manuel botelho – uma entrevista a propósito de «confidencial/ desclassificado»

Uma G3, uma Kalachnikov… Frias, secas. De perfil, o recorte da morte. Durante semanas, Manuel Botelho esteve em “campanha” no Museu Militar. A fotografar. Primeiro, armas, depois o mais que julgou por bem encenar para reviver um trauma nacional: a guerra nas ex-colónias. Exercício pessoal, de si para consigo, de si para com as suas memórias e vivências, exercício que (se) quer também colectivo. A bem de um país que nunca olhou para as feridas, que nunca soube cicatrizá-las, esperando que o tempo as esvaísse. Em vão: há feridas que jamais desaparecem debaixo da pele. Aqui, nestas fotografias reunidas sob o título «Confidencial/ Desclassificado», tudo remete para a carne, para o brutal das imagens. Os corpos em desvario, os olhares insanos, vazios e ausentes, o delírio de composições sob a marca da morte e da loucura. Insânia que é de ontem e de hoje, que foi a da nossa guerra e é de todas as guerras, e daí talvez as alusões estéticas de algumas composições, fazendo pontes com obras de arte do passado, ou a lembrança sempre presente e actual de atrozes comportamentos de guerra na contemporaneidade. Manuel Botelho é, nas artes plásticas portuguesas, dos poucos a trabalhar uma tal matéria, a da guerra, a de um tempo histórico que sob o ponto de vista artístico pouco foi abordado – estranhamente, diga-se. A literatura, é um facto, regista alguns testemunhos e abordagens, de Lobo Antunes a Assis Pacheco, passando por Liberto Cruz ou João de Melo, as artes plásticas pouco o fizeram — e aqui há que salvaguardar e mencionar o caso atípico de Ana Vidigal. Manuel Botelho, por seu turno, fá-lo há muito: com grande impacto e emoção. Aqui a entrevista, o discurso directo, pungente, lúcido, importante. A exposição está patente na Fundação PLMJ, na Rua Rodrigues Sampaio, 29, em Lisboa.

TXT: Pedro Teixeira Neves

Manuel Botelho, como chega a esta exposição, de fotografia, depois de anos a fazer sobretudo pintura e desenho?
Esta exposição é uma espécie de síntese de um conjunto de séries de trabalho que tenho estado a realizar desde 2007, sensivelmente. Tinha feito umas pinturas, andava com o tema da guerra colonial na minha cabeça e houve um momento em que eu comecei a sentir que através da pintura não estava a conseguir os resultados que queria. E então pensei em mudar de meio de expressão.

A fotografia surgiu então como modo de tornar a realidade mais pungente. Mas o que é que a pintura não lhe dava?
A pintura não tinha capacidade para agarrar o real da maneira que eu precisava. Eu queria uma coisa que fosse mesmo muito precisa e por isso comprei uma máquina fotográfica e como não sabia muito bem o que é que havia de fazer… mas sabia uma coisa. Eu precisava de partir de objectos verídicos, de coisas verdadeiras, coisas reais e por isso tive a ideia de fotografar armas, foi a primeira coisa que eu fiz. Fui bater à porta do Museu Militar e fui muito bem recebido, pelo então director, Coronel Ribeiro de Faria, foi uma coisa fantástica…

E explicou-lhe ao que ia?
Não, não lhe expliquei, porque nem eu sabia sequer. Eu só lhe disse: olhe eu venho cá, queria fotografar… Para já quero fotografar uma G3 e uma Kalachnikov, as armas emblemáticas da guerra… E ele disse sim, acolheu-me muito bem, perguntou-me o que é que eu queria mais e eu disse-lhe que não fazia a mínima ideia, que no momento só queria fotografar armas, e ele arranjou-me um espaço. Fui então para o Museu Militar e instalei-me num espaço, quando eu cheguei ao Museu Militar o espaço que eu pensei que seria para mim, ele disse: não esse não é muito bom… parecia um milagre, de repente eu vi-me numa sala enorme, descomunal, um sargento a tomar conta de mim, com umas Kalachnikovs e umas G3… e estive ali a fotografar. Depois estive um dia, dois dias, três dias e às tantas perguntei se podia já agora fotografar uma Mauser, que os portugueses também usaram, depois se podia fotografar as PSH, armas utilizadas pelos movimentos de libertação, e eles iam-me trazendo as armas e eu nunca mais ia embora dali, e então fotografei dezenas e dezenas de armas, porque realmente o Museu Militar tem um acervo enorme de armas, umas utilizadas por nós e as outras apreendidas pelas nossas tropas aos movimentos nas três colónias.

A partir daí, como partiu para o desenvolvimento deste projecto, que passa por composições encenadas, inclusive pela autorrepresentação?
O que sucedeu foi que às tantas comecei a ficar sem ideias sobre o que havia de fazer. Porque eu já tinha fotografado as armas – e como eu não percebia nada daquilo, fotografei-as imensas vezes… Mas o que importa é que a certa altura comecei a precisar de fazer outra coisa. Tinha um “estúdio” fantástico no Museu Militar, com aquelas coisas todas disponíveis, e comecei a pensar: como é que eu vou fazer agora isto evoluir, uma vez que esta ideia de fotografar friamente armas está resolvida? E comecei a pensar em introduzir nos trabalhos factores narrativos em que utilizei ideias que tinha começado a desenvolver nos desenhos. Não de uma forma literal, mas de uma forma mais ou menos elíptica. E foi assim que depois começaram a aparecer os trabalhos onde eu sou figurante, os primeiros onde eu me confronto a mim próprio como se estivesse a olhar para mim, personificando coisas. Eu não tinha possibilidade de utilizar actores, naturalmente, pois estava no Museu Militar, não podia levar para lá ninguém, isso era um dado à partida, portanto, eu só me podia usar a mim e usei-me a mim próprio! Não teve nada de extraordinário, nem correspondeu a ruptura nenhuma porque eu já tinha feito isso imenso no meu trabalho, a minha pintura está pejada de autorrepresentações. A maior parte das vezes não é porque seja eu que sou aquela pessoa, ali eu sou apenas um actor, um actor que está a personificar aquelas figuras, figuras que estão a ser evocadas nos trabalhos.

Falou em narratividade, a contar uma história qual é a que estas fotografias contam?
Uma coisa que eu comecei a fazer foi olhar para as pessoas, porque a motivação principal para eu retomar este tema foi eu ter começado a pensar nas pessoas que fizeram a guerra e nas cicatrizes todas que estão nessas pessoas. Porque eu, quando era novo, sempre fui contra a guerra, e continuo a ser – em termos políticos sempre fui de oposição, sobretudo relativamente a essa ideia de que Portugal podia ser um país com colónias. Eu discordo, sempre discordei, sobretudo no momento histórico de que estamos a falar, como é evidente. De facto manter as colónias era um absurdo, isto numa altura em que todo o mundo já tinha descolonizado. Era uma inevitabilidade que Portugal tivesse que negociar uma forma qualquer de autonomia, esta ou outra isso agora não está em questão. Mas esse assunto ficou resolvido historicamente e eu, nesta fase da minha vida, já com uns anos avançados, penso que não precisava para nada de voltar a ir buscar esse cadáver à sepultura. Ele está bem enterrado e não precisamos de nos preocupar mais com essa questão. Mas podemos, e talvez devamos, preocupar-nos com outra coisa, que é essa dimensão pessoal que sobrevive nas pessoas. E foi essa ideia, de ir ver o que é que está por dentro, o que é que está gravado na pele, o que é que são as cicatrizes, os traumatismos que resultaram daí, que me interessou. Comecei a pensar no que é que era a vida das pessoas naquela situação de isolamento, ou a pensar no que é que seria uma pessoa que fez a guerra afrontar o que fez durante a guerra, ou o que é que seria uma pessoa pensar o que é que foi a amputação em termos amorosos e mesmo sexuais… O que é que é a vida, no fundo, a abnegação terrível a que as pessoas são submetidas nessas circunstâncias. Mais, comecei a pensar não só as pessoas que estiveram lá, na guerra, no terreno, mas também nas que ficaram cá – essa dimensão minha não está aqui nesta exposição, ou está, nas entrelinhas, mas está em desenhos meus.

Como comenta o aparente paradoxo entre um tema que renega, a guerra, as armas, e a sua abordagem estética, ou mesmo a sua estetização?
O meu objetivo é, através deste meio expressivo, levantar novamente uma questão. Essa questão evidentemente que está envolvida numa manifestação que tem uma dimensão estética. Mas eu desejo, ou pelo menos a minha intenção é essa, é que dentro dessa manifestação estética esteja um conteúdo. Esse conteúdo, que eu considero ainda político. Não é um conteúdo político que se entenda e pretenda à luz de um olhar antigo, de uma visão muito a preto e branco, aquela visão que nós tínhamos dos bons e dos maus, isso está resolvido. Não é isso que está aqui, mas existe continua a existir uma dimensão política a outro nível e que se prende de facto, inclusivamente, com a vivência individual de cada um. Às vezes mesmo a tragédia dessa vivência individual.

Quanto ao título escolhido para esta exposição, «Confidencial/ Desclassificado», quer descodificá-lo um pouco?
“Confidencial/ Desclassificado” foi uma denominação que eu arranjei em diálogo com o João Pinharanda, que quando eu comecei a tratar esta temática era o comissário das minhas exposições. Na altura, eu tinha já uma série de títulos possíveis… Mas uma das coisas que aparece em muitas fotografias são essas palavras, “Confidencial” e “Desclassificado”, porque justamente tem a ver com a revelação de uma coisa que esteve escondida, e eu penso que isto tudo é muito metafórico em termos de tudo o que eu tenho estado a fazer, essa ideia de que se está a revelar um coisa que esteve escondida.

Dentro de si?
Escondida dentro de mim e provavelmente dentro das pessoas todas. Porque a verdade é que a guerra colonial não foi nada bem assimilada pelo país. Foi um tema maldito… Nesse sentido, de certo modo, este retomar desse tema é também uma atitude política.

E de exorcismo? É também disso que se trata?
Tem uma dimensão também de exorcismo, certamente que sim. E eu desejo é que esse exorcismo provoque, ou seja, se integre num exorcismo colectivo. Isto é, eu penso que o país tem que fazer as pazes consigo próprio em torno deste tema, que é um tema que não está esquecido e é isso que é extraordinário. O país pôs uma pedra, colectivamente o país pôs um manto de silêncio em cima disto, mas em privado as pessoas que viveram o drama da guerra falam nela. Sempre falaram nela, imenso. este assunto não ficou esquecido pelas pessoas, ficou esquecida pelo colectivo, que é uma coisa muito estranha.

E ficou também por tratar pelos artistas em geral, talvez menos na literatura, mas ainda assim tardiamente e pela rama…
Imensamente. A verdade é que vamos à procura de obras de artistas que tenham trabalhado este tema e vamos encontrar muito poucas. No fundo o país ficou mal com esta questão em todos os quadrantes. E isso tem um efeito perverso, que é fazer com que um fenómeno que é da nossa história, que Portugal tem que assumir como uma coisa da sua história, seja remetido ao silêncio. Ora, as coisas históricas não se põem debaixo do tapete, nós não escondemos Alcácer Quibir… Nós temos de ser capazes de viver em paz com a memória deste acontecimento. E para isso temos que falar nele.

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~ por pedroteixeiraneves em Maio 2, 2012.

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