gonçalo tocha – «é na terra, não é na lua» – uma entrevista

Primeiro, venceu o Doc Lisboa, e todos os que o tinham visto garantiam tratar-se de um documentário genial. «É Na Terra, Não É Na Lua», de Gonçalo Tocha, viria a comprová-lo nos meses seguintes, ganhando sucessivos prémios. Visto por milhares de pessoas, continua a surpreender, dentro e fora de portas, este olhar intimista a uma comunidade de pouco mais de 400 pessoas – a da ilha do Corvo, em pleno oceano Atlântico, para lá de onde possamos imaginar o vazio e a distância. Ontem, Gonçalo Tocha viu o seu trabalho ser eleito o melhor documentário do 55º Festival Internacional de Cinema de São Francisco, nos Estados Unidos. Aqui na terra, há poucas semanas, uma conversa com o realizador por ocasião da estreia em salas de «É Na Terra, Não É Na Lua».

TXT Pedro Teixeira Neves

Gonçalo, gostava que começasses por descodificar um pouco a escolha deste título.
O título remete, e é aquela visão que temos à partida, para um sítio que não conhecemos, de um sítio muito isolado e longínquo que nós pensamos que não pertence a este mundo. Um espaço associado a uma ideia de espaço lunar, distante, incompreensível. E o Corvo é um espaço mítico propenso a essas visões. Não há relações neutras sobre o Corvo. Todas as pessoas que eu conheci, que passaram pelo Corvo, têm relações de amor e ódio. Não há meio termo. E eu antes de chegar ao Corvo fui realmente conhecendo essas pessoas e há qualquer coisa de um espaço, completamente no limite da civilização, e que está sempre aberto a essas visões que o titulo tem como referência. Mas há outra: há um diário, que aparece no filme, que me foi revelado por uma pessoa do Corvo, que escreveu vários artigos… portanto, ele tem um diário ao longo de 40 anos, e dentro desse diário tinha artigos que publicou nos anos 70, depois de o Homem ter ido à Lua, em 69, e ele dizia, na altura o Corvo não tinha quase nada e ninguém se preocupava com o Corvo, e ele dizia, atenção, está toda a Humanidade virada para a Lua, mas aqui na Terra há espaços ainda mais desconhecidos do que a Lua.

Não havia portanto uma espécie de self statement de ti para ti próprio, remetendo-te para as tuas raízes açorianas, intimando-te a partir em busca de ti mesmo?
Não, o título surge quase só no final da rodagem.

A chegada recente às salas nacionais é fundamental para que o filme se cumpra?
A estreia é o culminar do percurso do filme, o seu ponto mais alto, é para isso que nós trabalhamos, para que os filmes cheguem às salas e sejam vistos pelo maior número possível de pessoas. O filme foi bem acolhido, quando passou em Outubro no DocLisboa, conseguimos ter 1300 espectadores em três sessões, que estavam esgotadas e até conheci pessoas que o tinham ido ver duas vezes.

A que atribuis tal sucesso e adesão?
Não sei bem, acho que passa pelo fascínio que a ilha do Corvo tem. Creio que toda a gente se sente fascinada por saber o que é que acontece neste limite.

E o que é que ali acontece?
Acontece o que acontece à Humanidade em todos os lados. A vida repete-se nos seus mecanismos, de busca pela sobrevivência.

Mas com outro ritmo, não?
Sim, isso sem dúvida que ali o tempo tem outro peso, outro ritmo. Já os Açores, num todo, têm um outro ritmo, e o Corvo ainda um outro.

E isso influi nas pessoas, no seu modo de ser?
Inevitavelmente. São as marcas do corpo, em virtude do seu contexto geográfico muito particular. É uma ilha, mas na verdade pode ser considerado um ilhéu, são 17 quilómetros quadrados, e dentro desse espaço a ilha é um espaço ainda mais minúsculo, onde só vivem quatrocentas pessoas. Não há uma outra vila para ir, ao lado. Isto, isto mexe com qualquer pessoa que ali possa viver. Mas se pensarmos que há 500 anos que já existe vida no Corvo, podemos imaginar o que é que terá sido viver ali antes dos grandes desenvolvimentos mais recentes.

Imagino que não se entre de forma impune ou ligeira num universo tão sui generis. Como fizeste a abordagem?
Um bocado a matar… (risos) Fui directo com a câmara. Eu sabia que normalmente as sociedades pequenas e fechadas se protegem do estranho. E eu era um estranho, eu, quando ali fosse, seria sempre um estranho, e então parti desse pressuposto: ok, então, sendo assim, vou assumir tudo claramente desde o início e vão ter que olhar para mim como o homem câmara. Portanto eu serei o homem-câmara e não serei simplesmente uma pessoa que está de passagem pelo Corvo. E isso marcou todo o início e a relação até ao final, isso criou todo um jogo de cumplicidades, que não era só comigo era com a própria câmara também. Tudo era cinema a partir daquele momento.

Seres o homem-câmara e não o homem por trás da câmara fez toda a diferença?
Acontecia tudo ao mesmo tempo, eu colocava a câmara no tripé ou punha a câmara à mão, ou entrava dentro do plano ou não, porque eu tinha e queria falar com as pessoas, e eu não tinha câmara man, eu só eu e tinha que fazer tudo ao mesmo tempo. Por outro lado, creio que obedeci a um princípio que logo interiorizei, se eu estou a filmar 440 pessoas, eu também terei de entrar neste processo. E essa dádiva, de estar por dentro do que se está a passar ao longo de dois anos, com idas e vindas e voltas, é que resulta neste filme em que é tudo um espaço em aberto em que a própria ilha se transforma no filme também. Há coisas que eu filme e que por via de as ter mostrado mais tarde, às próprias pessoas do Corvo, mudou certos acontecimentos.

Isso tem que ver, de algum modo, com o cunho pessoal e autobiográfico que tendes a pôr nos teus filmes? Como por exemplo já acontecia no «Balou».
Com este filme não aconteceu propriamente isso. Aqui tratou-se de ver até onde eu conseguia chegar. E já que era um espaço no limite achei que o filme tinha também de ser no limite, e a montagem do filme seguiu esta energia inicial da rodagem. Por isso, acho que este filme pode ser uma viagem, é um livro de bordo de uma grande viagem de dois anos no Corvo. É como naqueles livros dos primeiros exploradores, que chegavam a sítios desconhecidos e nós podemos, ao ler os seus relatos, acompanhar todos os seus pensamentos e emoções ao entrarem e descobrirem esses novos mundos. Do início ao fim, vendo todo o processo e não apenas o seu final. E este filme é também uma viagem guiada por nós, pelo nosso olhar, onde a pessoa que vê o filme pode, vai descobrindo ao mesmo tempo que nós estamos a descobrir, é como se estivesse no meio da rodagem.

Que tipo de investigação prévia fizeste?
Fiz investigação documental, de documentos históricos, porque estava à procura de histórias, de mitologias da ilha. Os Açores são um espaço único nessa matéria e o Corvo ainda mais. Eu estava à procura dessas histórias, por isso li bastante o que existia. Sobre o modo de vida actual no Corvo eu tinha algumas ideias, sobretudo pelo que me tinham contado, mas deixei tudo muito em aberto, porque sabia que era uma sociedade que estava num processo de mutação muito rápida. Uma coisa que me dissessem um ano antes já não seria a mesma quando eu fosse filmar, e eu não queria fossilizar o Corvo, queria deixar todo um arquivo em aberto, contemporâneo, e que sobretudo no filme houvesse espaço para o que de novidade pudesse acontecer. Tudo o contrário que nós podemos achar de um sítio pequeno, onde nada se passa, ali tudo estava a acontecer e a surpresa era constante.

Dizes, de algum modo, que os filmes te acontecem. Este reconhecimento todo que tens ganho fez-te, desde já, saber para onde queres ir?
O caminho faz-se… Eu, de facto, nunca fiz qualquer previsão relativamente ao filme do Corvo, não sabia o que é que ia acontecer. O único trunfo que tinha era tempo e disponibilidade para viver este filme, e esperava que me levasse a algum lado.

Para além do filme que temos oportunidade de ver nas salas, de fora ficaram horas e horas de filmagem. O que fazes a essas horas de filmagem?
Essa é uma grande questão, com a qual eu me debato! Estou a pensar se posso fazer alguma coisa em termos de extras, talvez para um futuro DVD que o filme possa ter. ou então servirá para o futuro, há qualquer coisa de memória para o Corvo que é muito importante e que está nestas duzentas horas que filmei.

Os habitantes do Corvo têm consciência disso?
Sim, sim. Eu mostrei-o em primeira mão às pessoas do Corvo e eles disseram, este filme, basta dez ou quinze anos, já vai ter um valor documental e histórico que nos vai surpreender, porque ali joga-se muito a questão da memória contemporânea e actual, isso é que torna muito forte as coisas, quando as fazemos com tempo… Este filme começa em 2007, numa fase fulcral que é de transformação radical no espaço de poucos anos, por oposição a séculos em que nada aconteceu. Isso transforma toda uma comunidade, cria contrastes e ambiguidades e tudo o que é fascinante na vida humana, e é isso que este filme acompanha, uma transformação radical da vida, num jogo complexo entre o moderno e o antigo, o rural e o urbano, entre o presente e o passado, quase numa escala de maqueta.

~ por pedroteixeiraneves em Maio 4, 2012.

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