conto breve para um sábado de cidreira

Era uma vez um país que aceitava tudo. Parecia um corpo alheio ao seu relógio íntimo, respirando ensurdecedores silêncios. Os instantes desprendiam-se com os dias, como folhas outonais, logo, logo varridos pelo vento. Tudo no imediato ganhava contornos de vazio e ruína. Um dia, as pessoas desse país saíram à rua e só eram capazes de vislumbrar o passado por entre sombras e nevoeiro. Dentro delas, era como se o tempo se arrastasse para trás, pesado, denso, negro, numa cadência de trevas. Um lastro de sinos a toque de finados. Um dia, o tempo parou, porque as pessoas tinham parado, sem futuro. Tinham aceitado tudo e o tudo não era senão nada. E as pessoas, ao espelho, eram vertigem, túmulos à superfície da miséria. Privadas de futuro, as pessoas deixaram de aceitar tudo. Pela primeira vez em muito tempo sorrisos nasceram nas suas bocas. E o seu querer pareceu germinar. Aos poucos, o medo foi deixando os corpos procurando outros refúgios. O país aprendeu a dizer não, as multidões eram uma fome prodigiosa de desespero e sede. Rosas floriram então nas calçadas ao romper de manhãs de cravo e camomila. Nos dias que vieram o país cresceu em espantos.

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 12, 2012.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: