manuel estrada no mude – uma entrevista

Onde Nascem as Ideias – Cadernos de Equilibrista

Manuel Estrada. O seu nome confunde-se com o design gráfico em Espanha. Confere nome a um atelier criativo em Madrid, onde reside e trabalha, e é autor da imagem de inúmeras marcas de prestígio. Foi dele também que nasceram as capas espanholas dos livros de José Saramago, tal como foi da sua mão que nasceu o logótipo da Fundação que em Lisboa toma o nome do escritor d’«A Jangada de Pedra» ou d’«O Memorial do Convento», entre outros títulos. Numa rara oportunidade, o MUDE, Museu do Design (na Rua Augusta) mostra uma belíssima exposição onde muita da sua criatividade é posta à prova. Depois de ter passado por Berlim e Helsínquia, e antes de atravessar o Atlântico rumo a Miami, sem dúvida, uma das exposições do ano em Lisboa. Aqui uma breve conversa com Manuel Estrada.

Por Pedro Teixeira Neves

Manuel, onde nascem as ideias?
As ideias nascem quando se convocam. Da busca das ideias nascem as ideias. Por isso ando sempre com um caderno no bolso, porque as ideias nascem na nossa cabeça e eu fixo-as com um desenho.

Só com um caderno, nada mais?
Só com cadernos. Uso a tecnologia, como todos agora o fazem, e é natural, mas eu confio mais na conexão automática da minha mão com o meu cérebro e a minha cabeça.

Ideias, aqui e ali, todos as podemos ter. O que faz a diferença entre uma ideia e uma boa ideia?
Creio que uma ideia deve ser provada na prática, portanto o trabalho dos desenhadores não se mede tanto em si mesmo como pelo efeito dessa ideia quando levada à prática. E a prática de uma capa de um livro é a capa ela mesma, a prática de uma ideia para um logótipo é um logótipo. De modo que, no final, a ideia não deixa de ser uma mera ocorrência se não se medir por um bom resultado. É o resultado que nos permite valorar a ideia.

E do muito que fica para trás, tem por hábito regressar e aproveitar alguma coisa?
Não. Eu creio que o desenhador deve utilizar uma espécie de filtro do sistema como os que utilizam os buscadores de ouro para separar as pepitas da areia. De modo que a própria experiência te permite mais ou menos intuir que uma ideia pode ser uma pepita de ouro ou é simplesmente areia. Há que seguir lavando sempre em rios distintos. Como dizia Heráclito, a água renova-se com novas pepitas e novas areias.

Como conseguir, nos dias de hoje, conjugar a necessidade comercial de vender uma ideia com a exigência artística e estética?
Eu creio que no mundo do design gráfico a venda é só um momento do nosso trabalho. O nosso trabalho existe antes da venda e existe depois. Por exemplo, em matéria de capas de livros, as capas funcionam no momento em que o comprador de livros os compra. Que percentagem tem a capa nessa decisão? Não sabemos, certamente alguma. Mas quando o comprador de livros leu o livro e diz: esta capa entendo-a, está bem feita e reflecte o conteúdo do livro, isto prolonga a vida do livro, a vida da ideia, a vida do desenho e converte o desenho num bom desenho. De modo que no final, o editor, o comprador, entende o papel do desenho não apenas como um mecanismo de venda, como também algo confere ao livro uma vida mais longa.

Que conselho, a um tal respeito, daria a um jovem desenhador?
Eu, se tivesse de recomendar alguma coisa aos desenhadores num mundo concorrencial dir-lhes-ia para darem mais vida que venda ao desenho. Há que vender, mas não só. E às vezes nem sequer isso é fundamental.

Olhamos para estes seus cadernos, com desenhos incontáveis e tudo parece muito fácil. Quanto no seu trabalho corresponde a inspiração e quanto a transpiração?
Eu creio que a transpiração equivale a uns 90%. Porque, como dizia antes… é verdade que sem inspiração o desenho é interior, mas a transpiração é que traz a inspiração. De modo que a boa ideia e o bom trabalho aparece como reflexo do trabalho e do suor.

A «origem do impulso criativo é um mistério», lê-se à entrada da exposição. Concorda?
Sim, totalmente.

E sendo que se trata de um mistério, quase não passível de ser explicado, depois de uma boa ideia sente algum tipo de ansiedade?
Sempre. Era mesmo algo que me dava algum medo quando comecei a trabalhar. Agora, estimula-me e parece-me excitante, já não me dá medo essa ideia do papel em branco, do ficar em branco.

Por diversas vezes desenhou as capas das traduções das obras de José Saramago em Espanha, tal como é o autor do logótipo da Fundação Saramago. Que tipo de relação tinha com a obra de Saramago?
Eu conheci Saramago, trabalhei sobre a sua obra e apreciei-o muito. Conheci-o quando trabalhava em Espanha, viajava muito, Lisboa, Madrid e o resto do Mundo. Normalmente via-o nas suas paragens por Madrid, quando estava a fazer as capas dos seus livros e procurava sempre ler os seus livros antes de fazer as capas. Sempre com esse objectivo que anteriormente assinalei, de que as capas não servissem apenas para vender, como também para reflectir aquilo que os livros contam. E foi isso que Saramago entendeu muito bem. Saramago parece-me claramente um dos personagens-chave do século XX, XXI, deste princípio do século XXI. Não só pela sua capacidade de escrever bem, como também pela sua capacidade de reflectir sobre o mundo em que vivemos.

E quanto ao universo imagético dos seus livros, os seus livros suscitavam muitas imagens?
Os seus livros suscitavam muitas imagens, sem dúvida, mas importante, creio, é não substituir a literatura por imagens. É mais fácil para mim fazer a imagem de um ensaio do que um livro de ficção. Porque a narrativa são imagens escritas com palavras. Se as substituímos e arrogantemente pensamos que as imagens podem fazer as vezes das palavras tiramos-lhes a sua identidade. Portanto, o que eu faço é apenas sugerir. E isto, repito, José Saramago entendeu-o muito bem, o trabalho que eu fazia. E por isso nos entendíamos bem, juntamente com Pilar del Rio. Para mim, foi uma sorte tê-lo conhecido.

Hoje, sobretudo no que à fotografia respeita, e num mundo imagocêntrico, fala-se muito na verdade da imagem. Esta é uma questão que também se coloca no domínio da imagem do desenho gráfico?
Eu creio que a imagem manipulada na fotografia, os efeitos especiais no cinema, o Photoshop no grafismo, creio que nos acostumámos tanto a isso que por vezes podemos de facto confundir aquilo que existe com o que não existe. Eu tento criar uma realidade e fotografá-la sem modificá-la, mas também estamos a inventar a realidade! Uma imagem minha que aqui está, por exemplo, a da máquina de escrever que liberta grandes folhas verdes, isto para falar d’«O Livro da Selva», de Rudyard Kipling, é uma imagem que não corresponde à realidade; as máquinas de escrever não cospem folhas verdes! Escrevemos letras em folhas de papel. Portanto, a realidade também somos nós que a criamos. Podemos brincar com ela, com tecnologia ou sem tecnologia. Eu prefiro não utilizar demasiada tecnologia convencional da última geração, porque me parece estar a contaminar um pouco a nossa percepção. Por exemplo, o cinema. Creio que os efeitos especiais estão a primar demasiado sobre os guiões e sobre as histórias. Claro que a realidade é moldável e a criação não pode existir sem essa possibilidade de reinterpretar, recriar a realidade, mas não nos deixemos seduzir tanto pelo encanto da tecnologia, que é como um cavalo sem freio agora…

É possível resumir o que seja uma boa imagem?
Eu creio que uma boa imagem… Dizemos por vezes que uma imagem vale mais que mil palavras. Eu creio que por vezes uma boa imagem deve ser igual a uma boa palavra ou a cinco boas palavras. Uma boa imagem não deve querer dizer demasiadas coisas, mas sim sintetizar as coisas essenciais relativamente à mensagem que quer passar. E, portanto, neste mundo de muito ruído de imagens, temos que tentar que as imagens expressem realidades de uma forma muito clara.

Lê-se numa destas paredes qualquer coisa que mais parece um manifesto acerca da mais-valia criativa de países antiquíssimos como Portugal e Espanha… Porquê esta espécie de memorando público?
Eu, como muitos amigos, penso que Portugal e Espanha são similares em muitas coisas e esta é uma realidade que os espanhóis, não sei se também os portugueses, por vezes esquecem. É um enunciado que creio valer para os dois países. Tal como o muito que creio os dois países têm para dar ao mundo, e este, apesar de tudo, pode ser um bom momento para isso.

~ por pedroteixeiraneves em Julho 20, 2012.

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