.

Ao ponto de quase se dedicar em exclusivo a Bach…
Sim, embora eu toque, enfim, todo o repertório barroco. Mas, de facto, Bach é mesmo o centro. Então, quase não há nenhum recital que eu não toque mais de metade a música dele.

Há algum outro compositor que se lhe aproxime?
No meu entender nenhum se aproxima. Talvez da genialidade, que Mozart também tinha. Mas na minha opinião Mozart encontra-se a quilómetros. Bach, para mim, é quase sobre-humano. Se eu pego, por exemplo, na obra instrumental… É um mundo! Quanto à obra vocal, as Paixões, por exemplo, eu não consigo compreender como é que um ser humano fez aquilo.

Que tipo de emoções desperta entrar dentro da música de Bach?
É incrível, é quase um despejar, como é que eu posso dizer?… Uma experiência em que nós nos perdemos. Entrar naquele mundo, naquela energia, naquele oceano, é quase como entrar dentro de uma corrente de electricidade musical. Mas é difícil explicar.

Falava em sobre-humano… Há também muito do homem na música dele?
Há também, porque eu acho que ele é um artista… Enfim, para ser o que ele é eu acho que ele tem que ser um artista completo, um artista terreno, espiritual, físico. Então é uma pessoa completa, ele era absolutamente um ser terreno. Ele teve, por exemplo, vinte filhos, além de gostar de boa comida, de bom vinho, de boa cerveja…

Quanto a este disco, o que nos oferece?
Este disco contém duas peças que não foram gravadas ainda em CD e várias outras peças que são muito pouco conhecidas. Para além de outras peças, obras que são já muito conhecidas, como as tocatas, a fantasia cromática e fuga… Então por isso ele tem esse título, «Obras Raras para Cravo», porque a maior parte dessas obras são muito pouco ouvidas. Tanto em concertos e principalmente em gravações.

É professor, como estamos de cravistas em Portugal?
Penso que no bom caminho. Cada vez mais há excelentes cravistas colegas meus, e muitos alunos cada vez mais interessados em aprender a tocar.

E em matéria de repertório?
Há também muito repertorio português, desde o Renascimento até ao Barroco, o Carlos Seixas, por exemplo. E certamente que por aí haverá muitas obras por conhecer, estudar e dar a conhecer.

Onde é que a gravação teve lugar?
A gravação foi aqui em Lisboa. Porque eu quis gravar com este instrumento, este cravo que é meu e que eu mandei construir em Hamburgo por Mathias Cramer, seguindo o mais próximo possível o instrumento de Gottfried Silbermann, que é um instrumento muito raro também por haver pouquíssimos no mundo, pouquíssimas réplicas no mundo. O Gottfield trabalhou em conjunto com o Bach por isso é um instrumento que está absolutamente perfeito para a obra dele.

~ por pedroteixeiraneves em Abril 23, 2012.

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