joão ricardo pedro – uma entrevista

João Ricardo Pedro

É, no mundo dos livros, um desconhecido. Ou era. João Ricardo Pedro ganhou o Prémio Leya de ficção com «O Teu Rosto Será o Último». Um romance estranho e curioso, soma de várias estórias que compõem um quadro geral em torno de três gerações de uma família portuguesa. O século XX é o pano de fundo onde se vão entretecendo, ao correr de diversos acontecimentos históricos, múltiplas histórias que têm em Duarte o protagonista. É um livro feito sobre a memória ou sobre as memórias do autor, fica-se na expectativa de saber porque outros mundos poderá correr a sua veia literária. Mas um livro bem escrito, original aqui e ali no modo como se estrutura, mas onde igualmente se denota que foi escrito como uma manta de retalhos no final alinhavados. Daí que talvez essa seja o único dado a apontar-lhe, alguma falta de coesão entre partes. Em suma, o prémio distinguiu-o enquanto romance, a verdade é que temos aqui um notável conjunto de contos. Mas… ao escritor em voz própria, para que se lhe meça o pulso do dizer sobre a sua escrita.

TXT Pedro Teixeira Neves

Composto como um mosaico, com várias histórias que acabam por estabelecer diversas pontes entre si, qual foi o ponto de partida para este livro?
O ponto de partida foi só o começar a escrever. Eu não tinha nenhuma história. No momento em que me sentei a escrever eu não tinha nenhuma história na cabeça. E foi a própria rotina da escrita que ao fim de alguns meses me levou a esses personagens.

Mas qual é a sua espinha dorsal, o que aglutina todas essas personagens e tempos de acção?
O livro é um livro sobre uma família. Sobre a história de uma família, em três gerações, que atravessa o Portugal do século XX, ou a segunda metade do século XX. E portanto há um contexto histórico que está muito presente e que é importante no livro. Existem contextos geográficos, que também são importantes, portanto é um livro que assenta numa realidade muito concreta.

E muito fragmentada…
Exactamente. Mas essa forma do livro, não começou por ser assim. Eu comecei a escrever várias histórias em separado e só quase ao fim de um ano é que eu comecei a tentar juntá-las todas. E me apercebi de que se calhar essa forma de construir o livro, quase como se fossem capítulos independentes, que me agradava. Agrada-me como ritmo de leitura. Cada pessoa a cada capítulo é transportada para um cenário diferente e para uma coisa diferente.

Há mesmo certos capítulos que podem ser lidos como contos, independentes.
Exactamente. E interessava-me também que as pessoas ficassem com uma sensação de vazio; o que é que terá acontecido no meio daquilo? São momentos fundamentais das vidas daquelas pessoas, mas depois, se calhar, poderá ter acontecido uma série de coisas na vida daquelas pessoas que não são relatadas. Como não existe esta continuidade temporal no livro, agradava-me também ver esse vazio. Acaba por ser um livro pequeno, com 200 páginas, mas que abarca uma estação temporal muito grande, portanto há muito da vida daquelas pessoas que o leitor nunca fica a saber, e nem eu fiquei a saber como escritor.

E como foi aglutinar todas essas histórias e personagens. De resto, quem é o verdadeiro protagonista, o Celestino ou o Duarte?
O protagonista é o Duarte. Mas de facto no livro vão aparecendo personagens que parece que de repente parece que ganham importância em duas ou três páginas e que depois desaparecem. Mas isso também me agradou, haver personagens que parece que vão ganhar uma certa importância e que depois que nunca se chega a concretizar.

O título é também algo cifrado, porque em nenhum momento o referenciamos nas suas páginas… Pode dissecá-lo um pouco?
Há muitas coisas neste livro que eu não consigo explicar, mas se calhar o título ainda é daquelas que eu consigo explicar menos.

Mas surgiu antes ou depois do livro escrito?
Eu não tinha título para o livro, ou tive vários que nenhum deles me agradava. Durante muito tempo o livro chamou-se Buenos Aires, que é o título do último capítulo. Mas depois pensei que estava a levar o leitor a cair numa grande decepção, quer dizer, estava a levar ao engano e… de repente esse titulo acontece, aparece na minha já nem sei bem dizer porquê, mas numa noite qualquer, mais como uma frase musical do que como algo que… Soou-me bem na minha cabeça e decidi, é assim que se vai chamar o livro. Mas não consigo relacionar, racionalmente, o título com o livro.

A propósito do musical… A música também perpassa muito este livro. É algo autobiográfico? Nesse capítulo até onde vai este livro?
A musica sempre esteve muito presente na minha vida. Mas curiosamente, a música de tradição erudita, que é aquela que está presente no livro, sempre foi uma música com que eu me relacionei mas de uma forma até distante. Quer dizer não era a música dos meus afectos, nem foi a música da minha infância, nem da minha adolescência. Conhecia, tinha alguns discos, interessava-me mas com algum distanciamento. Foi a partir do momento em que o Duarte, eu decidi que ele era pianista, a partir desse momento é que comecei a ouvir compulsivamente e com grande interesse. E foi decisivo depois para a escrita do livro. Porque até essa decisão eu escrevia sempre m silêncio, no escuro e em silêncio. não conseguia sequer imaginar-me a escrever a ouvir. E a partir do momento em que o protagonista, eu decido que é pianista, passou a ser o contrário, eu deixei de conseguir escrever sem estar a ouvir música. E foram dois anos de um relacionamento muito intenso da minha parte, principalmente com a música escrita para piano. O Beethoven e o Bach em que… foram horas intermináveis a ouvir. E isso está no livro, mas foi uma coisa que nasceu durante a escrita do livro.

Mas há lá registos autobiográficos. Nomeadamente as referências futebolísticas, ao Jordão… E outras de época, o Kempes, etc.
Sim, claro. Eu sou do Sporting e o primeiro livro o protagonista tinha que ser do Sporting também. e o contexto histórico é o contexto em que eu escrevi, a geografia também é uma geografia que eu conheço, os nomes são nomes que fazem parte da minha vida. Agora é assim, eu escrevo… A única matéria onde eu vou buscar coisas para escrever é a memória. Então, obviamente que tudo o que está aí de alguma forma é um trabalho sobre a memória, sobre a minha memória, então é natural que haja aí coisas que se relacionam com a minha infância e com a minha adolescência. E já houve pessoas que leram o livro e que é engraçado já várias delas reclamam para si certas personagens. Mas não é declaradamente autobiográfico.

O que é que subjaz, metaforicamente, a esta ideia da mutilação que perpassa o livro, desde o pianista que corta a mão para esquecer o ter passado a vida a tocar para os nazis, até à mulher pintora a quem falta uma perna…?
São várias coisas. O Duarte tem um problema, que é o seu relacionamento com o seu dom, e que o leva a desistir. Ele nasce ou cresce com um dom e depois não sabe o que é que há-de fazer com ele, não é? Depois aquilo é mais causa de sofrimento do que outra coisa. E depois interessa-me também estes personagens falhados, não é? Estas pessoas que… e acho que na Literatura, as personagens mais bestiais da literatura são mesmo esses, os personagens que prometem muito, prometem muito, mas depois algo falha naquelas vidas e este livro tenho consciência que está cheio dessa gente.

E as mutilações?
Quanto às mutilações eu não faço psicanálise, não consigo explicar! Mas esteticamente é uma coisa que acho que é forte.

Que Portugal é que transparece deste atravessar de vidas em três gerações. É um país desencantado?
Alguém há dias utilizava uma expressão que eu acho que é feliz. O livro começa com o 25 de Abril, portanto é o princípio do sonho. O fim da ditadura, portanto, é o começo do sonho. E acaba com o fim do sonho. É os anos 90, é os governos de Cavaco Silva, sem querer personalizar, mas… quer dizer, para muita gente que viveu a ditadura, que viveu o 25 de Abril, de certa forma o fim da União Soviética, a liberalização da economia, o rumo que o pais tomou… e eu como escritor nem sequer senti que estava a pôr aí a minha opinião, mas quer dizer é mais como alguém que observa que é um país desencantado para muita gente, e é um país que corre o risco de chegarmos à conclusão de que não deu certo mais uma vez. E acho que é o que se sente.

E o escrever sobre a Guerra Colonial, a que necessidade ou desejo responde?
Eu obviamente não vivi isso, mas a minha família é marcada por isso também. O meu pai esteve na Guerra Colonial, os meus tios. Eu desde pequenino que ia àqueles almoços de ex-combatentes e para mim quando era miúdo fascinava-me aquilo. Adorava ouvir aquelas coisas. A guerra para um miúdo é uma coisa fantástica. Os meus filmes preferidos eram o s filmes de guerra e eu tinha um pai que andou na guerra e tenho um pai que andou na guerra e que me contava essas histórias em voz própria.

Nessas idades o mundo é ainda muito a preto e branco, maus de um lado, bons do outro…
Exactamente, mas o mias engraçado na nossa guerra é que a nossa guerra, para uma grande parte da população que participou na guerra nós éramos os maus. Enquanto que por exemplo os americanos, ou a segunda guerra mundial, se formos pensar nos filmes feitos sobre a II guerra Mundial, é muito fácil fazer um filme sobre ela do ponto de vista do americanos. Eles são os bons, os alemães os maus. É mais ou menos pacífico, as guerras coloniais são muito mais complicadas. Nós estivemos lá como portugueses a combater mas se fizermos um distanciamento… nós estávamos do lado dos maus, não é? Isso cria marcas muito grandes nas pessoas.

~ por pedroteixeiraneves em Abril 26, 2012.

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