olimpíadas poéticas

RECORD

no café o velho campeão

de lançamento do dardo

lançava os dados sobre o mármore

da memória e atirava aos amigos da sueca

os números e medalhas que outrora alcançara

estabelecendo ali mesmo um novo

recorde de emoções.

 

SONHO EM ALTURA

o sonho do seu maior salto

nunca fora suficiente para o arrancar

a grandes voos. sempre vivera

demasiado longe de si mesmo

para se poder ultrapassar.

 

FOI PARA CASA

em pequeno o pai lera-lhe

que antigamente aos vencedores

ofereciam poemas e louros. pensou em correr

velozmente atrás dessa ideia

mas quando chegou para competir

quiseram dar-lhe metais. desistiu

e foi para casa escrever poemas.

 

 

 

INSPIRAR FUNDO BEM AO ALTO

escolheu o salto à vara

nos pulmões tinha nuvens

no olhar uma fasquia elevada.

 

EM BAIXO DE FORMA

encontrava-se em má forma

as barreiras pareciam-se com montanhas

e o estádio parecia desabar sobre ele

como um silêncio de multidões.

 

PUNHOS DE AÇO

soçobrava

porque lhe faltavam forças e braços

porque afinal até os deuses

tinham limites. ao décimo assalto caiu

tombou como um anjo de ferro

enquanto a multidão aplaudia novos

punhos de aço.

 

OS MÍNIMOS

devorar quilómetros

ou ser por eles dilacerado?

pensava nisto enquanto corria

tentando iludir a lesão e o medo

de não alcançar os mínimos para a felicidade.

 

CORRER

cem metros sem metros

destruir distâncias construir ausências.

 

COMO QUEM ATRAVESSA DOMINGOS

correr correr correr

como quem atravessa domingos

como quem quer somar passados

como quem teme o castigo

de falhar o primeiro lugar

num poema de amor.

 

INÉDITO

era praticamente um desconhecido

chegou e pareceu dizer como o romancista alemão

bernhard kellermann: «eis alguns inéditos

da minha pe(r)na.» depois correu

como uma antologia de páginas íntimas e inéditas.

 

ELE VS ELE

o espelho era o seu maior adversário.

mas como vencer-se

sem se render?

 

 

 

 

A GLÓRIA DOS DEUSES

olhava os outros

olhava-lhes os olhares

crentes e insanos

sonhando os louros e a glória

dos deuses.

 

META

ao cruzar da meta

são máscaras de dor os músculos corroídos

as esperanças ultrapassadas

ao quilómetro vinte e sete vinte e oito…

à hora do embarque chegarão por certo

no regresso anónimo a casa.

 

DEUSES FALÍVEIS

ao último round duvidam

já dos corpos consumidos no esforço

e então ardem como anjos de cera

por vezes apagam-se

deuses falíveis

versos contra tempestades.

 

KAFKA NA LINHA DE PARTIDA

apesar de aparentar um insecto

lado a lado com os outros na linha de partida

a sua determinação era tão forte

quanto uma obsessão por Kafka.

 

 

FOTO FINISH

olhos arregalados abertos sobre o espanto

de si mesmo as mãos raízes invertidas

como espelhos de uma desordem interior

que por milésimos tomava o nome verdadeiro

da felicidade alcançada.

 

APLAUSO VIVACE

corria

com brio

com anima

com allegrezza

com espressione

com fuoco

com moto

com sentimento

com spirito

com tenerezza

com deciso

com delicatezza

e contudo

ficara em último lugar. nada que o impedisse

de abandonar a pista sob um animato

vivacíssimo e maestoso aplauso.

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 4, 2012.

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