rosa maria perez – «o tulsi e a cruz» – uma entrevista

«O Tulsi e a Cruz – Antropologia e colonialismo em Goa»
De Rosa Maria Perez

Um livro que constitui uma ruptura com a perspectiva dominante nas ciências sociais portuguesas. Perspectiva lusocêntrica e que tendia a ver Goa como um território essencialmente católico. Pelos vistos não é assim, nunca terá sequer sido. É isso que defende, com provas inventariadas e experienciadas in situ, Rosa Maria Perez, que parte de uma abordagem ao tulsi, pequeno templo hindu, para nos dar um arejado fresco antropológico da Goa de ontem e de hoje. Aqui, a conversa sobre «O Tulsi e a Cruz», edição da Temas e Debates, cujo mérito da escolha editorial nada se faz acompanhar pelo péssimo design de capa e trabalho interior de amostragem fotográfica. Desígnios editoriais que a razão desconhece…

«O Tulsi e a Cruz»… Que objectivos nortearam esta pesquisa, este projecto de investigação antropológica, agora vertido a livro?
Esta pesquisa não aparece isolada e com um objectivo que começa com ela, começa muito antes. Começa numa aldeia do Gujurat, com um trabalho sobre intocáveis, com uma casta de intocáveis, hoje em dia chamados Dalit na Índia, que são as castas mais desvalorizadas do sistema social indiano, e depois tentei dar continuidade a essa pesquisa noutro contexto em que a intocabilidade tivesse sido exposta a outras práticas culturais. Tinha pensado no Islão, acidentalmente acabei por trabalhar em Goa, já não com intocáveis, mas com mulheres estigmatizadas, dos templos hindus de Goa, que são as devadasi. Portanto, o objectivo deste livro é anterior ao livro, isto é uma sequência lógica do meu trabalho de investigação na Índia, o meu trabalho de campo na Índia, de longa, já longa duração, com vinte e tal anos já de duração, exactamente, e dá, de certa maneira, continuidade lógica, do ponto de vista antropológico, ao meu trabalho anterior. Claro que trabalhar em Goa levanta outras questões.

E foi aí que foi descobrir traços vincados do hinduísmo, ao contrário do que muita gente poderia pensar…
Exacto.

Para seu espanto?
Para meu espanto. Porque eu lembro-me que a minha primeira decisão relativamente à Índia, quando decidi fazer doutoramento sobre a Índia e trabalho de campo sobre a Índia, eu já tinha decidido que ia trabalhar com castas de intocáveis, na altura chamadas intocáveis, uma vez que a produção dominante sobre a Índia é feita através das castas ditas superiores, e lembro-me de na altura ser absolutamente desencorajada, quer pelo meu director científico cá, quer por uma pessoa com quem estava a trabalhar em Paris, porque viu Goa como católica, lusófona. Portanto, eu lembro-me de este espantoso professor francês e antropólogo me dizer «porque é que não escolheu uma aldeia portuguesa?» E, portanto, era como que dissuadida de o levar por diante… Bom e lembro-me que a primeira vez que fui a Goa eu tive logo esse desconcerto, que foi perceber que, de facto, nas velhas conquistas, Goa é predominantemente católica ou tem uma presença católica muito forte ao nível arquitectónico, sobretudo ao nível arquitectónico-urbanístico, a nível do desenho do espaço. Por outro lado, quando saímos das velhas conquistas, que são os primeiros territórios conquistados pelos portugueses, e que estão bastante acantonados à volta de, justamente, Pangim, da capital do estado de Goa, nós percebemos que o Hinduísmo é dominante. Mais tarde, quando voltei a Goa, já com intenções de trabalho, de facto, aquilo que se tornou manifesto era que Goa é predominantemente hindu, ao contrário dos nossos hábitos de pensar e daquilo que nos foi transmitido pelos, sobretudo pelos historiadores que trabalharam na Índia, os historiadores portugueses, investigadores portugueses, que Goa seria católica, lusófona, moldada por referentes culturais portugueses. E o concani, que é a língua oficial do Estado, é dominante em Goa e sempre foi, mesmo nos períodos mais áureos da conversão ao catolicismo.

É, portanto, um livro, como escreve, que desmonta algumas ideias pré-concebidas acerca de Goa…
Desmonta a partir daquilo que me parece ser a única possibilidade de desmontagem, como antropóloga, que é, embora não tenha abandonado o plano dos textos, tendo preferido todavia textos não canónicos, que normalmente não são trabalhados ou nem sequer integrados nas bibliotecas oficiais, mas não tendo negligenciado esse plano, a único possibilidade de acesso possível a um entendimento mais íntimo e mais global de Goa é, de facto, ao nível da antropologia, ao nível daquilo que faz a centralidade da antropologia, que é o trabalho de campo, o trabalho etnográfico. E, portanto, este trabalho resulta de uma observação prolongada e tão íntima quanto possível do hinduísmo. Obviamente que também partiu de uma abordagem e estudo relativamente aos sectores da Goa clássica, da Goa católica, mas o meu lugar de observação privilegiado foi o templo hindu e foi o hinduísmo.

É contudo um livro que também faz a síntese entre dois mundos, e daí este título…
Faz e daí esse título e daí, sem qualquer nacionalismo, uma singularidade que tem que ver com o colonialismo português e que tem a ver com o plano dos grandes encontros culturais no mundo. É claro que estou a ser ousada ao falar dos grandes encontros e ao singularizar Goa, singularizo-a absolutamente no contexto da Índia e da Ásia do Sul, que eu conheço, e de outros contextos asiáticos de encontro de culturas locais com culturas europeias. Agora, de facto, estamos perante um encontro muito particular em que houve cruzamentos marcados e constantes e contínuos ao longo dos cinco séculos de presença colonial portuguesa…

E de convivência pacífica?
Muito, muito, muito. É claro que de vez em quando houve algumas contestações, mas não era entre cidadãos, na altura portugueses, de filiação católica ou de filiação hindu. Era em oposição à presença colonial, como houve noutros estados da Índia, na altura sob domínio britânico, e mesmo naqueles poucos estados estavam sob domínio francês. Portanto, houve sempre uma coexistência, eu diria, mais do que pacífica, extremamente criativa do ponto de vista da forma como estas duas culturas se cruzaram e se entreteceram e criaram formas de relacionamento muito particulares, quer ao nível da sociabilidade, quer ao nível ritual, quer até ao nível político.

E é tudo isso que molda a singularidade do ser goês, hoje em dia?
É. Neste momento Goa é um contexto muito particular da Índia. É um destino turístico privilegiado, corresponde a um projecto manifestamente politico e económico da própria Índia, do governo central, que é rentabilizar justamente o turismo em Goa, curiosamente rentabilizando o património cultural português. Se fosse a Goa há dez anos tinha a desolação de ver os velhos monumentos da velha Goa senão em ruínas, pelo menos danificados, as casas maravilhosas a caírem, os telhados a caírem pelo meio…

Mas isso apenas por acção do tempo, ou tratou-se, como noutros locais do Império perdido, por acção directa dos locais em tradução de vinganças ou acertos de contas com os ex-colonizadores?
Não, claro que aí houve uma intenção óbvia, que é a partir da altura em que goa se tornou indiana, foram derrubados os indicadores da presença colonial portuguesa, as estátuas, os nomes de ruas foram alterados, embora alguns se tenham mantido ainda, mas eu estou a falar a nível patrimonial. Goa tem um património fabuloso, e agora o que acontece é que há um investimento enorme do governo indiano em Goa, que se começa a notar logo em Dehli. Quando se está em Dehli vê-se logo os anúncios de Goa, com os estereótipos todos do fado, da alimentação, dos restaurantes, das palmeiras ao luar, de um romantismo para turista e de uma recomposição do exotismo que desta vez é europeu, português. Vê abrir restaurantes nos lugares turísticos como nomes portugueses, do género Tia maria, às vezes até adulterados, não este, mas outros… Portanto neste momento Goa é muito singular e por isso é singular de muitos pontos de vista, que de resto enuncio neste livro. Goa acolhe um dos maiores festivais de cinema do mundo, os grandes escritores da índia deslocam-se ou regular ou permanentemente a Goa, é o caso de Amithav Ghosh, multipremiado. E depois tem outro fenómeno curiosíssimo, que é quando se está na Índia, como eu estive agora quatro meses, e se lê os jornais diários, vê-se que as estrelas de Bollywood, e Bollywood é o que nós sabemos, vão casar a Goa, fazem festas em Goa e, mais do que isso, estão a comprar os solares de Goa, de matriz portuguesa, nos lugares mais deslumbrantes, à beira do Mandovi, à beira do Zuari, e portanto de repente nós vemos Bollywood em Goa.

Até que ponto foi de facto diferente o colonialismo português em Goa?
Eu escrevi noutro livro, não neste, que é minha convicção que – eu não sou obviamente especialista em todos os colonialismos portugueses, não é possível do ponto de vista antropológico… ser especialista na Índia, de resto, requere várias reincarnações e eu não acredito nisso… mas de tudo o que eu leio e do quadro comparativo que me foi possível desenhar, eu diria que Goa é efectivamente singular no contexto do colonialismo português no mundo.

Singular sob que pontos de vista?
É singular sob muitos pontos de vista. É singular, apesar da conversão forçada, apesar de períodos extremamente penosos, como a Inquisição… – não vale a pena ocultarmos ou eufemizarmos esses períodos. A verdade é que o tecido social goês é absolutamente distinto. Para dar um exemplo, a própria sociedade católica está organizada num sistema muito próximo do sistema de castas em que a sociedade hindu está organizada. As formas de alimentação cruzaram-se de uma forma muito curiosa, as formas de vestuário, as formas de sociabilidade. É claro que os casamentos entre católicos e hindus ocorrem com muito pouca frequência, mas isso tem a ver com a lógica do sistema de castas que se preserva através da endogamia, isto é, através do casamentos de indivíduos dentro da mesma casta, ou dentro do sistema religioso.

A velha questão no que ao sistemas de castas se coloca, sobretudo não conhecendo o sistema por dentro e vendo-o de uma perspectiva ocidental. Até que ponto é um sistema justo?
Depois de trabalhar tantos anos na Índia, é também minha convicção, e também desenvolvi isso noutros contextos, que atribuirmos à Índia essencialismos, género sistema de castas, espiritualidade, etc., é redutor. E de facto é meu entendimento que o sistema de castas encontra tradição cultural noutros sistemas, nomeadamente as classes, e em Goa, justamente estas devadasi, com quem eu trabalhei, iniciaram um movimento curiosíssimo e muito singular no próprio contexto da Índia, na sua globalidade, é que, primeiro, conseguiram ainda no governo colonial, o reconhecimento do casamento dos seus filhos, oq eu não era aceite, depois, quando constituíram uma casta, embora tenham dado um nome não de casta mas todos os princípios organizadores foram de casta, e todo o investimento foi feito na educação. E a partir de uma educação universitária, superior, dos filhos, e que elas próprias já tinham, embora não formal, tinham uma educação informal sofisticadíssima, a verdade é que em duas ou três gerações o sistema de castas deu lugar a qualquer coisa que nós podemos identificar como classe. O que nos leva a abandonar outros estereótipos, nomeadamente o estaticismo que é atribuído ao sistema de castas, o imobilismo, é muito mais fluído e mais fluxo do que tendemos a acreditar. Agora é claro que as castas contêm um fenómeno de tremenda injustiça social que é a segregação, que é a dos intocáveis, os dalit, com quem estou a trabalhar em Goa. E esse foi o meu grande desconcerto: a intocabilidade, que continua a manifestar-se mesmo numa sociedade tão cosmopolita e tão marcada pelo catolicismo, em princípio incompatível com ela, com a intocabilidade que continua a manifestar-se, a níveis mais subterrâneos da sociedade. Essa sim é a grande discriminação social, a grande segregação que o sistema comporta e de facto enquanto houver intocabilidade há sistema de castas. Mas isso faz parte de um quadro muito mais vasto e remoto que é o do próprio hinduísmo, a Índia e noutros contextos em que o hinduísmo se implantou.

O que é exactamente um tulsi?
O tulsi é um pequeno templo, e de facto digo pequeno templo porque quando nós falamos de templo no hinduísmo temos que redimensionar a nossa escala de templo… Isto porque na Índia um templo começa no templo doméstico e acaba obviamente nos grandes templos hindus. O Tulsi é, de facto, um pequeno templo que é construído, é posto à porta das casas hindus, e no caso de Goa distingue uma casa hindu de uma casa católica. Basicamente, o tulsi é o basílico, é aquilo a que nós podemos chamar o manjericão. A planta do tulsi; portanto, o tulsi é uma planta…

E a quem é ele votado ou dedicado?
O tulsi é dedicado a Vishnu, e está muito associado à fertilidade socio-cosmogónica, desse ponto de vista, está ligado à protecção, à criação, à criação do mundo, da família, à sua permanência.

E que significado podemos tirar da junção que no título deste livro faz entre o tulsi e a cruz?
O tulsi e a cruz traduzem, para mim, o cruzamento permanente, e em permanente construção, que encontramos em Goa, do hinduísmo e do catolicismo. O que torna Goa singular, de facto. Quer do ponto de vista da própria Índia, quando olhamos para o resto da Índia, quer quando a própria Índia olha para Goa. E de alguma maneira é também singular do ponto de vista da construção identitária dos próprios goeses. Há uma marcada goanidade que é feita muito deste cruzamento e deste encontro cultural muito específico e muito fecundo também.

~ por pedroteixeiraneves em Julho 4, 2012.

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