rufus wainwright – uma entrevista

Rufus Wainwright
«Out of the Game»

Há dois anos que, discograficamente falando, não tínhamos notícias dele. Então, editou «All Days Are Nights: Songs For Lulu», agora, Rufus Wainwright regressa com o muito recomendável «Out of the Game». Produzido por Mark Ronson (que trabalhou com Amy Winehouse ou os Duran Duran), o álbum reúne doze temas inéditos, para além de contar com a colaboração dos Dap-Kings. Eis a conversa que tive com ele, ainda sonolento, acabado de acordar às 12h00, na tarde que antecedeu o seu «encore» no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e em vésperas de partida para o Porto. Foi há cerca de duas semanas…

Pedro Teixeira Neves

“Out of the Game” é o título deste álbum. Pode decifrar-nos um pouco o que se esconde por trás dele?
O título «Out of the Game» tem vários significados ou pode assumir diversas leituras. Por exemplo, o facto de eu estar quase a fazer quarenta anos, por exemplo o facto de nos últimos anos muita coisa ter acontecido na minha vida… Por exemplo ainda, o eu estar fora do negócio da música, isto é, ter deixado de actuar neste universo como um adolescente. De outro modo, é uma espécie de statement, como que a dizer que a minha criação já não é parte desse jogo. Em suma, todos estes anos de trabalho e de evolução fazem com que o resultado se veja neste disco e isso de alguma maneira está expresso no título do álbum.

É também uma declaração de vontade no sentido de mudança?
Sim. Acho que se trata de fazer uma mudança e ver até onde isso me leva. Não sei como vai ser, mas sinto que preciso de uma resposta definitiva depois de todas estas mudanças na minha vida, a morte da minha mãe, Kate McGarrigle, o surgimento de Vida, enfim, vamos ver no final da tournée o que realmente significa.

Quer isso dizer que o Rufus que conhecemos é agora outro neste álbum?
O Rufus Wainwright neste álbum, que fez este álbum, é um Rufus muito confortável nalguns aspectos da minha vida. Creio mesmo que é um dos primeiros trabalhos em que consegui relaxar, desfrutar, divertir-me em estúdio… Trabalhar com o Mark Ronson foi algo de fabuloso, é um tipo excepcional, acedeu de imediato a trabalhar comigo, e foi talvez a primeira vez que não estive tão preocupado em provar a mim mesmo se sou bom ou não, se o que estava a fazer ia ser um êxito ou não. Portanto, tratou-se de desfrutar. Ao contrário de outros álbuns, aqui não andei tanto à procura de alguma coisa, limitei-me a deixar fruir as coisas.

E como foi a composição dos temas. Aconteceu tudo de uma só vez, ou antes os temas foram aparecendo?
Bem, na verdade o disco foi sendo composto com algum tempo, sem pressas. O tema Out of the Game foi, digamos, a primeira flecha que tivemos na artilharia. Na realidade… Eu tinha acabado de escrever uma ópera, chamada «Prima Donna», que ainda vai ser apresentada, entretanto estou a escrever uma outra… Mas, durante esse período, como já disse, a minha mãe, a quem eu era muito ligado, faleceu, tive uma filha, portanto entrei digamos no mundo dos adultos. E isso, volto a dizer, condicionou muito este álbum. De modo que é um álbum muito feito de instantes, de acordo com a evolução dos meu sentimentos. Por isso, há uma música dedicada à minha filha [Montauk], à minha mãe [Candles]…

De qualquer modo, ou talvez por isso, é também um disco com uma notória alternância de emoções…
Sem dúvida. Eu nunca poderia ter dito «vou fazer um disco pop!», em que cada música seria muito alegre, sem qualquer sombra ou tragédia, enfim, não seria mesmo o retrato daquilo que eu sou. Eu trago tudo isso, todos esses estados de espírito dentro de mim e levo-os onde quer que vá, faz parte da minha existência. O que tem o seu lado positivo, uma vez que me dá a noção de que posso fazer o que quiser sem deixar de ser o Rufus, sempre com uma ponta de lamento, de melancolia, mas também com um sorriso fácil em muitas ocasiões.

Escreve muito acerca dos seus sentimentos mais íntimos e pessoais. Não teme expor-se demasiado, ou a música deve ser isso mesmo, uma partilha de sentimentos?
Sim, isso é verdade, mas não sei o que a música deva ser. Cada músico tem o seu ângulo de abordagem ao que quer fazer, cada um tem o seu modo de estar na música, ou noutras artes, e expressar-se da forma que entende. Eu, na verdade, venho de uma tradição algo introspectiva, com a correspondente exposição emotiva. O meu pai [Loudon Wainwrhight] escrevia, escreve desse modo, até o meu avô, que era jornalista, escrevia sobre a sua vida, portanto… Portanto, é uma tradição. A minha irmã fá-lo, a minha outra irmã também…

Fale-me mais um pouco do trabalho com o Ronson.
O trabalho com o Mark, como já disse, foi fantástico. O Mark é um das pessoas mais fascinantes, charmosas e talentosas que há neste planeta. Eu realmente… em duas horas a trabalhar no projecto eu já estava apaixonado! E para ser sincero são muitos os temas que devem a sua essência ao seu génio. Enfim, fomos variando e trabalhando em conjunto. Há músicas, como Rachida, que são 100% dele, outras, como Candles, que foi composta por mim só, muito embora ele tenha estado sempre lá, ao meu lado.

Candles é a música que encerra o álbum alguma razão especial para essa decisão?
A minha mãe, Kate McGarrigle, faleceu há cerca de dois anos, nós eramos muito próximos e de facto isso marcou-me muito, foi muito difícil. Eu cheguei a trazê-la a Portugal uma vez, fizemos um concerto juntos… Bem, e ela era uma força demasiado grande para não estar representada no meu trabalho, o que não acontece apenas neste álbum. Eu também canto muito, por outro lado, o seu trabalho, ela era uma grande escritora de canções, e tanto eu como a minha irmã Martha cantamos muito as suas músicas. Portanto, ela continua por aqui… Estar no final do disco é talvez uma forma de despedida… e é uma canção muito emotiva.

Porquê, a esse respeito, também a decisão de usar as flautas…?
Isso tem que ver com uma festa de anos em que estive no ano passado, do Sting, que fazia sessenta anos. Foi em Nova Iorque e havia uma festa enorme com um concerto onde estavam pessoas como Stevie Wonder, Billy Joel, eu próprio, Lady Gaga… E no final do concerto, Trudy, a sua mulher, tinha contratado um regimento escocês, o The Black Watch, com um som espantoso… Então eles apareceram a tocar e eu fiquei maravilhado. Daí surgiu a inspiração. Mas o Sting tinha vinte músicos, eu tive apenas um…

E quanto à opção pelos músicos dos Dap-Kings?
Isso foi ideia do Mark. Ele tinha trabalhado com eles com a Amy, conhecia-os muito bem, e ele queria… Bem, eu também queria um grupo de músicos, uma banda que me desse uma sonoridade singular. E conseguimo-lo ao convidar os Dap-Kings, apesar de terem uma sonoridade mais conotada com o R&B… Infelizmente a Amy morreu, a cerca de um mês de irmos para estúdio, o que foi uma tragédia, mas, por outro lado, possibilitou-nos uma experiência muito bonita, porque pensámos muito nela… Foi muito bonito.

Qual foi o seu primeiro pensamento depois de ouvir o disco terminado?
A primeira vez que ouvi o disco, completamente masterizado, sequenciado, já sem poder alterar nada, foi quando estava no deserto, em Joshua Tree, na Califórnia, e chorei no final do disco! Porque… estou muito feliz com este álbum. Aconteceram tantas coisas nos últimos anos e creio que está tudo aqui. E tem um lado muito positivo, não é um disco difícil de ouvir e é muito emocional.

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~ por pedroteixeiraneves em Julho 2, 2012.

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