adaptação a spoken word do conto «uma visão do mar», de dylan thomas – para a voz e (des)empenho de tiago gomes

Uma Visão do Mar

no pino do verão um rapaz ondulando ao milho
cabelos de sol pássaros por cima assobiando as árvores
num alvoroço de azul. também o cheiro a vento
coelhos e gado e depois o rio os dedos
a imaginação com majestosos olhos de peixe
coroando uma princesa afogada. presa a uma rede
de pescadores as tranças como cordas partidas
de violinos em acordes de melodias negras. ah!
um verão assim: primeiro e inaugural
tangido a mosquitos pombos e cotovias
que juntos faziam pensar em deus. ah!
sim há-de haver qualquer coisa de milho
na ideia luminosa de deus – afinal ambas as visões
nos tolhem as palavras e por vezes até podem ser lindas
mesmo que nos pareçam ideias escondidas em casas nas florestas.
pela sétima árvore sim pela sétima árvore
ela refulgiu num vestido de algodão rasgado – o sangue
das amoras alastrando em volta da boca confundindo-se
com as unhas pretas – partidas. em menos de um segundo
os melros desabando num sobressalto de milho
e como antigamente vieram sombras contraindo-se
como casacos demasiado apertados em ombros demasiadamente largos
como horizontes que a cada instante mais e mais estalassem – socos
de verão. sim uma rapariga do campo sobre a relva
pode ser tão alta como o mais alto tédio de um domingo. Isto claro
a não ser que um ninho no ramo mais frondoso de um sorriso:
«andavas aos ninhos?» — disse-lhe sentando conversa.
desceu então para o terror do sangue que lhe transformava o peito
num batuque de tigres e tesouras afiadas
prontas a cortar-lhe o ar e a língua. quieto viu o verão afogar-se
sob os seus pés e as folhas rebentarem como canais que as águas em fúria
desprezassem. como um sol os seus cabelos ruivos
toldaram-lhe a visão salvífica da casa do tio impossibilitando-lhe
os montes os caminhos os atalhos para longe de si mesmo. disse
como se atirasse uma pedra: «isto é a morte convulsa
a percutir-nos a cara ao espelho». era a boca dela a chamá-lo
para dentro de uma cova no meio do bosque no meio das férias.
um beijo como rasgão secou a história. tudo era agora tal como era
antes da história: o rio um rio o monte um monte os cumes cumes
as árvores árvores – assim tal como os conhecera Jarvis um século havia
quando por ali passeara cavalos e amantes.
— de onde vens? – ela
— do Vale de Amman – ele
— tenho uma irmã que vive no Egipto numa pirâmide…
ela vai: arrastar-me correr comigo chocalhar-me dentro dela levar-me para uma cova
enfiar-me uma faca na barriga
e depois dizer-me: em cada um dos sete montes vou ter um bebé.
por entre os insectos a tarde morria
era a luz que alisava os campos os cabelos e a saia. depois rebolou
para a escuridão. foi quando ele acordou para gritar palavras duras
ao mundo e rodopiou para o Éden onde entreviu o livro dos dias
o polegar do homem atravessando jardins insubmissos
subindo escadas infindáveis como ramos pássaros e folhas.
— acorda – ela disse-lhe por dentro das sombras
que agitavam os seus olhos azul-marinho. a sua mão no seu peito
disse-lhe ainda a cor dos mamilos no seu coração cristal.
correram então de mãos dadas pelas urtigas de silêncio e sol
rebentando no mar sobre a areia e a pedra.
por entre as sete árvores entre uma coruja e uma gaivota
o rapaz pôde escutar os pássaros que se lhe dirigiam:
«tu uít tu uu não arrisques mais não arrisques mais».
na mão dele sim a mão dele era agora um traço uma corrente
a rasgar as ondas e a espuma que aos seus pés escorria
sob um mar de gaivotas. para trás ficava a rapariga assustadora
enevoada agora em sete sombras de Lua.
sol sol outra vez sol… um calor de cardos e zangões
e a voz metálica da rapariga de algodão: vem vamos correr
até ao mar o peito ondeando a linha de sargaço
onde o mar seco de tantos séculos e sede um dia saudou o próprio cristo
sujeito às tempestades do amanhã. Quando gritou: «volta volta»
o corpo dela era já apenas uma gota de água branca nas marés
que nela se saciavam como corais e o sino do coração dela
tilintava tilintava tilintava por entre os corpos e animais marinhos.
— volta, volta… foge do mar foge foge… — gritou-lhe com gritos de vento
que se perdiam sobre as dunas e dissolviam como memórias gastas.
eram cegos os seus gritos ele mesmo personagem sussurrada
na crista das águas. – era uma vez… — disse a voz rouca das ondas
e era como o crocitar de um corvo que repicava relâmpagos e trovões:
— eu sou a coruja e o eco. Na linha do horizonte um velho
construía um barco. um pombo foi a bordo e deslizou seguindo o corvo
ao mesmo tempo que uma chuva fresca desmaiava
cintilando as rugas do velho cujos olhos eram mãos.

~ por pedroteixeiraneves em Junho 18, 2012.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: