josé eduardo agualusa – uma conversa sobre «teoria geral do esquecimento»

Quase sempre é necessário um esquecimento
«Teoria Geral do Esquecimento»
Dom Quixote

Teoria Geral do Esquecimento. Angola, anos da revolução em Portugal, dos processos em marcha acelerada rumo às independências nas ex-colónias. No meio dos acertos de contas, dos excessos revolucionários, uma mulher vê-se sozinha e face às contigências decide emparedar-se num prédio. Passa a viver sozinha a sua solidão, longe dos ódios e dos medos. Cria outros, conhece o frio, a fome, a dor. Para se defender escreve, alimenta-se de palavras. É que lá fora vão sonhos acesos pelos dias, como por vezes cães pela noite… Ludo guarda um segredo, transporta nela um passado como ferida que vai medrando com o passar dos anos. Rodeada de livros, de um cão, gravitam em torno da sua vida, mesmo que de forma imprecisa, estórias cujas pontas soltas mais tarde virão a juntar-se à sua porta sob a forma de muitas personagens. Situação improvável, nada de mais plausível do que o surreal em que a realidade por vezes se veste. José Eduardo Agualusa escreveu um belíssimo e engenhoso romance. Mais um. Já era um caso sério nas letras em português, é forçoso que seja lido mais e mais. Nas suas histórias esconde-se e descobre-se a História, nas suas entrelinhas enredam-se personagens feitas de carne e osso, mas que amiúde se podem confundir com o sonho. De tudo isso se faz esta notável literatura. Uma conversa breve num dia de Verão, antes da partida do autor para terras de Vera Cruz.

TXT Pedro Teixeira Neves

José Eduardo, quando é que a Ludo, a protagonista deste romance, entrou pela primeira vez na tua vida?
Eu não me lembro exactamente quando foi a primeira vez que esta mulher, a Ludovica, ou Ludo, me surgiu na cabeça. Portanto, esta mulher que se empareda num prédio de luxo, em Luanda… Lembro-me, sim, de há uns oito anos, um realizador português, ter vindo a minha casa, querendo, propondo-me que eu fizesse um guião. Eu, na altura, já tinha esta ideia para escrever um romance e sugeri-lhe que a aproveitássemos, que partíssemos dela. Ele ficou entusiasmado, assinámos um contrato e eu realmente escrevei o guião.

O facto de a ideia original ter sido para a escrita de um guião condicionou de algum modo a estrutura narrativa do romance?
Não, absolutamente nada. O que sucedeu de diferente, digamos, foi que, pela primeira vez, ao partir para um romance, eu tinha um esqueleto anterior. Mas, sim, o que eu fiz foi reler o que já tinha, lembro-me que reli, de facto, o roteiro, mas depois esqueci-o. E portanto quando avancei para o romance, depois deixei que tudo acontecesse como normalmente acontece, ou seja, que os personagens tomassem conta do enredo. E portanto o livro é muito diferente do roteiro que escrevi, sem dúvida que há-de ser muito diferente do roteiro original, porque já nem me lembro bem dele.

A início, a Ludo era a única personagem que existia ou já havia outras?
Não, não era a única. Era o ponto de partida, ,mas já havia outras personagens; tal como, lembro-me, havia outras personagens que não estão no livro e havia personagens que estão no livro e não estão no roteiro. Então, mudou bastante, sim. Mas não tenho uma ideia muito clara, porque não voltei a ler, mas seguramente mudou muito. De qualquer forma, num livro cabe sempre muito mais do que num roteiro.

Uma pergunta clássica: quanto de ficção assiste ao surrealismo que atravessa estas histórias, sabendo nós que muitas vezes, e Angola é pródiga nisso, a realidade acaba sempre por surpreender a melhor ficção?
(risos) É ficção pura, tudo, tudo. Bem, tem umas partes… Tem, é verdade, um capítulo sobre os desaparecimentos em Angola em que os dados são reais, aqueles desaparecimentos dos aviões, etc. Que são inacreditáveis!… Mas isso… as partes mais inacreditáveis são normalmente as verdadeiras, enfim, aquelas que aconteceram na realidade.

Sobretudo nesse capítulo sobre o colecionador de desaparecimentos…
Exacto. Pronto, nesse capítulo do colecionador de desaparecimentos, há uma série de histórias, de desaparecimentos, de aviões, etc., que são tirados à realidade.

Que memórias tem desses tempos de Angola na convulsão do pós-25 de Abril?
Tenho muitas memórias. Eu tinha 15, 16 anos e vivi até com muita intensidade esses tempos. Foi um tempo de euforia colectiva e eu vivi isso com muita intensidade.

Que tipo de exercício foi necessário fazer para entrar numa personagem tão dilacerada por dentro e que para mais toma uma decisão tão drástica de se emparedar num apartamento durante décadas?
É… Eu acho que demorei tanto tempo a escrever este livro porque tinha receio disso mesmo, tinha receio de me colocar, ou de não ser capaz de me colocar na pele desta mulher. E então fui adiando o livro porque não me sentia capaz de o fazer. Por outro lado, esse mesmo facto levou-me a viver durante tanto tempo com ela, com a personagem, o que, quando finalmente comecei a escrever o livro, fez com que o processo não tenha sido já tão difícil. Mas vivi muito tempo com ela, de facto, muito tempo mesmo, sempre pensando nisso. O que faria se estivesse nessa situação de viver numa casa como se fosse numa ilha… Realmente, como é que a pessoa poderia sobreviver e por aí, onde arranjaria comida, como relacionar-se com a solidão, como escudar-se do mundo exterior. Portanto, eu próprio durante anos fui imaginando estratégias de sobrevivência de forma que quando comecei a escrever o livro tudo isso já estava relativamente claro na minha cabeça.

E já tinha claro como tantas pontas soltas – pequenas estórias, afinal todas de uma só e grande história – viriam a colar-se?
Não, para mim, essa é a parte sempre misteriosa nos livros e a que me agrada mais. Não, de modo nenhum. No meu caso, há uma série de histórias circulares, histórias que circundam a personagem principal, e que são a princípio autónomas, parecem ser episódios soltos, e depois começam a colar-se à história principal e no fundo, no fim, tudo converge. Inclusive há um capítulo em que todos estes personagens surgem à porta da Ludo. Não sabia que isso ia acontecer, não sabia realmente, eu acho que se alguma coisa aprendi ao longo destes vinte anos, vinte e tantos anos de escrita, foi a dar liberdade às personagens e a tentar segui-las. Eu acho que o que o escritor tem a fazer é tentar seguir os seus personagens e deixar que eles vão construindo a acção. E para mim isso é sempre o mais misterioso, como essas histórias soltas se vão ligando e no fim a gente percebe que aquilo tudo faz parte de um mesmo universo.

Aprendeu também a não demonizar nenhuma das suas personagens? Isto porque aqui não há notoriamente bons de um lado e maus do outro, o que em contextos revolucionários é sempre fácil equacionar… E definir, ainda que inconscientemente, o bem do mal é sempre uma tentação fácil…
Isso porque a vida é assim mesmo. Acho que quando conhecemos as pessoas percebemos isso. Quer dizer, os monstros nunca são totalmente monstros, há alguma coisa de humanidade sempre dentro dessas pessoas, mesmo dentro daquelas que constroem monstruosidades, como dentro dos heróis há sempre um lado escuro. As pessoas são isso mesmo. Muitas vezes o que acontece é que as circunstâncias puxam por um lado ou puxam pelo outro. Eu acho que em situações de ausência de Estado, ou em regimes totalitários, o lado escuro das pessoas tende a emergir. E em regimes democráticos, em sociedades estáveis e saudáveis, o lado mais luminoso das pessoas tende a emergir. E é sobre isso que eu também tento reflectir neste livro. Essas pessoas, estas personagens… eu acho que este é um livro no qual as personagens são todas, mais ou menos… são resgatadas no fim, não é? E elas são resgatadas quando se entregam ao outro, quando se entregam por completo ao outro.

Um livro que enuncia a possibilidade de uma teoria geral do esquecimento, é curioso e algo paradoxal que fale muito sobre memórias, não acha? É preciso lembrar para esquecer?
Eu diria que este livro tem alguma coisa que ver, tem alguma ligação, na minha cabeça foi sempre assim, com «O Vendedor de Passados». «O Vendedor de Passados» é sobre identidades, sobre criação de identidades ou construção de identidades. E este livro tem também a ver com isso, tem a ver com o facto como as pessoas podem ou não mudar de identidade, escolher ou optar por outras identidades. E isso passa fatalmente pela memória e também pelo esquecimento. Neste livro há isso, há isso, há personagens que foram esquecidas, como a personagem principal, esta Ludovico, e há personagens que buscam o esquecimento como forma de redenção, então todo o livro joga com isso. Acho que para construir ou para reconstruir identidades, quase sempre é necessário um esquecimento.

E o sonho também, é também ele necessário? O livro termina com um sonho…
O sonho também, mas os sonhos estão em todos os meus livros. O sonho sempre me foi muito importante. Sonhar para mim é muito importante para construir, para criar, por isso estão nos meus livros.

~ por pedroteixeiraneves em Maio 31, 2012.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: