antoni muntadas – uma entrevista

Antoni Muntadas

É um dos mais reputados artistas plásticos espanhóis no activo. Antoni Muntadas nasceu em Barcelona e vive em Nova Iorque desde 1971. A sua obra, essa, espalha-se pelo mundo em colecções diversas. Vinda do Centro Reina Sofia, em Madrid, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, abre portas, até 2 de Setembro, a uma (a)mostra representativa do seu trabalho. Pioneiro na reflexão entre Arte e Media, bem como na abordagem das relações entre poder e arte, as obras aqui presentes essas preocupações isso mesmo traduzem. Um artista e uma obra à descoberta, também pelas palavras na primeira pessoa do singular. Por ocasião da sua vinda a Lisboa, ficou a breve entrevista que se segue.

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Antoni, a que aspira um artista: questionar ou tentar responder ao mundo à sua volta?
Bem, eu creio fazer parte de uma geração de artistas que se preocupou em questionar-se e perguntar-se sobre coisas reais, coisas que são parte da nossa paisagem, uma paisagem que incorpora outras visões, quiçá políticas, sociológicas, económicas, culturais. Artistas que tentaram levantar perguntas muitas vezes latentes mas que não se colocam. Dificilmente, no entanto, penso que os trabalhos dêem respostas. São perguntas, são extensões destas perguntas, são observações.

Qual o seu processo de trabalho, como avança para uma nova obra?
Eu creio que todos os trabalhos, no meu caso, começam pela curiosidade, em tentar saber algo mais sobre as coisas. O facto de eu investir durante algum tempo num projecto – porque os projectos me tomam tempo, podem levar dois anos, três anos, por exemplo, o trabalho do tapete aqui presente é um trabalho que durou dez anos… –, isso faz com que o processo em si nos dê a oportunidade de ir entendendo, compreendendo e informarmo-nos mais sobre certas coisas. Ou seja, o tempo que se destina a certas coisas dá-nos a oportunidade de as conhecermos melhor. E evidentemente, é muitas vezes nessas ocasiões que o trabalho se torna crítico. Se conhecemos muitas particularidades de uma coisa então aí, nesse instante, começamos a ver as suas imperfeições, ou podemos ver as fissuras ou as situações que não resultam. E aí começam as questões, começam as obras.

Portanto, nesse momento as questões intensificam-se?
As questões estendem-se ao público, são perguntas que me faço primeiro a mim próprio mas que depois abro à audiência. No fim de contas, os trabalhos fazem-se para si mesmo, mas em nenhum momento pensamos que não terão um público. Ainda que se trate apenas de uma pessoa, creio que é muito importante encerrar o ciclo com o leitor, com o observador ou com o público. Penso que o autor tem uma responsabilidade e o público outras.

E qual a responsabilidade do público, sobretudo num tempo sem tempo como este, em que tudo acelerou e todos se queixam de não ter tempo?
Eu uso uma frase que em inglês é “warning perception requires involvement”. A tradução seria: “atenção, a percepção requer empenho, participação”, que é uma chamada ao público a querer saber mais, a aprofundar… Creio que é um problema de percepção: não só ver, antes ver, olhar e perceber, no sentido de racionalizar o que cada um vê e tentar entendê-lo. Portanto, creio que essa é uma função do público. Eu sou público em relação a outras coisas, e creio que temos esta responsabilidade. São as intenções que uma obra propõe. Dificilmente uma obra chega a uma terceira, quarta, quinta leitura, se não há uma possibilidade de intenção.

«Arte implica vida, vida implica arte», assim expressa numa obra. Quer falar um pouco desta perspectiva?
É uma frase que expressa a inter-relação, a influência da arte na vida e da vida na arte, que pode ajudar a entender melhor tanto para o autor como para o público, o que nos rodeia. Creio que as coisas mais simples e mais pessoais e quotidianas podem ter um interesse se se colocam de uma maneira adequada. Quer dizer, o ponto de observação, o dar-se conta de coisas que às vezes parece não terem importância mas que a têm. E eu creio que isso é importante, e é parte da curiosidade daquele que olha, do que vê.

O seu trabalho incide igualmente sobre as relações do poder e da sociedade com a arte. Que implicação social deve ter a arte?
Se algo a arte pode contribuir – e esse contributo será sempre modesto, porque eu creio que seria muito pretensioso pensar que a arte pode mudar coisas ou transformar o mundo –, às vezes ocorre que estas intervenções ou contribuições, modestas, podem criar não só uma certa pergunta, como também uma intriga, que talvez chegue a criar ou modificar alguma situação. Creio que estamos num momento em que a arte também contribui para, por um lado, para racionalizar o pensamento, mas também como forma de conhecimento. Creio que pode ajudar a aprofundar certos temas e dar a conhecer situações que não são tão visíveis.

Li uma entrevista sua em que dizia que o autor não inventa nada. Nesse sentido podemos dizer que o artista é mais um reorganizador, um interprete do mundo a que confere novos significados?
Essa frase… trata-se de uma visão quase ecológica… Ao dizer que o artista não inventa, quero dizer que já existem coisas suficientes para se voltar a olhá-las, reposicioná-las editá-las, e que às vezes o contribuir com mais objectos, mais imagens, faz parte de uma poluição que pode criar uma situação que em vez de ser positiva pode resultar no seu contrário. É algo de ecológico de uma forma metafórica, mas creio, na realidade, que já há coisas bastantes para poder voltar a olhá-las, voltar a usá-las e dar-lhes outro sentido. Nesse sentido já não vou falar do que pode ser o conceito de ready-made, duchampiano, mas antes no sentido de que essa curiosidade de que falava nos leve a dar outra leitura a uma situação, a um espaço, um texto, um áudio ou uma série de imagens.

A propósito de texto… neste mundo imagocêntrico, que espaço resta para as palavras?
Eu tenho muito respeito pelas palavras e uso-as, inclusivamente, por vezes, sobre as imagens, como que criando uma acupunctura, em que as palavras dão intenção à imagem. Às vezes a imagem torna-se um background, ou um território, e a imagem é um elemento percutante, que às vezes é crítico ou que fecha a pergunta. Agrada-me chamar-lhe acupunctura no sentido de tocar a fibra, ou o ponto nevrálgico da imagem. Às vezes, simplesmente, as palavras ou o texto ajudam a contextualizar.

O que ensina uma retrospectiva?
Bem, neste caso, não se trata bem de uma retrospectiva… Há uma palavra em inglês, cuja tradução exacta não encontro em castelhano, talvez em português, que é a palavra survey, que é como um panorama transversal sobre o trabalho. É justamente do que se trata aqui. Esta «pesquisa» começou em Madrid, no Reina Sofia, com uma exposição que a Daina Augaitis comissariou, e quando a isabel Carlos propôs fazê-la aqui em Lisboa é claro que a exposição mudou. Seria, de resto, ridículo fazer aqui o mesmo que em Madrid. Aqui era importante dar uma noção do trabalho, fazer com que uma amostra do meu trabalho possa conectar com o público.

~ por pedroteixeiraneves em Julho 2, 2012.

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